O carnaval, a homofobia e todas as opressões

23/fev/2012, 15h25

A homofobia e a opressão às mulheres partem, sabemos, de uma mesma fonte: o machismo. Por isso, nós do Juntas!, nos declaramos abertamente contra qualquer tipo de opressão de gênero e homofobia,  e entendemos que as duas pautas, o feminismo e a luta LGBT, devem andar sempre de mãos dadas.
O texto a seguir é a contribuição de um companheiro de Porto Alegre que, junto com outros de diferentes cidades do Brasil, debatem e lutam pela igualdade de direitos para a população LGBT. Todo apoio aos e às companheiras que, como nós, entendem que um outro futuro se constrói com igualdade!

Junt@s pelo direito de amar!

Lucas Boni*

HOMOFOBIA está por toda parte, assim como todas as outras opressões.

O Carnaval é época de festa, mas também é um espaço onde toda diversidade se encontra no mesmo lugar. É aí que os preconceitos colocam suas mangas de fora. Li uma matéria que dizia que em Salvador a discriminação racial aumenta em 64% durante esse período. Infelizmente sobre a homofobia não temos dados, afinal, ela não é sequer criminalizada, pois a senadora Marta Suplicy (relatora) alterou o texto do PLC 122, fazendo as vontades da bancada evangélica deixando o projeto de lei que ainda não foi votado, quase inútil, eximindo da culpa todos aqueles que praticam o preconceito por motivos religiosos, em um país onde 95% da população tem uma religião, quem será punido? Todos alegarão motivos religiosos.

Em Guaporé, na Serra Gaúcha, o negócio não é diferente. Ontem à noite, estava na praça central onde rolavam as festividades, em uma roda de conhecidos, um amigo veio me cumprimentar. Sua orientação sexual cabe somente à ele e a mais ninguém, ser gay não é uma opção, sair do armário talvez seja. O fato é que a irmã dele logo em seguida veio perguntar de onde eu o conhecia. E seguiu com essa fala que eu não vou esquecer por um bom tempo:

“Não chega perto do meu irmão, fica longe do meu irmão, fica longe do meu namorado, e fica longe da minha família.”

E essa frase fez valer a idéia de que palavras machucam mais que socos e pontapés.

Passei a noite pensando nisso, hoje acordei pensando nisso e resolvi escrever esse texto. Uma reação absurdamente ignorante, de uma menina que nunca conversou comigo e sequer me conhece. Na hora me faltaram palavras pela surpresa do momento, passamos a vida inteira nos preparando para esse tipo de confronto e quando ele chega muitas vezes a dor é tão grande que nos falta capacidade de reação. Fiquei um tempo naquele estado de choque sem entender o que aconteceu. Meu amigo a mesma coisa. Não respondeu porque achou que ela era minha amiga e aquilo algum tipo de piada. Mas não era piada, é a chamada HOMOFOBIA, cuja existência alguns insistem em negar.

Só quem já foi oprimido conhece a sensação que aqui tento descrever. A sensação de não ser bem-vindo, de sentir que muitas pessoas “te temem”, te ignoram, ou te odeiam sem sequer ter trocado uma frase contigo. Sensação de se sentir visado, de estar “desprotegido”, ainda mais com todos as mortes e espancamentos que acompanhamos na midia.

A minha segunda preocupação, quase que imediata, foi com o irmão dela, que possivelmente seja oprimido por ela, talvez pela família, pela sociedade com certeza. Certamente ele, e nenhum outro LGBT merecem crescer e se desenvolver nessas condições hostis. E no interior, “sair do armário” pode ser para alguns uma verdadeira batalha, que sempre deixa muitas cicatrizes.

Todos nós LGBTs não podemos nos calar nunca, jamais baixar a cabeça. As vezes a resposta não é o que vem na hora. Mas o que vem no dia-a-dia. O sofrimento que ela me causou já virou mais um motivo pra lutar. Devemos usar todos os espaços possíveis para combater as opressões. Levar informação para que essas atitudes não se repitam mais. Alguns vêem as fotos das manifestações que participo, ou me perguntam porque motivos eu milito no Juntos Por Outro Futuro, e no CAAP. Acho que essa é a resposta.

O Juntos! vai criar a setorial LGBT esse ano e nós vamos continuar ocupando todos espaços possíveis porque o futuro sem homofobia todos já sabemos como vai ser, daqui há 100 anos será simplesmente rídiculo acreditar que pessoas eram perseguidas por sua orientação sexual. Mas pra que isso se torne ridículo tem muita luta pela frente.

*Estudante de Jornalismo da UFRGS e militante do Juntos!