Tico Santa Cruz, um artista engajado

20/dez/2011, 15h18

O vocalista da banda Detonautas Roque Clube é um artista comprometido com as causas políticas. O Juntos! fez uma entrevista exclusiva com Tico Santa Cruz sobre os acontecimentos na USP. Confira!

Camila Ramos, militante do Juntos! em São Paulo

Juntos! – Como você vê hoje a atual movimentação dos estudantes da USP e suas pautas contra a polícia militar e contra o reitor?

Tico Santa Cruz – Sou do Rio de janeiro, não acompanho o dia a dia da Universidade. Eu me atentei à questão de como a imprensa em geral estava passando a informação e mais, do que isso, como as redes sociais estavam refletindo de forma completamente contaminada e sem qualquer responsabilidade tais questões.
Creio que o pilar principal de um país que se diz ser uma democracia seja, de fato, um regime democrático e, pelo que eu entendi, o reitor atual não foi escolhido por tais preceitos. O debate deve buscar maneiras de reduzir os problemas, porque sabemos que resolver definitivamente algo que envolve tantas opiniões e tantos interesses é complicado.
Primeiro, qual é o real objetivo da polícia militar no Campus? É de verdade a segurança? A PM realmente tem um contingente realmente preparado para lidar de forma honesta e correta dentro de um ambiente como uma Universidade? A quem ela interessa? Pois sabemos que pode inibir um assalto a carros, inibir o uso de entorpecentes, e talvez até atos mais graves como o recente assassinato que ocorreu no território da faculdade, mas estamos declarando publicamente então que qualquer outra maneira de sanar problemas de segurança como estão sendo reivindicados pelos alunos, depende apenas da PM?
Não tenho a Policia como inimiga, mas entendo que há um despreparo de modo geral no país com relação a esta corporação. Para começar pelo fato de que ela é resquício de uma orientação que nasceu na ditadura. Segurança se faz só com homens armados? Não há métodos alternativos para que exista um equilíbrio nessa questão em termos de prevenção? A Guarda Universitária assume a falência? Alunos e policiais militares são cidadãos brasileiros que sofrem com os mesmos problemas no cotidiano. Baixos salários, completa indiferença com relação à segurança dos próprios, pouco interesse do Estado em melhorar o treinamento e oferecer auxílio para seus funcionários. Agem apenas como agentes repressores na maioria dos casos, como se estivessem à parte do sistema. A polícia deve servir ao cidadão como órgão na manutenção do estado democrático e não contra ele.

 

J!– Você acredita que a PM dá conta da segurança dos cidadãos? Se não, quais são as alternativas?

TSC – Qualquer grande metrópole convive com a violência urbana. A PM é apenas um placebo. O que pode melhorar a segurança está vinculado a outros fatores, mais profundos, que exigem mais atenção e principalmente boa vontade política. O brasileiro é imediatista, quer que seus problemas individuais sejam sanados imediatamente. Esquece que precisa participar das escolhas e decisões que devem ser tomadas. Agimos sempre após o transtorno e não para evitá-lo. Assim como existem policiais corruptos, existem alunos corruptores, cidadãos que desejam sempre escapar com jeitinho de algo errado que praticou.
A verdade é que só queremos punição aos outros. Sabemos que o trabalho é em longo prazo, vinculado com a educação, os direitos básicos do cidadão, que sequer sabe quais são esses direitos. Não há uma estruturação em escolas públicas, principalmente para suprir as necessidades educacionais dos jovens. As comunidades pobres são eternamente negligenciadas. Não interessa a nenhum poderoso que as pessoas pensem. Por isso é complicado buscar alternativas.
Investir em conhecimento, em dignidade para a população, em todas as variáveis que evitem que um indivíduo opte pelo crime. Mas isso dá muito trabalho e tem pouca vantagem política, não rende votos. O que resolve então? A repressão a qualquer ato que possa colocar esses homens que tem o poder das decisões políticas em xeque. A PM de São Paulo é uma das que mais mata no mundo. É essa a solução? Exterminar o que não somos capazes de transformar? Se a Policia apenas fosse solução, não estaríamos passando por um momento de tamanha insegurança nacional.

 

J! – Em seu texto, você critica a imprensa na cobertura do movimento e fala em “interesse”. Para você, qual é o interesse da grande imprensa nessa cobertura? Como escapar desses interesses?

TSC – O interesse é rotular e transformar e associar qualquer movimento popular de cunho político em vandalismo, terrorismo ou ridicularizar os que saíram do conforto e partiram para uma frente de contestação, inibindo outros movimentos.  Qualquer movimento que contenha resistência, consistência e competência para enfrentar aqueles que dão as cartas, que compram manchetes, que vendem verdades, são alvo.
Com uma sociedade que tem acesso a bens de consumo, que circula por redes sociais sem se aprofundar em mais do que 140 caracteres para de fato entender o formar um opinião sobre um fato qualquer, usar o poder de disseminação de informação de massa como garantia de que serão consumidas sem serem questionadas, fica garantida a manutenção da inércia e a conseqüente apatia da população.
Sabemos que estes veículos trabalham de acordo com interesses políticos, e sabemos mais do que isso, que existe um medo coletivo de que estas manifestações descambem para atos mais violentos e que percam o controle que eles mantém pelo medo. Não sou a favor da violência, mas se for necessário o uso da força para fazer valer uma reivindicação justa, que seja feito o uso da força. Esse papo de movimento pacífico é muito bom quando há um dialogo honesto por ambas as partes, mas existe um dialogo honesto acontecendo?

 

J! – O movimento aprovou a incorporação da reivindicação por 10% do PIB para a educação, que é uma campanha que tem sido levada desde o início do ano pelos movimentos sociais que lutam pela educação. O que acha dessa pauta em si e da incorporação dela ao movimento neste momento?

TSC – Acho que, enquanto a educação for tratada com tamanho desinteresse e com tão poucos investimentos, seremos uma potência econômica emergente que tem dinheiro mais não tem conhecimento, cultura e que não dá oportunidade dos cidadãos pensarem e chegarem às conclusões que lhes interessam como POVO, para finalmente participar de uma democracia. Não há democracia onde não há estímulo ao pensamento livre.

 

J! – Em seu texto, você também critica a apatia do povo. Como você acha que se pode mudar isso?

TSC – Esta mudando. Mas será preciso ainda muito mais esforços e uma noção melhor de que o que é público pertence a todos nós. Ou de que o fato de não pertencermos ao núcleo de estudantes da USP ou não ser bombeiro, ou professor, não nos impede de ajudá-los em suas lutas e buscar conquistas que sejam importantes para a sociedade. Sociedade significa que somo sócios desse país, logo temos direitos e deverem em comum.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017