Portugal e a luta por outro futuro

19/dez/2012, 11h02

*Pedro Serrano

DSC02410Nem mesmo o editorial o jornal “Público” de Portugal é capaz de defender as privatizações que o governo de Pedro Passos Coelho quer realizar no país atualmente. Na última segunda-feira, 17 de dezembro, o jornal classificava as vendas da TAP, da ANA e da RTP como atentados à “dignidade do Estado”. Em processos obscuros, o primeiro-ministro português coloca setores estratégicos da economia integralmente nas mãos da iniciativa privada, e ainda a preços módicos. A venda da TAP, por exemplo, pode selar-se pelo equivalente ao preço de uma única aeronave da empresa!
A justificativa para tudo, por parte do governo, é o equilíbrio das contas públicas e o pagamento da dívida portuguesa. Para isso, deve-se cumprir, sempre e rigorosamente, o memorando da Troika, assinado com o Estado português em maio de 2011. Do ano passado para cá, entretanto, a economia não reagiu. Pelo contrário, a recessão se intensifica e o desemprego dispara. Fica cada vez mais claro que a austeridade só resolve a crise sob o ponto de vista dos grandes capitalistas.

Na última semana, estive em Lisboa, acompanhando a luta dos portugueses e construindo o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista. Nesse pouco tempo, muitos fatos me chamaram a atenção. Sentir de perto a realidade da crise é algo angustiante. Dos jovens aos velhos, todos sofrem. Entre os mais novos, o desemprego é gritante e diminui o interesse em cursar o ensino superior. Muitos emigram. Na meia-idade, mulheres e homens que perdem o emprego são obrigados a voltar para a casa dos pais, sem condições de se sustentar. Os velhos e as velhas, por fim, veem suas aposentadorias serem cada vez mais taxadas e sofrem com a precarização dos serviços de saúde. A crise é concreta, objetiva, corta na carne da grande maioria da população. O benefício de Natal (uma espécie de 14º salário) que recebem os trabalhadores, por exemplo, é simplesmente retirado. A jornada de trabalho entre os servidores públicos aumenta de 35 a 40 horas semanais. Na educação, promove-se uma enorme reforma no ensino secundário, criando os chamados “mega-agrupamentos”, que colocam duas ou mais escolas, antes distintas, sob a mesma administração. Mais de 40 mil professores estão desempregados. E esses são somente exemplos.

Por trás dessa realidade que cada vez mais se agudiza, entretanto, a consciência e a mobilização dos portugueses avançam. Há um ano e meio, Portugal elegia um governo declaradamente de direita para o país. A vitória do PSD significava o êxito do discurso conservador diante da crise. A ideologia de direita — a ideia de que cada um deve “fazer a sua parte” no momento de crise e de que o Estado Social não é sustentável — segue tendo força no país, mas é cada vez mais solapada pela realidade. Passos Coelho elegeu-se apregoando (e fazendo a população acreditar) que ou se sentava para negociar com o FMI ou não haveria mais dinheiro em Portugal, nem sequer para os salários. Agora, o que muitos já percebem é que a própria política da Troika leva o país ao desastre. E que cumprir o memorando é simplesmente impossível.
DSC02419A luta e a mobilização social crescem. Pelo país afora, com diferentes tamanhos, os protestos são praticamente diários. Num dia, os professores. Noutro, os aposentados. Noutro, os moradores de determinada freguesia, no sul, no norte ou do centro, que corre o risco de ser extinta por conta da reforma administrativa. É na rua que os jovens e os trabalhadores fazem sua experiência e percebem, dia após dia, que a superação da situação em que se encontram depende de sua própria organização e luta. Um processo que é longo e difícil, mas que se move sempre de acordo com o tempo da política. E alguns episódios, mesmo que “breves” temporalmente, são emblemáticos, como a última greve geral que se passou no dia 14 de novembro.

O sistema passa a ser desacreditado profundamente. No entanto, como tem sido a tônica no mundo, faltam também alternativas a ele. Para a maioria das pessoas, o capitalismo segue sendo o horizonte do possível, e mesmo um governo radicalmente de esquerda se vislumbra como pouco provável. O Partido Socialista é incapaz de negar o memorando da Troika e aplicou também a austeridade em seu último governo. O Bloco de Esquerda (organização que se assemelha ao que é o PSOL no Brasil), consolida-se no país com coerência e combatividade, mas sofre as consequências das últimas eleições, em que viu diminuir pela metade seu número de deputados. Assim, muitos portugueses entram em movimento sem ainda saber em nome do quê ou de qual alternativa para o país. O que se sabe é que a atual situação é insustentável.

O recente exemplo do Syriza na Grécia, que através da liderança de Alexis Tsipras quase venceu as últimas eleições no país, é a demonstração de que o movimento das praças e das ruas pode também chegar aos palácios e espaços do poder. A esquerda radical pode e deve governar. Negar a atual política é um passo fundamental para isso, e já é o que se vê em Portugal. A palavra de ordem dos atos — “que se lixe a Troika!” —, o rechaço aos grandes partidos, aos políticos e à corrupção, são demonstrações de que as pessoas já identificam a atual situação como insustentável. Os “de baixo” não querem ser governados como são, mas precisam, ainda, com sua própria organização, construir outro tipo de governo e de país. De minha parte, só posso acreditar que o povo que fez a Revolução dos Cravos estará também à altura dos novos desafios.

Veja a entrevista do Juntos com Anabela Laranjeira, da Direção Nacional da Interjovem em Portugal!

 

*Pedro Serrano é diretor do DCE-Livre da USP e militante do Juntos-SP! Esteve em Lisboa, Portugal, acompanhando a situação política do país e construindo o I Acampamento Internacional da Juventude Anticapitalista.

 

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Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017