Uma vitória de todas as raças

28/abr/2012, 16h30

*Winnie Bueno

“Chegou o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.” (Martin Luther King)

Hoje o grito forte de Palmares que correu terras, céus e mares, ecoou no Supremo Tribunal Federal. Foi citando Abadias do Nascimento, Jesse Owens, Florestan Fernandes e também os estudantes que o STF julgou improcedente a ADPF 186, proposta pelo DEM. O dia de hoje se consagra como uma data ímpar para a comunidade negra, uma data que quase alcança a importância do dia 20 de novembro. O STF, ao julgar constitucionais as cotas raciais adotadas na UNB, finalmente reconhece a problemática da desigualdade racial em nosso país e se propõe a enfrentar o racismo institucional.

É um dia muito feliz! Um dia em que podemos pensar em Outro Futuro. A vitória do Movimento Negro, do Movimento Estudantil de luta, nos cria uma série de desafios que iremos enfrentar com ousadia e o maior deles: lutar por cotas raciais em todas as instituições de ensino do país. Essas, que necessitam ser acompanhadas de políticas sérias de assistência estudantil para que os estudantes possam concluir a graduação de forma plena, sem fome, com acesso ao transporte digno, aos livros, aos materiais acadêmicos.
É uma vitória de todas as raças! Um largo passo para que o “apartheid” acadêmico se destrua de vez. Estamos rompendo com uma lógica que se perpetua desde a instituição das Universidade no Brasil, que foram pensadas para que o país pudesse produzir a sua própria elite intelectual burguesa(através dos cursos de Direito, voltados para as classes abastadas cafeeiras, charqueadoras..),provocando a possibilidade de reposicionamento das relações inter-raciais dentro da academia.

Ouviremos os zuns-zuns, principalmente nas brancas “catédras” de Direito. E isso por si só já é motivo para uma grande festa. Ver os espaços brancos de poder discutindo o racismo acadêmico é uma vitória muito grande e será ainda maior quando nós, negras e negros, pudermos estar dentro destes espaços disputando as ideias reacionárias, racistas e segregacionistas. Questionaremos: quantos são meus colegas negros? quantos são meus professores negros? Onde estão os negros e negras na minha universidade?
Creio, que logo, estarão sentados do meu lado. Penso que logo terei um professor universitário negro, talvez mais de um. Em breve, não precisarei mais defender políticas de cotas raciais, porque o sonho de Martin Luther King, talvez tenha começado a se realizar. O sonho de ver todos julgados por seu caráter e não pela cor da sua pele.

Valeu Zumbi, tanto fomos de carne, tanto fomos de sangue, tanto fomos de coisa… chegou a hora do Estado assumir o seu lugar no banco dos reús.

Somos guerreiros pelo fim do racismo no Brasil. Vencemos mais uma batalha.

*Winnie é estudante de Direito da Universidade Federal de Pelotas,  e militante do Juntos Pelotas!