O veredito de Manning pode ser o fim do jornalismo investigativo

30/jul/2013, 00h33

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“Se você visse coisas inacreditáveis, coisas terríveis, coisas que deveriam estar em domínio público e não num servidor qualquer num quarto obscuro em Washington, o que você faria?” (Bradley Manning)

* Tiago Madeira

Nesta terça-feira (30 de julho), 14h (horário de Brasília), o juiz responsável pelo caso de Bradley Manning deve ler seu veredito. Preso desde os 22 anos, o ex-soldado pode ser considerado culpado de ajudar o inimigo por revelar crimes cometidos pelo seu país no Iraque. De fato, Bradley foi responsável pela divulgação de alguns dos materiais mais notórios do WikiLeaks, em particular o vídeo Collateral Murder. Tal vídeo mostra helicópteros americanos matando dezenas de civis (incluindo duas crianças) em Bagdá, como “crianças queimando formigas com uma lupa” nas palavras de Manning.

Em entrevista realizada ontem pela CNN com Julian Assange, o repórter se esforça para culpar o fundador do WikiLeaks pelo destino de Bradley, que tem tudo para ser a prisão perpétua. Como se essa responsabilidade não fosse do governo que o acusa e promove guerras sem sentido por todo o planeta para garantir o lucro das suas grandes empresas. Tal governo ataca a população do mundo inteiro e também do seu próprio país. Gastou trilhões para salvar os bancos que desalojaram milhares de famílias na crise econômica, foi conivente com a execução de Trayvon Martin motivada por racismo e agora está prestes a transformar em mártir um jovem americano que resolveu não se calar diante da injustiça.

Assange não cai na armadilha. Diz que Bradley é um herói e que o material que ele divulgou foi um dos motores da primavera árabe. Segundo Assange, se Bradley for considerado culpado de ajudar o inimigo, um precedente terrível será aberto. Significa que você poderia ser condenado à prisão perpétua ou à morte por fornecer informação a um jornalista e ele publicar, já que os “terroristas” também teriam acesso a esse material (ainda que nesse caso não exista nenhuma evidência de que a vida de alguém tenha sido colocada em perigo pelo vazamento). “É o ataque mais sério do governo americano na sua guerra contra o jornalismo investigativo. Será o fim do jornalismo de segurança nacional nos EUA”, conclui Assange.

O que está acontecendo a Bradley poderia acontecer a qualquer um de nós. Defender Bradley, como Snowden, é defender os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Nós também somos Bradley Manning.

* Tiago Madeira é estudante de Ciência da Computação na USP e militante do Juntos