Aldeia Maracanã viva: Resistiremos Juntos!

19/jan/2013, 14h17

*Por Juntos RJ  

       Ano passado assistimos estarrecidos o caso dos índios da etnia Guarani-Kaiowá que, ameaçados de despejo no Mato Grosso do Sul, redigiram uma carta em que afirmavam só deixar o Tekohá (“terra sagarda”) mortos. Interpretada como um prenúncio de suicídio coletivo, logo conquistaram o apoio do Brasil e do mundo através das redes sociais que, pressionando o poder público, conseguiram ter a ordem de despejo suspensa.

Na alvorada de 2013 mais um (des)caso envolvendo nossos povos nativos tem ganho a atenção e gerado polêmica: como parte de um pacote de urbanização do entorno do estádio do Maracanã, o governo Cabral pretende demolir o prédio que abrigava o Museu do Índio e que, desde 2006, é ocupado por diversas famílias indígenas, de diversas etnias, e que rebatizaram o lugar de Aldeia Maracanã.

O belo edifício em estilo eclético tem sua trajetória ligada à das populações indígenas de nosso país desde 1865, quando foi doado por
seu proprietário – Luis Augusto Maria Eudes, duque de Saxe – com o intuito de se tornar um centro de pesquisas sobre a cultura de suas diversas etnias. Em 1910 foi criado por Marechal Rondon o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão que deu lugar à Funai, que atuou no prédio até 1953, data da fundação do Museu do Índio, transferido para Botafogo em 1977 para dar lugar à construção de uma estação de metrô que nunca saiu do papel.

De (Pedro) Cabral a (Sérgio) Cabral

O processo de extermínio dos povos indígenas que viviam no Brasil seguiu os ciclos econômicos que marcaram a colônia e o império — pau-brasil, açúcar, ouro e café. No início da colonização, as doenças vindas da Europa dizimavam aldeias inteiras; e depois, quando não eram mortos, eram expulsos de suas terras. Por fim, a escravização, os assassinatos e a aculturação exterminam os índios que ainda procuram viver numa relação com a terra incompatível com o capitalismo.

582317_134719543355336_617078375_nHoje, os poucos índios do Rio de Janeiro que sobreviveram vivem marginalizados e seguem sendo expulsos para dar lucro às classes empresariais, e no caos do Rio de Janeiro, mais especificamente empresários com “estranhas ligações” com os governos peemedebistas de Sérgio Cabral e Eduardo Paes.

Desde a ocupação em 2006, o prédio de Memória Indígena da Aldeia Maracanã se transformou numa espécie de “museu vivo”, onde os próprios índios contam a sua história e mostram a sua cultura. Além de centro cultural, o lugar também serve de abrigo temporário ou permanente para
índios de todo o país que chegam ao Rio de Janeiro.

O Governador afirmou que o governo do Estado do Rio de Janeiro demolirá o antigo prédio, vizinho do Maracanã. Este espaço é de 1865, 83 anos mais antigo que o Maracanã (inaugurado em 1948).

Os indígenas exigem respeito

A diversidade na Aldeia Maracanã não é mera questão retórica: são pessoas e grupos distintos convivendo no mesmo espaço: indígenas de dezenas de etnias, antropólogos, estudantes, simpatizantes, jornalistas, punks, sindicalistas, advogados, vez por outra até turistas estrangeiros. E como em qualquer coletivo diverso, convivem pessoas e opiniões divergentes. A essência da polêmica ali nos pareceu
algo recorrente em qualquer movimento: qual é o limite da negociação?
Apostar tudo no ideal (o “programa máximo”) ou procurar aceitar alguma das propostas do lado mais forte (“programa mínimo”)?
2048_134684806692143_1583042559_n

O clima tenso denunciava essa divergência. Alguns se preocupavam em serem expulsos dali mais uma vez sem nada concreto, só promessas, e verem o local vir abaixo pelos tratores – já foi vendido o prédio do antigo Museu, o prédio vizinho ao Museu, licitação realizada para demolir. A simples menção desta preocupação já levanta uma certa desconfiança no setor disposto a resistir, pois o sentimento geral é que nada pode substituir aquele espaço. Um pajé que veio do Xingu, em Mato Grosso, pega um punhado de terra molhada e diz, emocionado: “Nós somos isso daqui.”. Uma outra pajé, que acompanha as movimentações
desde a ocupação em 2006,  afirma que “Isso aqui é um patrimônio de todas as etnias indígenas do Brasil. Nada pode substituir isso”.

O cacique nos conta pacientemente uma retrospectiva detalhada dos processos de negociação. Fala que a proposta é transformar o espaço na primeira universidade indígena do Brasil: “É o nosso sonho. A gente não quer ser só uma fotografia para turista ver. Queremos preservar nossa cultura”.

Resistência nas ruas e nas redes

Não há possibilidade de conciliação de interesses: de um lado, o governador autoritário, as construtoras e a necessidade de valorização do capital especulativo. Do outro, índios à margem da sociedade, diversidade cultural e valores históricos.

Muito foi especulado sobre o futuro do antigo Museu do Índio e das famílias que ali vivem. No dia 12 de Janeiro de 2013, a Tropa de Choque foi enviada ao local para fazer  uma reintegração de posse e a ação mobilizou um grande número de pessoas, que foram prestar solidariedade e defender os indígenas. Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro estava presente e teve um papel fundamental para evitar conflitos. Com a presença da mídia nacional e internacional, manifestações e mobilização social contra a derrubada, a tropa armada, sem autorização judicial, foi retirada do local. Os índios, que não querem ficar em vitrines e desejam um local para ensinamento de sua cultura, agora brigam contra outra tropa, armada de terno, gravata e interesses espúrios.

Desde a desastrada e irregular “visita policial”, o governo tentou outra abordagem: reunião com a Secretaria Estadual de Direitos Humanos e da Secretaria de Assistência Social, propondo aluguel social e saída pacífica ou a expulsão na base do trator, que foi rejeitada pela Aldeia.

O governo, já desmoralizado com a tentativa de isentar sua responsabilidade na desocupação quando disse que a ordem partiu da
FIFA, perdeu terreno político: tanto a FIFA quanto a UNESCO já se pronunciaram contra a derrubada do antigo Museu da Memória Indígena.

485924_134719520022005_426677501_nA partir da solicitação do Ministério Público, o vice-presidente do TRF recebeu um pedido do Ministério Público Federal para rever a suspensão das liminares que resguardavam a Aldeia Maracanã e o Museu do Índio. Com isto a União tem até 10 dias para se manifestar, o que exigirá ainda mais mobilização. Afinal de contas, os governos aliados de PT e PMDB são os mesmos que promovem Belo Monte e o Código Florestal, mas temem um desgaste internacional caso ocorram (mais) violações dos Direitos Humanos.
A mobilização em defesa da Aldeia tem tomado as ruas e também as redes. Não só muitos cariocas conseguiram chamar atenção para estes absurdos, mas também tem tomado a mídia nacional e internacional e principalmente as redes sociais. A luta está só começando, vamos juntos!

*Texto escrito pelos militantes do Juntos RJ.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017