As múmias que se conformem!

10/fev/2012, 21h01

*Matheus Trevisan

Nos últimos tempos temos nos deparado com inúmeras movimentações que levam milhares, milhões de pessoas às ruas. O dia de hoje é um símbolo do poder que essas manifestações adquiriram. Há 1 ano atrás, milhões de egípcios acampados na praça Tahrir comemoravam a queda do ditador Hosni Mubarak. Aquele episódio, que já havia sido protagonizado pela juventude da Tunísia, deu fôlego a muitas utopias e trouxe de volta a sensação de que a rua é o território dos indignados.

A situação do Egito mudou, mas está longe de ser a idealizada pelos jovens rebeldes que ousaram lutar por transformações. Uma junta militar governa o país e eleições estão marcadas para o mês de março. Pelo que tudo indica, a Irmandade Muçulmana, um dos poucos grupos políticos organizados no Egito, deve vencer com folga, assim como o fez no pleito parlamentar em que angariou quase 70% das cadeiras. A situação continua explosiva e os jovens parecem ter pouca paciência e muita disposição para aprofundar as mudanças com as quais tanto sonham.

A terra dos faraós inspirou milhões de mulheres e homens pelo mundo. Diante das crises e do desamparo por parte do “poder público”, a população começou a perceber que apenas unida é capaz de superar as adversidades. Tarefa difícil, principalmente numa realidade individualista e mercadológica em que você vale aquilo que você é capaz de consumir. A Grécia nos mostra como as negociações dos economistas de gabinete são indiferentes aos anseios e agruras de um povo sem futuro, mas também sem medo. Cortes de salários, pensões e aposentadorias. Desemprego. Povo às ruas.

Assim também é, em maior ou menor grau, na Espanha, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos e, claro, Brasil. Apesar de vivermos uma situação de aparente prosperidade econômica, há sinais claros de que, também em nosso país, as ruas já não são mais vistas como território neutro. Os últimos 12 meses foram marcados por diversas manifestações. Muitos já ousam discordar da autoridade do cassetete. Também nos deparamos com os reais interesses dos governantes. Não tem posse legal da terra? Expulsa. Querem fazer greve? Prende. Protestam? Bate. Essa atitude, que não é casual e sim sistêmica, só alimenta a indignação e o fervor popular.

O que dizer, por exemplo, de uma greve de policiais nos dois principais pólos turísticos do carnaval brasileiro às vésperas da festa? Não é comum vermos os profissionais de farda cruzarem os braços. Os bombeiros cariocas já o fizeram a pouco tempo atrás, demonstrando que o descontentamento e a indignação também se infiltram nos quartéis. Um episódio como esse só faz aumentar o clima reivindicatório. Trabalhadoras e trabalhadores percebem que esse momento é de ação. Jovens saem às ruas contra a corrupção, por mais liberdade e democracia.

Essa efervescência do mundo parece estar longe do fim. Ainda há corpos sendo empilhados na Síria. A voz ainda está entalada na garganta dos russos. Muitas lágrimas ainda rolarão, mas podemos esperar cada vez mais vozes indignadas bradando por uma sociedade mais justa e igualitária. Temos motivos para acreditar que o 1% que explora e reprime terá cada vez mais dificuldade em conter os 99% que trabalham e se indignam. Quando a rua parece mais atrativa que nossos próprios lares é sinal de que os tempos são de mudança. As múmias que se conformem.

*Militante do Juntos! SP e estudante de Ciências Sociais da USP

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