Três dias que não me saem da cabeça

24/jan/2012, 17h14

* Maia Fortes

No dia 21 de janeiro estávamos lá. Fomos para a Ocupação do Pinheirinho para expressar a nossa solidariedade. Eram muitas pessoas, de muitos movimentos e organizações diferentes. Encontramos um clima tranquilo e otimista. As crianças usando os rojões (que haviam sido comprados caso houvesse confronto) para comemorar os 15 dias a mais que tinham garantidos nas casas em que moravam desde que nasceram. A juventude estava ouvindo música nas ruas. No barracão acompanhamos um ato de comemoração. Milho, pipoca, pastel, churrasquinho, refrigerante e cerveja eram vendidos. Fomos embora admirando a luta e a organização daquela população.

No dia seguinte acordei. Na primeira ligação: “Maia, você não tá sabendo?!” Nos organizamos e saímos correndo de volta para São José. A primeira sensação era de choque e revolta. Os militantes de São José que haviamos encontrado no dia anterior não sabiam muito bem o que explicar. Uma coisa estava clara: A desocupação já estava acontecendo de vento em popa e a violência era muito grande.

Nos dividimos. Alguns de nós fomos ao ato que a juventude fazia em frente a casa do Eduardo Cury (prefeito de São José dos Campos, do PSDB) em denúncia e repúdio a o que estava acontecendo e outros foram se encontrar com o Deputado Carlos Giannazi na tentativa de se aproximar ao máximo da ocupação e ver de perto como estava sendo o atendimento dos moradores ao serem expulsos de suas casas. A primeira informação que chegou foi que a prefeitura, ao invés de oferecer um novo local para moradia, oferecia passagens às famílias para fora da cidade (política higienista é pouco…). Saímos do ato e fomos em direção a Pinheirinho. Estacionamos no primeiro quarteirão da Av. dos Evangélicos, no bairro Campo dos Alemães. Não andamos nem duas quadras em direção às tendas e encontramos a primeira carcaça de carro queimado. Duas quadras para frente encontramos um grupo de jovens correndo. Se escondem. Passa uma blazer da Força Tática a todo vapor. O barulho de bombas de gás estava constante ao fundo. Mais uma quadra e outro carro virado e queimado. Caminhamos até o cordão de isolamento da choque. Viramos a direita. Em frente às tendas, do lado de fora, diversas famílias denunciando a violência que haviam sofrido e contando que não tinham para onde ir. Encontramos outros companheiros. Um deles havia acabado de levar dois tiros de bala de borracha.

Conversamos com alguns moradores que nos informaram que haveria uma assembleia na Igreja. Nos levaram até lá. Eram dezenas, centenas, milhares de famílias chegando, com malas, sacos pretos, carregando tudo que podiam. Sentamos e logo levantamos. O clima de estado de sítio estava colocado. Viaturas da Rota acelerando com rostos e armas para fora, bombas, balas de borracha, barricadas em chamas. Política de terrorismo mesmo. A população respondia com pedras e dispersava. Se aproximavam da cerca por curiosidade e logo se distanciavam por medo. De repente o clima acalmava. Logo depois, começava tudo de novo. Ficamos na igreja por um tempo e logo depois seguimos para o alojamento. No dia seguinte nos falaram que o clima tenso persistiu até aproximada mente as 3h da manhã, quando as pessoas puderam se amontoar no chão da igreja e tentar descansar.

Duas horas depois nos organizamos e seguimos para os portões da Johnson para denunciar o que se passava perto dali. Os trabalhadores expressaram sua solidariedade e foi feita uma assembleia para discutir o que se passava. De lá seguimos para uma manifestação no centro de São José.

Às 10h30 da manhã retornamos ao Pinheirinho. Ocorria outro confronto em frente à ocupação. Os moradores queriam retornar para buscar seus pertences. Sofás, camas, geladeiras, fogões. Coisas que lutaram muito para conseguir comprar. As informações estavam desencontradas. Alguns afirmavam que conseguiriam tirá-los, outros informavam que as casas já estavam sendo demolidas com tudo dentro. Entramos na igreja e fomos abordados por diversas pessoas com vídeos que haviam gravado de seus celulares com o momento de ocupação de polícia, provas de agressão policial, depoimentos que expressavam o desespero de seus vizinhos. A população quer que divulguemos essas informações por todos os lados. É isso que faremos. Os dois primeiros que consegui subir são este e este.

Informações importantes:

– O terreno do Pinheirinho era de dois alemães que foram assassinados em 1969 e não tinham herdeiros. Nesse caso, o terreno deveria ir para a União. Misteriosamente ele se tornou de Naji Nahas.

– A partir das 06h00 da manhã do dia 22 de janeiro se iniciou a ocupação do Pinheirinho por policiais. Foram 2000 policiais militares que participaram da operação. Primeiro a tropa de choque encurralou todas as pessoas em suas casas. Posteriormente a força tática entrou em cada casa entregando sacos plásticos pretos de 20 litros para as famílias e ordenando que colocassem o que fosse possível nos sacos e malas e se retirassem.

– A população, do lado de fora, era recebida com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha e levada até tendas da prefeitura. Nas tendas era feito um cadastramento (de acordo com as lideranças do movimento, a fila para obtenção de casa por meio do programa da prefeitura é de aproximadamente 72 anos). A Guarda Civil tentou dividir as famílias e houve diversos confrontos dentro das tendas.

– A maior parte dos moradores se recusou a ir para alojamentos da prefeitura (só existem dois e estão superlotados) e está alojada em sua maioria em igrejas, com familiares e amigos, no Bairro do Campo dos Alemães.

* Maia Fortes é militante do PSOL e membro da equipe editorial do Juntos!