A política oxigenada

04/jul/2013, 16h15

* Vladimir Safatle

As manifestações são uma resposta dos jovens à revolta estéril dos ditos formadores de opinião.

“Estamos atordoados”. “Não estamos entendendo nada”. Quantas vezes você ouviu tais frases serem ditas nos últimos dias? Pois bem, por trás dessa pretensa humildade de analistas que afirmavam ver coisas incompreensíveis nas ruas brasileiras, havia um desejo. O desejo de que tudo fosse realmente incompreensível. No fundo, eles diziam: “- Pelo amor de Deus, que todos acreditem que nada estará claro daqui para a frente e que é melhor voltarmos a nossa indignação vazia de sempre”. Ninguém quis lembrar, por exemplo, de quantos ensaios gerais aconteceram nos últimos anos através do número incontável de greves, de bombeiros até professores, e de revoltas contra a brutalidade policial.

Este desejo de incompreensão e esquecimento era alimentado por um medo. O medo de que a política voltasse às ruas em seu estado nascente e bruto, sem lideranças ou partidos controlando-a, política resistente à revolta estéril dos ditos formadores de opinião. Estas pessoas aprenderam que uma política sem líder e sem tutela partidária não tem direção, concretude e eficácia. No entanto, o povo brasileiro quis mostrar quão errado eles estavam.

O que vimos nas últimas semanas é a verdadeira face da política daqui para frente. Longe de reclamações genéricas ou palavras vazias de ordem, ela se foca em um problema preciso e concreto, mas que tem a força de colocar em cheque todo o edifício do discurso oficial. Vimos isto em Santiago, quando os estudantes saíram para mostrar como, atrás do milagre chileno, havia uma população espoliada por gastos exorbitantes com educação. No Brasil, ao escolher lutar contra o preço vergonhoso de um transporte público miserável que serve, principalmente, para alimentar máfias de empresários, os manifestantes mostraram quão pouco as cidades brasileiras melhoraram na última década, quão pouco os serviços públicos foram realmente reconstruídos. Ao fazer isto, eles desvelaram a verdadeira face do “milagre brasileiro”. Como bons psicanalistas, eles focaram em um sintoma a fim de mostrar como ele, na verdade, manifestava os impasses da totalidade.

O povo brasileiro foi de uma racionalidade admirável. Ele deu tempo para que um novo ciclo de luta contra a desigualdade começasse com o governo Dilma. Mas depois de três anos de letargia e desonerações inúteis de impostos, ele não viu transportes, educação e saúde públicos de qualidade. Ficou claro que o ciclo de ascensão social do lulismo esgotara-se. Ele quis ainda acreditar que os grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas trariam benefícios concretos para as cidades, melhorando nossa vida cotidiana. No entanto, os brasileiros se deram conta de que tais benefícios dirigiam-se apenas a uma casta de empresários e empreiteiras corruptas que sempre se beneficiaram de contratos governamentais.

Juntou-se a isto a indignação brutal contra um poder que só se defende apelando a uma polícia militar que há muito deveria ter sido extinta por cotidianamente agir como uma manada de porcos selvagens. Poder que, como sempre, tentou calar o descontentamento na base da bala de borracha na cabeça e gás lacrimogêneo vencido. Mas como sempre acontece, todo poder é fraco diante de um povo que insistentemente volta ao mesmo lugar.

A brutalidade policial é, na verdade, apenas o lado mais visível de uma democracia parlamentar que acabou. Pois a violência cresce quando o fim chega. O Congresso continuará a existir, mesmo que queiramos, cada vez menos, ser “representados” por alguém que nunca vimos e nunca nos viu. Os partidos continuarão lá, mesmo que saibamos que o verdadeiro embate político não se centra mais na conquista de maiorias parlamentares. Ele se volta para a constituição de uma força extra-institucional, força instituinte que, cada vez mais, pode legislar em seu nome próprio através da proliferação de mecanismos de democracia direta.

Vários gostam de dizer que não temos idéia do que seria algo parecido e que, por isto, é melhor continuar onde estamos. Eles afirmam temer o que pode vir. Bem, eles podem então ficar com seu medo do futuro e seu amor neurótico por um presente que eles amam odiar. Outros não tem receio em dizer que o caminho em direção a criatividade política pode ser tortuoso, difícil, mas nada, absolutamente nada, nenhum tropeço ou equivoco, pode eliminar, de uma vez por todas, nossa crença de que podemos fazer melhor do que foi feito até agora.

Pois uma coisa é certa: há décadas este país não tem uma geração de jovens tão politizada, corajosa e brilhante quanto esta que levou a cabo as manifestações. Muitos deles passaram semanas nas ruas no momento dos movimentos de Ocupação, que a imprensa fez questão de ridicularizar. Outros tantos lutaram por universidades mais democráticas, por direitos iguais aos homossexuais, por causas ecológicas. Hoje, eles conseguiram parar os poderes da República e deixar a repressão policial completamente atordoada. Com uma precisão cirúrgica, eles obrigaram a suspensão dos aumentos no transporte público, mostrando à população mais pobre com quem ela pode contar para lutar por uma sociedade realmente igualitária e dotada de serviços públicos dignos que mostrem respeito aos cidadãos.

Mais do que tentar ensinar a eles o que fazer e como lutar, censurando-os por não lutarem como até agora se lutou, cabe admirar a sensibilidade destes jovens em compreender como serão os embates do futuro. Diante deles, só nos cabe dizer: “Nós confiamos em vocês. Vocês demonstraram força e inteligência. Sigam em frente. A verdadeira democracia é barulho e luta”.

* Vladimir Safatle, Professor da Faculdade de Filosofia da USP, é autor do livro “A esquerda que não teme dizer seu nome”

Fonte: Carta Capital (edição 754, 26 de junho de 2013)

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