O governo dos EUA espiona as nossas comunicações

09/jun/2013, 20h35

* Tiago Madeira

“A Agência de Segurança Nacional está espionando os EUA e o resto do planeta. Não é mais possível negar isso. Quem nega é um completo idiota.” (Jacob Appelbaum)

A semana foi repleta de notícias que comprovam o avanço do controle e da vigilância digital. O jornal britânico The Guardian divulgou na quinta-feira um documento que mostra que a NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) está coletando todos os registros telefônicos da Verizon, uma das maiores operadoras do país, usando uma ordem judicial secreta emitida em abril. O documento vale até o final de julho e os registros incluem os números das duas partes envolvidas, suas localizações, horário e duração de todas as chamadas.

Na sexta-feira, outro vazamento, dessa vez a respeito de um programa chamado Prism, chamou atenção em jornais por todo o planeta. De acordo com uma apresentação de slides, o governo americano obtém informações diretamente de servidores de empresas como Apple, Google, Facebook e Microsoft. A acusação sobre acesso direto aos servidores foi negada por Larry Page e Mark Zuckerberg, mas levantou muito debate a respeito da espionagem nas nossas comunicações. O próprio presidente Barack Obama se posicionou. Defendeu a importância do programa e garantiu: “[O Prism] não se aplica aos cidadãos dos EUA e às pessoas vivendo nos Estados Unidos.” (E nós?)

Hoje foi feita mais uma denúncia, dessa vez sobre o Boundless Informant (Informante sem Limites). O foco dessa ferramenta é contar e classificar os registros de comunicação via telefone e Internet em todo o mundo. Os documentos obtidos pelo The Guardian mostram que a NSA coletou quase 3 bilhões de registros num período de 30 dias terminado em março de 2013. Os dados podem ser acessados através de um mapa clicável como na imagem abaixo:

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bm Os vazamentos acontecem na mesma semana em que, preso há 3 anos, Bradley Manning finalmente começa a ser julgado. Ele é acusado pelo governo americano de “ajudar o inimigo” ao divulgar, através do WikiLeaks, centenas de milhares de documentos confidenciais com informações sobre pessoas assassinadas pelos Estados Unidos no Iraque. Entre os documentos, o famoso vídeo Collateral Murder, que mostra soldados americanos matando civis desarmados (incluindo dois jornalistas da Reuters e duas crianças) a partir de um helicóptero em Bagdá como se estivessem jogando videogame.

O julgamento de Bradley foi construído cuidadosamente de forma a minimizar suas possibilidades de vitória. Na verdade, Barack Obama antecipou seu resultado há cerca de 2 anos, quando afirmou: “Ele violou a lei”. O julgamento-espetáculo terá 141 testemunhas de acusação, sendo que 24 dessas vão depôr em sessão fechada e, dessa forma, permitir que o juiz justifique sua decisão alegando que tem provas secretas. O governo e a “justiça” dos EUA estão prestes a condenar um jovem de 25 anos à prisão perpétua por espalhar verdades que deveriam ser públicas [com informações secretas que deveriam ser públicas!]

Os acontecimentos recentes fazem parte de uma disputa internacional em torno da informação e da Internet. Há pouco mais de um mês, Eric Schmidt (presidente-executivo do Google) e Jared Cohen (ex-assessor de Condoleezza Rice e Hillary Clinton) celebraram o namoro entre o Vale do Silício e a Casa Branca com o lançamento do livro The New Digital Age, que apresenta, segundo Julian Assange, um modelo de imperialismo tecnocrático.

Por outro lado, com a indignação que se ampliou a partir da crise econômica mundial, estamos vivendo um período de primaveras potencializadas pela Internet. Um importante combustível dos indignados é o WikiLeaks, com denúncias que incluem a previsão da falência dos bancos da Islândia, a corrupção de ditadores como Ben Ali, Mubarak, Kaddafi e Assad, a brutalidade das guerras imperialistas e os esquemas do Departamento de Estado dos EUA.

Ao mesmo tempo que o governo americano se empenha em vigiar e controlar a Internet, esconde o que faz e persegue os que divulgam seus segredos criminosos porque isso é “ajudar o inimigo”. Os inimigos dele somos nós. Precisamos nos organizar numa onda internacional de solidariedade a Bradley Manning e a Julian Assange promovendo reflexão e ação por toda parte.

* Tiago Madeira é estudante de Ciência da Computação na USP e militante do Juntos!