Em Nova Iorque, respostas aos ataques contra a educação pública que acontecem no mundo todo

01/mar/2012, 04h41

*Maia Fortes

Após a chegada em Nova Iorque procurei me envolver nas atividades que estavam acontecendo na cidade. A principal delas estava relacionada à luta contra a privatização das escolas públicas que já está em andamento, principalmente nos bairros da periferia e que, pelo o que observei está se disseminando pelo país como um todo, como recurso para diminuir os “gastos” do Estado para responder à crise econômica em plena atividade nos Estados Unidos.

A educação tem sido um dos direitos mais atacados em momentos de crise, no mundo todo. O corte de verbas afeta intensamente o acesso à educação pública de qualidade e, assim como estamos vendo no Chile, na Espanha e no Brasil – com um chamado de greve nacional – estudantes, professores e comunidades inteiras estão se levantando em sua defesa também nos Estados Unidos.

O plano de privatização enrustida da prefeitura de Nova Iorque tem dois braços

O primeiro seria a proposta – e execução – do fechamento de 67 escolas até julho de 2012, que supostamente estaria relacionado a uma avaliação institucional das escolas (extremamente criticada pela população) na qual as melhores permaneceriam abertas e as piores seriam fechadas, mas cuja justificativa caiu por terra já que nessa lista estão escolas consideradas de excelência na cidade.

E a inserção de cada vez mais Charter Schools no sistema de ensino municipal. As Charter Schools são instituições similares às Organizações Sociais no Sistema de Saúde e nas creches no Brasil, com a diferença de que nos EUA elas têm uma mais explícita com as empresas e corporações que financiaram a campanha de políticos como Bloomberg (Prefeito Republicano de NY) e Obama (Presidente Democrata dos EUA).

O projeto de Charter Schools tem uma política pedagógica completamente diferente do das escolas públicas (que têm uma proposta historicamente progressista e de combate à segregação racial e social). Existem, por exemplo, diversas denúncias de violência física com os alunos como forma de “disciplina” e seu foco é voltado no treinamento para alta pontuação em avaliações institucionais, sem levar em conta que, na cidade de Nova Iorque existem escolas com 50% de “English Learners”, que obviamente podem não ir tão bem em provas padronizadas. A resposta de muitas dessas escolas é simplesmente não aceitar imigrantes (em sua maioria latino-americanos), fortalecendo uma política de segregação combatida desde a luta por direitos civis na década de 1960 nos EUA.

As condições de trabalho dos professores também é muito pior, já que trabalham muito mais horas, não têm nenhuma liberdade para formular a proposta pedagógica de suas aulas e não têm estabilidade. No entanto, com o alto índice de desemprego e a política de sucateamento do ensino público, os professores jovens têm ido diretamente para essas escolas.

Essas escolas já estão sendo implementadas no bairro do Harlem a partir de “co-localizações”, nas quais elas são inseridas nos mesmos
prédios das escolas públicas. Essa é uma forma de enfraquecer o ensino público, o comparando com um ensino com outra lógica e outras prioridades (uma delas se chama Success Academy – Academia do Sucesso). A ideia agora é, além de “co-localizar”, fechar escolas públicas e substituí-las com Charter Schools.

A resposta da população

Inspirados pelo Occupy Wall Street e também insatisfeitos com a situação econômica do país (alto índice de desemprego, dívidas, etc), professores, pais, estudantes e lideranças comunitárias se unificaram para impedir o fechamento das escolas e a implementação de Charter Schools. Inicialmente, a população começou a participar ativamente das instituições participativas criadas ao longo de mandatos anteriores, como conselhos regionais com representantes comunitários. Logo o movimento percebeu que os interesses das empresas por trás das Charter Schools (financiadores de campanha de Bloomberg) seriam garantidos, independente da vontade das comunidades nas quais essas escolas estavam interessadas.

Na semana passada, a manifestação da qual participei foi em uma Audiência Pública em uma das escolas na qual há o projeto de “co-localização”, no Brooklyn – bairro de Williamsburg. Nela, já conscientes do possível golpe, a comunidade se organizou e levou cerca de 500 pessoas para combaterem o projeto. A Success Academy também se organizou e fretou ônibus para levar pais e alunos do Harlem até outra região da cidade, para disputar a audiência de um bairro específico, com a intenção de dividir a população. A comunidade era muito maior e expressou sua vontade: a defesa e o investimento em escolas públicas de qualidade.

Mas a luta só começou. Os ataques, apesar das mobilizações e da organização da população, têm continuado. Em resposta, a cidade toda está se articulando no chamado Ocuppy the DOE (Department of Education – Secretaria de Educação). Seu primeiro ato foi no dia 9 de fevereiro, na reunião de um dos fóruns institucionais da prefeitura, o Panel for Educational Policy (Painel Sobre Políticas Educacionais), com milhares de pessoas.

O Occupy the DOE está se ampliando rapidamente e responderá a altura dos ataques. Se as comunidades não forem ouvidas nas audiências públicas, pretendem responder por meio de boicote aos fóruns institucionais e da ocupação das escolas fechadas ou “co-localizadas” com Charter Schools.

Amanhã, 1° de março será um dia de lutas no país inteiro contra o sucateamento do ensino público e o aumento das mensalidades nas universidades (aqui, mesmo as públicas são pagas), o Occupy Education, que pretende unificar estudantes, comunidades, sindicatos e movimentos em torno dessa pauta com diferentes tipos de ações em cada local. Além disso, está sendo construída uma paralisação geral para o May Day (1° de Maio – Dia do Trabalho) com um chamado para os 99% tomarem as ruas!

*No Work

*No School

*No Housework

*No Shopping

*No Banking

TAKE THE STREETS!!!!!

Os projetos de sucateamento e privatização da Educação Pública são internacionais assim como é a nossa união para lutar em sua defesa. Estamos Juntos! em Valência, no Chile, na Grécia, nos EUA, no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo para #tomarasruas e confrontar esses ataques!

*Militante do PSOL e membro da Equipe Editorial do Juntos!