Entenda o que está acontecendo na PUC-SP

19/nov/2012, 10h27

Pedro Serapicos*

No dia 14 de Novembro de 2012, o FUNDASP, orgão mantenedor da PUC-SP, valeu-se de sua liberdade legal de perpassar o procedimento democrático eletivo adotado na universidade desde 1976 para convidar, a interesse de Odilo Scherer, cardeal da Igreja Católica, a última colocada nas eleições para reitoria da universidade, Anna Cintra, a assumir o cargo.

Ao ver sua representatividade violada, os corpos discente e docente e os funcionários da universidade mobilizaram-se para reverter esse atentado contra o caráter democrático da instituição, impedindo a perpetuação de um ato ilegítimo executado pela administradora da PUC.

Na manhã do dia seguinte a Pontifícia viu-se massivamente ocupada, não só por seus estudantes revoltosos contra o ocorrido, mas por estudantes de outras universidades que solidarizaram-se e observaram uma mobilização histórica de um movimento estudantil íntegro afim de agir contra um mal específico.

O ato tirano do FUNDASP resultou em um evento raro: uma mobilização de estudantes que se situa acima dos interesses político-partidários e bandeiras ideológicas para afirmar que as instituições de ensino não pertencem às corporações ou ao interesse privado.
Viu-se na PUC uma assembleia democrática, que votou contra a ocupação da reitoria executada pelos estudantes e a favor da paralisação dos cursos enquanto não fosse revogada a medida tomada pela administração da faculdade.

Aqueles que fazem a universidade ser de fato aquilo que ela é escolheram outro representante, e as aulas não prosseguirão enquanto os alunos, professores e funcionários não sentirem que seus interesses estão sendo defendidos, e pior, estão sendo preteridos aos interesses da Igreja e do FUNDASP.

Àqueles que acusam os alunos da PUC de vagabundagem, questionem-se: O que torna cada instituição diferenciada? Dar-se-ia credibilidade a alunos que aceitam ter seus direitos violados?
Nossa discussão não pode se limitar à ingerência administrativa ocorrida, mas deve se estender ao âmbito teleológico e moral. Essa é a oportunidade de discutir pra que serve cada instituição na vida dos indivíduos, e que com absoluta certeza se estende além da graduação: aos campos de pesquisa, às socializações, ao diálogo e ao crescimento tanto intelectual quanto pessoal.

Felizmente ainda existem universidades onde estudantes não limitam sua vida acadêmica à obtenção de um diploma, e não deixam que suas escolas tomem um cárater utilitarista.

É o cárater plural de uma universidade que confere credibilidade à ela. Não sua capacidade de formar pessoas para o mercado de trabalho.
Uma universidade diferenciada é aquela formada por pessoas capazes de se levantar contra aqueles que atentam contra suas liberdades.

*Pedro Serapicos, estudante de Ciências Sociais da USP e colaborador do Juntos SP