Sejamos realistas, queiramos o impossível!

18/jun/2013, 09h34

* Nathalie Drumond

Ontem foi um dia histórico. É provável que alguém com seus 25 anos nunca tenha vivenciado tamanha mobilização. Foram cerca de 500 mil pessoas nas ruas em todo o país. Muitos estavam convictos que o dia 17 de junho será registrado nos livros de história. E muitos hoje também se questionam sobre qual será o desfecho desta história. Quem e como se contará este importante evento? Qual o recado que transmitiremos para as próximas gerações?

Em momentos de ebulição social os tempos se aceleram. Conclusões que o povo levaria cinco anos para tomar são resumidas em cinco dias. São tempos intensos, as coisas passam a se realizar concomitantemente. Em especial, em tempos de internet, televisão massificada e facebook onde a cobertura dos acontecimentos é quase que imediata. As manifestações significaram uma revolta contra a injustiça de se cobrar caro por um serviço tão precário como o transporte coletivo nas cidades. Mas também foram uma demonstração de força, onde a população quis dar um recado, que “o gigante acordou”. O povo está apostando suas fichas na força da mobilização coletiva como principal via para a construção de outro futuro. E diante de tanta desilusão política está buscando um caminho.

Os últimos trinta anos foram duros. Em síntese, os direitos conquistados sob muito suor foram relativizados, as experiências genuínas de organização das maiorias foram pouco a pouco se adaptando ao status quo. O poder público se transformou em balcão de negócios para interesses privados. Portanto, há muita desconfiança sobre as velhas formas de representação e organização social e política. Mas o povo está buscando um caminho que supere o atual estado de coisas. Não há uma resposta única de por onde e como seguir. Cada um ao seu modo aposta numa hipótese. Pergunta-se por saídas, mas ainda não se tem respostas. Mas uma conclusão já foi tirada, a ferramenta para construir outro futuro é a mobilização de rua. Esta é a nossa força. E esta é uma grande conclusão.

Mas e agora? Quais serão os caminhos? Os antipartidários apresentam uma solução: o fim dos partidos e todas as formas de representação política. Alguns esperam acabar com a violência através da redução da maioridade penal. Alguns ultra-radicais esperam tomar o poder detonando e ocupando os seus maiores símbolos, os palácios de governo. Os evangélicos apostam na fé. Os sindicatos no aumento dos salários. E os 500 mil e todos aqueles que lhes apoiam vão para onde?

Este é um processo em aberto, dependerá da capacidade de grandes ideias se traduzirem em verdadeiras soluções. Portanto, nós militantes e ativistas da esquerda temos uma grande responsabilidade: transformar nossas boas ideias em soluções e respostas a este momento de crise. E é muito mais fácil difundir, debater, apresentar, aprender mais sobre tais ideias onde o povo está. E ele está reunido nas ruas. Saiu de suas casas onde o seu principal interlocutor era o Estado e a grande mídia. Diante disso, nós passamos a disputar com o sentimento conservador em melhores condições. Todos hoje se lançam neste movimento para que suas ideias ganhem a simpatia dessa maioria reunida nas principais avenidas deste país. Os partidos de esquerda, os punks, os partidos de direita, a grande mídia, os donos do poder, a burguesia, os diversos movimentos organizados, o indivíduo no ato que carrega seu cartaz. Precisamos compreender os ritmos deste processo, o tempo de aprendizado, as principais ansiedades daqueles que ocupam nossas praças e conectar nossas ideias a eles, angariando apoio a elas. Precisamos ganhar esta maioria que se lança nas ruas para a necessidade e a viabilidade de nossas propostas. E nunca nos disseram que seria fácil, mas esta é a nossa maior oportunidade.

Nós, do Juntos, temos uma grande aposta: é preciso barrar o aumento das passagens. Este é o verdadeiro problema – que para além de sua justeza tão bem apresentada pelo movimento – foi capaz de unificar do ativista ao evangélico, do advogado ao cobrador, da dona de casa ao punk, do músico ao desempregado, entre outros. Se a população logra esta vitória, para além da economia de 0,20 centavos, a confiança na mobilização como principal ferramenta se reforçará. E a mobilização permanente é um problema para a direita. A população, jovens e trabalhadores, em constante movimento são uma perturbação à estabilidade política absolutamente necessária para que os donos do poder sigam lucrando rios de dinheiro às nossas custas. A inquietação, a insatisfação permanente, a ação das massas nas ruas sempre coloca em xeque a preservação do poder de uma pequena classe de privilegiados. Portanto, que o povo conquiste vitórias através da luta na rua é um problema para a direita e não o seu consolo. Esta deve ser a grande conclusão que devemos, os ativistas de esquerda, incentivar para que se tire. Sendo assim, barrar o aumento é imprescindível.

Muitos devem neste momento pensar: mas eu prefiro o certo ao duvidoso. No entanto, o certo hoje é que o Brasil é o país da corrupção, das injustiças e das desigualdades sociais, da péssima qualidade dos serviços públicos, de uma polícia violenta e repressora, da pouca possibilidade de participação popular na política. O certo é que hoje por hoje o poder da classe dominante brasileira ainda está intacto. Defender o certo é uma postura conservadora. A dúvida neste momento nos abre um mar de possibilidades, sendo que parte delas pode nos conduzir a um país de maior democracia, mais justiça social, igualdade entre todos, respeito à diversidade. Cabe a nós trabalhar para desequilibrar este jogo a nosso favor. A dúvida nos abre portas. Não as fecha. Sendo assim, nunca foi tão atual o lema: sejamos realistas, queiramos o impossível! A vitória está em nossas mãos, a tarifa vai baixar!

* Nathalie Drumond é do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos, do Juntos RJ e estudante de geografia da UFF.