Em Santarém, Juntos somos Juá!

15/dez/2012, 12h49

Por Ib Sales Tapajós*

Esta quinta-feira (13/12) foi marcada por um importante capítulo da luta social-ambiental em Santarém – Pará, cidade marcada pelo avanço da fronteira agrícola e pela imposição de um modelo de crescimento econômico predatório que ameaça nossos rios, florestas e populações tradicionais. Mais de 200 pessoas foram às ruas protestar contra um lamentável CRIME AMBIENTAL cometido pela empresa Buriti Imóveis, que em poucos meses desmatou completamente uma área de 186 hectares, sem sequer realizar um Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA).

 

A Buriti Imóveis é uma empresa do ramo imobiliário, que atua em vários estados brasileiros com projetos habitacionais, vendendo lotes no mercado. Em um desses projetos, no município de Rio Largo, estado do Alagoas, a empresa se envolveu num escândalo de corrupção, em que o prefeito da cidade e 9 vereadores chegaram a ser presos em maio deste ano e os sócios da Buriti respondem a processos na Justiça alagoana por conta de um grande área adquirida de forma fraudulenta.

 

Em Santarém, a Buriti organizou um mega-empreendimento imobiliário, chamado ironicamente de “Cidade Jardim”, visando vender no mercado 21 mil lotes de terras. Porém, o modus operandi da empresa não poderia ser pior: devastou a totalidade da vegetação de uma área imensa, colocando em risco também o Lago do Juá, um dos recantos mais bonitos da cidade, de águas cristalinas e rico em peixes. Inúmeros pescadores das proximidades extraem seu sustento do lago, que agora está ameaçado de assoreamento.

 

O pior é que a empresa contou com a conivência da Prefeitura de Santarém, que hoje é dirigida pelo PT. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMA), que tem à frente o Senhor Marcelo Correa, expediu a licença ambiental para o loteamento, mesmo sem o necessário EIA-RIMA – a legislação ambiental brasileira impõe que projetos urbanísticos a partir de 100 hectares só sejam licenciados com a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental.

 

Aqui entramos na outra parte da história: o secretário de meio ambiente pertence à família Correa, típica família da elite santarena, que é conhecida pelas imensas extensões de terra que dominam há décadas em nosso município. E foi justamente a Família Correa que vendeu a grande área que foi desmatada pela Buriti, desmatamento autorizado pelo secretário Marcelo Correa. Dessa forma, estamos diante de um caso clássico de relações espúrias entre o público e o privado, que exige investigação e responsabilização do secretário, o qual tinha interesse próprio na liberação da licença ambiental para a Buriti.

 

Diante de tudo isso, a sociedade santarena não ficou calada. A partir de uma articulação pelas redes sociais, foi realizado o “Abraço ao Juá”, um ato público que contou com mais de 200 pessoas e dezenas de entidades civis do município de Santarém. Entidades ambientalistas, sindicatos, movimentos de luta por moradia, associações de moradores, movimento estudantil, povos indígenas, quilombolas, professores, dentre muitos outros sujeitos coletivos protagonizaram uma das mais bonitas manifestações dos últimos anos em Santarém. O “Abraço ao Juá” promoveu o encontro de lutadores históricos com uma nova geração de ativistas, unidos na luta por um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

 

A juventude em luta marcou presença na manifestação. O Juntos!, desde o começo das articulações nas redes sociais, ajudou a construir o movimento em defesa do Juá, por compreender o significado das lutas ambientais na Amazônia, que estão profundamente ligadas à garantia de um futuro digno para os povos que aqui vivem. Esse entendimento foi compartilhado por muitos jovens que participaram do “Abraço ao Juá”, levando às ruas sua indignação com os projetos econômicos que colocam em risco nossas florestas e rios.

 

Felizmente, a pressão da sociedade civil sobre os órgãos públicos mostrou um resultado muito positivo: algumas horas antes do início do “Abraço ao Juá”, o IBAMA realizou o embargo administrativo do empreendimento da Buriti. E o Ministério Público ingressou com uma Ação Civil Pública na Justiça solicitando a paralisação do loteamento.  Como é de costume, a empresa não vai abrir mão dos seus interesses econômicos facilmente. Por isso, a guerra jurídica deve prosseguir. Junto a ela, continuaremos vigilantes e ativos, para impedir que o crime ambiental já praticado tome dimensões ainda maiores.

 

A luta social em defesa do Juá vai continuar! Essa é uma luta de muitas caras e muitas vozes, mas que encontra uma síntese comum: o repúdio a um modelo predatório de crescimento econômico que está em execução na Amazônia, ameaçando nossos rios e florestas. É assim em Altamira/PA com a usina de Belo Monte, é assim com o projeto de construção de sete usinas hidrelétricas no Rio Tapajós, é assim nos projetos minerários das grandes multinacionais.. e é assim em empreendimentos imobiliários com o da Buriti, que visam apenas um lucro fácil e imediato, em detrimento do meio ambiente e dos povos da Amazônia.

 

Na defesa dos rios e florestas da Amazônia, Juntos somos Juá!

 

Ib Sales Tapajós é graduado em Direito pela UFOPA. Militante do Juntos! e do PSOL.