A menina que não foi na passeata

21/jul/2013, 22h15

Maíra Tavares Mendes*

As Jornadas de Junho colocaram nas ruas do Brasil uma diversidade de reivindicações tão gigante quanto o Brasil. A falta de espaços políticos de debate e intervenção que fossem reconhecidos e legitimados, sobretudo por jovens, fez com que escolhessem a rua como o lugar para expressar toda a indignação represada: o transporte, o custo de vida, a falta de investimentos em saúde e educação, a repressão da polícia, machismo, racismo e homofobia. E como em diversas mobilizações, o papel das mulheres foi protagonista: estavam na linha de frente com cartazes, palavras de ordem, no enfrentamento com a polícia.

Entretanto senti falta de algumas amigas que não puderam estar presentes. Não era um problema de conflito de horário de trabalho ou estudo, falta de vontade, muito menos medo de um eventual confronto. Algumas delas, maiores de idade e vacinadas, foram proibidas de participar pelos pais, que ainda que concordassem com a justeza das reivindicações impediram as filhas de correrem algum risco participando de um ato que pudesse ser reprimido. Além de responder a esses pais, ecoando Guimarães Rosa, que “viver é muito perigoso” , é importante refletir um pouco sobre gênero, feminismo e a importância da organização das mulheres para procurar subverter a imagem de mulher frágil e dócil.

Isso me lembra de algumas situações corriqueiras, mas que ainda me deixam bastante espantada, nas situações em que sou a única mulher entre homens. A cena pode variar desde ser ignorada no ato de cumprimentar todOs Os presentes, ou um pedido de desculpas (a mim somente) por um palavrão escapado (será que eles acham que não falo ou não ouço palavrão?), para não falar das famigeradas piadinhas sexistas requentadas pela ocasião (essa é a hora do palavrão vir à tona). É claro que muitos homens não agem assim ou mesmo se indignam – e este costuma inclusive ser um dos meus critérios de amizade – mas o fato de serem exceção confirmam a regra, que é a de tratar as mulheres enquanto posse – do pai, do irmão, do marido, do namorado.copadomundo-laerte-1

Esta construção diferencial de papeis das mulheres e dos homens é o que chamamos de gênero. Se biologicamente o que nos define como homens ou mulheres é ter cromossomos XX ou XY, gênero é o que se constrói socialmente como o que é da alçada de meninas/mulheres e de meninos/homens. É verdade que muita coisa mudou (na minha infância seria impensável a existência de um skate rosa, por exemplo), mas isso só aconteceu porque muitas mulheres procuram cotidianamente desnaturalizar o que é “coisa de mulher” ou não.

A lista de coisas de mulher versus coisas de homem é grande, mas em geral o tratamento desigual está relacionado a um padrão: o homem é o provedor – responsável pela produção de condições materiais da família, a mulher é quem deve garantir tudo para viabilizar a condição do provedor que a sustenta – reprodução, trabalhos domésticos, organização. Ao homem o que é público, à mulher ao espaço privado – “por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher”, lembram? A coisa está tão internalizada em cada uma de nós, que reproduzimos algumas atitudes sem nem nos darmos conta: alguns diriam nesta situação que “a própria mulher é machista”. Eu prefiro a explicação mais freireana: quando a oprimida internaliza a lógica do opressor.

As coisas começam a mudar quando começamos a refletir sobre alguns porquês. É comum que isso aconteça na adolescência, quando os primeiros conflitos sobre qual roupa usar podem ser uma grande questão na família. Ou quando o irmão é estimulado a trabalhar e estudar e a irmã a cuidar dos irmãos e da casa. O fato é que em algum momento de nossas vidas vamos nos deparar com atitudes que nos levem a este questionamento. Se algum dia você se questionou, é porque tem algo de feminista em você. O feminismo é o movimento que procura romper com a desigualdade de gênero – se o gênero é uma construção social, o feminismo é o movimento de desconstrução dessa desigualdade.

Essa desigualdade está infelizmente presente mesmo nos movimentos de contestação: quantas mulheres falam nos megafones e carros de som nas manifestações? Quantas mulheres ocupam espaços de direção política? Quantos homens deixaram de ir ao ato para cuidar de suas crianças pequenas enquanto sua companheira esteve na manifestação? Mesmo que esse número possa ter aumentado comparando com o passado, ainda é muito pouco. Essa construção social está tão introjetada em nós, que pode ser um sofrimento até mesmo pensar em fazer uma fala numa reunião ou assembleia, em se expor a um público que frequentemente pode tratá-la com um disparo de fiu-fius ou ignorá-la  mais ou menos conscientemente.

Como em todo movimento, há muitas estratégias, táticas e concepções de como derrubar essas diferenças. Uma das formas que vejo como fundamental é a necessidade das mulheres se autoorganizarem: de existirem espaços (desde que não sejam os únicos) em que estejamos entre mulheres debatendo nossa condição.

Muitos homens se sentem injustiçados: queriam debater também. Ótimo. Mas se quisermos que as mulheres sejam protagonistas de sua libertação, é importante preservarmos um espaço em que a mais tímida possa se sentir à vontade para falar. Isso não é secundário. E é sintomático que nos debates sobre o tema em que não há o cuidado de preservar os espaços de autoorganização, quando há apenas os espaços mistos, que os meninos acabem falando mais do que as meninas sobre a situação de opressão que as próprias meninas sofrem. Parece meio maluco que isso aconteça, mas dá pra suspeitar, já que se o problema é de construção social, ele se dá nas mais diferentes esferas da sociedade. Por isto é importante fortalecer espaços em que as oprimidas lutem por sua própria emancipação.

Também não é secundário existirem espaços mistos (mulheres e homens) de debate. Fazer só o espaço autoorganizado e se abster de fazer o debate justamente com aqueles companheiros que estão dispostos a dar esta batalha é começar perdendo: se não conseguirmos convencer nem que está disposto a ser convencido, como iremos acabar com o machismo em toda a sociedade?

Mas penso que deve haver um incentivo cada vez maior para que as mulheres, que não prescindem de seus espaços de organização, rompam cada uma das barreiras que a sociedade machista as coloca. Cada ato, cada tomada de palavra, cada intervenção é uma trincheira. Afinal de contas, também de nada adiantariam os espaços autoorganizados se eles não servirem para que as mulheres tomem a política como o seu espaço de intervenção, que caminhe lado a lado com os homens, ou que bata de frente se necessário for. Para que a rua, esse lugar que virou mais nosso, seja cada vez mais das mulheres também. E é para isto que é preciso haver uma ferramenta política que acredite que a luta contra o machismo ou qualquer forma de opressão é tão importante quanto a luta contra o aumento da passagem, que parou o Brasil.

Muito prazer, somos o Juntos!

O prazer é todo nosso, somos o Juntas!

P.S. Nos vemos na Marcha das Vadias do Rio, no dia 27/07, às 14h no Posto 5!

marcha das vadias

* Maíra Tavares Mendes é professora, estudante da UERJ e militante do Juntas! RJ