Ceará: Um Estado em caos

04/jan/2012, 16h14

*Monica Nascimento e João Berkson Araujo

Durante a segunda metade de 2011, o Ceará viveu sob o impasse entre a luta justa dos professores grevistas e o autoritarismo do governo, que prejudicou centenas de milhares de estudantes em todo o estado. No fim do ano, após manipular o sindicato dos professores e dar um fim a greve sem atender às principais reivindicações dos professores, Cid Gomes com certeza esperava um fim de ano tranqüilo e um réveillon que permitisse vislumbrar dias melhores para ele e o seu governo. Porém, como minha mãe dizia, não dá pra esconder o lixo embaixo do tapete pra sempre.

O regime de trabalho dos servidores públicos do estado continua precário em praticamente todas as suas áreas, da educação, passando pela saúde até a segurança, e foi isso que os Policiais Militares e Bombeiros do Ceará vieram dizer para o Brasil e o mundo no fechar das cortinas de 2011.

O inicio da luta

O funcionalismo público do estado do Ceará sofre há muito tempo com os baixos salários e a precarização do seu trabalho, nos últimos anos juntou-se a isso a clara repressão que é feita aos movimentos sociais que foi um dos estopins desta paralisação.

No dia 29 de dezembro em assembléia geral os PMs e os bombeiros militares decidiram entrar em greve por melhores salários e condições de trabalho além de ser uma clara resposta a falta de diálogo do governo. Outro grande ponto tocado foi também as represálias promovidas contra cerca de 20 policiais que lutavam pelos seus direitos em manifestações anteriores e que estão sendo removidos um a um para o interior do estado. A greve, pintada pelo governo como unilateral e não-representativa, espalhou-se rapida-mente pela capital e pelo interior, mostrando que a paralisação é um resultado da enorme insatisfação dos servidores com suas atuais condições.

A resposta corriqueira dada aos grevistas foi o mais absoluto silêncio e a ação judicial pedindo o fim da paralisação. Embora declarada ilegal a greve na segunda-feira, a classe fez das palavras do cabo Flávio Sabino as suas: “Só sairemos daqui mortos ou com a vitória”. Ele que está acampado na 6ª Companhia do 5º Batalhão no bairro de Antonio Bezerra em Fortaleza junto com outros policiais são uma das várias resistências dos grevistas no estado, que se espalhou de maneira vertiginosa.

Para quem pensou que a greve seria restrita, surpreendeu-se com o enorme apoio popular e das famílias dos militares. Um grande exemplo veio da cidade de Sobral, onde mulheres e filhos de policias chegaram a bloquear a porta do 3º BPM impedindo a entrada de qualquer um.

O estado caótico provocado pelo governo

Devido à intransigência gerada pelo silêncio e pela já rotineira falta de habilidade em conduzir as situações críticas, o governador Cid Gomes conseguiu levar o Ceará a um estado caótico, de medo e insegurança nas ruas. A situação que tentou se amenizar ao convocar a Guarda Nacional para garantir a segurança no réveillon, ou melhor, a segurança dos bairros nobres e da festa, deixou a população das periferias a sua própria sorte.

Os “arrastões” começaram a aumentar de número e levar insegurança aos fortalezenses, levando a uma paralisação parcial dos motoristas de ônibus por falta de segurança nas ruas. O estado caótico a partir de então se intensificou tanto que não era mais possível identificar as notícias que falam sobre as verdadeiras ações criminosas e aquelas que são resultado do enorme complexo de medo criado diante da criminalidade na cidade. Só foi possível constatar, comércios e escolas fechadas, ruas vazias, ônibus parados, trabalhadores sem transporte, sentimento de medo, de insegurança, e o triste som de tiros aço cais da noite, um povo preso em suas próprias casas.

Para piorar ainda mais, a síndrome do medo começou a se expandir para as cidades do interior, cidades antes conhecidas pelo seu clima pacato agora também sofrem com “arrastões” e com o medo de “arrastões”. Até nas menores cidades, a população apavorada com a simples possibilidade de ocorrer alguma ação deste tipo, também está fechando suas portas e se trancafiando em casa. Há indício de roubos e ações criminosas em várias cidades como Sobral, e até mesmo naquelas onde a greve ainda não chegou a população assiste pasmada à situação do estado que vive uma situação de medo, um quase retorno à época do cangaço. Esses dias de medo com certeza ficarão por muito tempo na cabeça do nosso povo. Não existe um cidadão no Ceará que não sinta medo de sair na rua a noite, principalmente na capital e algumas cidades do interior de médio porte.

Fim da greve e perspectivas

Embora a greve tenha acabado na madrugada de quarta com importante vitória dos policiais e bombeiros que conseguiram atingir muitas de suas reivindicações, é necessário mais do que nunca que o povo se organize e intensifique a sua luta, devemos mostrar que não aceitaremos mais situações como esta, onde todo um povo é prejudicado devido à intransigência de um gestor que não consegue lidar com os clamores dos trabalhadores, classe que deveria defender, mas que a cada dia é mais lesada pelo governo. E a ação para responder a estes constantes ataques ao povo pode vir na quinta, onde diversos movimentos sociais se reunirão e deliberarão sobre um dia de paralisação dos servidores estaduais, enquanto que os protestos nas ruas e pelas redes sociais contra o Governador Cid Gomes crescem sem precedentes.

Enquanto continuamos na luta, aguardando e interferindo nos acontecimento no sentido de intensificar a luta, o povo cearense acorda para mais um dia de trabalho, de escola, com um pouco menos de medo, pois a violência infelizmente é rotineira, torcendo para que possa voltar tranqüilo para casa e refletindo cada vez mais sobre a importância do seu voto e da sua participação na política do estado.

E é nesse momento que deve aparece a juventude radical, que busca a radicis, as raízes dos problemas, momento de uma juventude de esquerda consciente, é hora de irmos tod@s com a camisa aberta, enfrentar os problemas.

* Juntos! Ceará