Xingu Vive – Entrevista com Gabriela Person

20/dez/2011, 11h28

*Otávio Mancuso

Num belo sábado ensolarado Campinas, no interior de São Paulo, recebeu nada menos do que cinco atos espalhados por toda a cidade, artistas contra fechamento do teatro, em oposição ao aumento do salário dos vereadores, em combate à corrupção e, como não poderia faltar, um ato contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Quando chegamos já havia dezenas de jovens pintando cartazes em defesa do Xingu e criticando a hidroelétrica, ao som de um violão tocando músicas engajadas. O clima de companheirismo e solidariedade perpassava todos os espaços. Quando ao fundo, nos deparamos com Gabriela Person, uma garota que ao pintar o rosto e no braço “Xingu Vive” para receber o premio de jovem cientista da presidenta Dilma representou, durante alguns minutos, o sentimento de jovens de todo o Brasil.

Gabriela, que tem 19 anos e é moradora de Valinhos, acabou de se formar em Meio-Ambiente na Escola Técnica Estadual Conselheiro Antonio Prado (ETECAP), colégio técnico de Campinas ligado ao Centro Paula Souza. Seu principal engajamento é através da música, ela é flautista num grupo que através da música pauta as questões ambientais.

Manifestação em Campinas contra Belo Monte

Ao lado de seu namorado, Henrique, estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos, ela se dispôs dar algumas palavras para o Juntos!.

Juntos!: Primeiro você poderia se apresentar para a gente?

Gabriela: Eu sou a Gabriela Person, estudei na Etecap e lá desenvolvi meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre embalagens ecológicas para mudas. Foi exatamente este TCC que inscrevi no Prêmio Jovem Cientista e acabei ganhando. Por isso, eu tive a oportunidade de receber o prêmio da mão da Presidenta e nesse dia eu não pude ficar quieta.

J: Como você começou a tomar contato com o movimento do Xingu Vivo contra Belo Monte?

G: Isso aí está em todo lugar, na mídia… Eu me preocupo com tudo sobre natureza, meio ambiente, inclusive com o Xingu. Eu escolhi esse tema porque é agora ou nunca, sabe? Eu tinha que me manifestar sobre isso, não podia perder a oportunidade.

J: Nesse primeiro contato com o tema do Xingu você já havia visto alguma manifestação?

G: Só pela internet.

J: Você já havia participado de algum protesto, ou manifestação?

G: Sobre o Xingu não. Só da Serra dos Cocais em Valinhos que é bem mais local, tá um problemão lá… o que resta de verde na cidade estão querendo destruir para fazer condomínios, aí protestamos contra isso.

J: E quem te incentivou a se manifestar na hora de receber prêmio, como você teve a ideia de pintar o corpo?

G: Eu fiquei pensando “Como vou fazer isso?” porque não tinha como falar, acho que seria meio agressivo. Eu fiquei pensando em usar uma camiseta que expressasse minha opinião, mas não tinha como, eu tinha que usar roupa social. Aí eu pensei “Já sei, vou pintar minha cara de índio, passar alguma coisa vermelha e escrever no braço”. Eu só contei para minha mãe, porque se eu contasse para outra pessoa poderia não acontecer. Ela me incentivou bastante e isso foi no dia 5 à noite, sendo que o evento seria no dia 6. Foi “pá pum”, assim. Falei com você também (Gabriela se dirige ao namorado) – ele estava me incentivando pela internet também.

J: Qual foi a reação dos seus outros colegas ganhadores?

G: Eu estava com a minha professora orientadora do meu lado e pedi para ela escrever no meu braço; ela não quis, não queria se responsabilizar. A diretora da ETECAP estava lá também e meio que ignorou, não falou nada. A Cibele, que ganhou em segundo lugar na categoria Categoria Estudante do Ensino Superior, achou super legal, virou minha fã, mas de resto o pessoal não comentou. O pessoal do prêmio deu uma ignorada.

J: E depois chegaram a comentar alguma coisa com você na ETECAP?

G: Na verdade, como eu já terminei o curso e não voltei na ETECAP depois do dia da entrega do prêmio, o pessoal comentou comigo pelo facebook mesmo.

J: E qual foi a sua reação depois de conseguir levar a pauta do Xingu para os principais jornais do país?

G: Eu fiquei muito surpresa. Ele (seu namorado) me mandou uma mensagem mostrando que havia saído no estadão… Como assim tinha saído no estadão?! Teve muita repercussão. Eu achei muito legal! E eu fiquei surpresa, porque eu achei que não ia dar nada. E a galera ficou muito feliz, todo mundo falou “Você me representou lá!” e ficou muito feliz com isso.

J: E qual foi a sua avaliação sobre o prêmio e o protesto?

G: O Prêmio foi importante, eu fiquei bem feliz, mas não estava me sentindo bem de ganhar um prêmio sobre sustentabilidade das mãos da presidenta e na frente de tanta gente que não liga realmente para o Meio Ambiente… Eu estava muito preocupada com isso e me sentindo um tanto hipócrita… Sempre defendi a natureza, ganhei um prêmio de sustentabilidade e iria lá pra não fazer nada? Eu não ia conseguir dormir! Foi muito melhor ter feito o que eu fiz do que só ganhar o prêmio, como os outros que ganharam e saíram. Eu fiz embalagens ecológicas… hãã que legal, sabe?!

J: E o próximo passo, qual é? O que você acha que podemos fazer para mudar a situação?

G: A situação está mudando. Tá vendo esse movimento aqui? Eu achei que viria mais gente, mas se todos nós nos unirmos, eu tenho certeza que podemos transformar. Não podemos parar de nos movimentar.

Apesar dos noticiários se contentarem em quererem saber apenas a reposta da Dilma sobre parar as obras de Belo Monte, o que esta corajosa jovem nos mostra é o anunciar da nossa primavera, onde indignados de todo o Brasil estão querendo um basta a este modelo de desenvolvimento que não respeita o Meio-Ambiente ou as pessoas. Águas para a vida e não para a morte!

*Juntos! Campinas

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