Nosso homem em Moscou

03/ago/2013, 19h29

Pepe Escobar

E o quê, então, podem fazer o governo Obama (“extremamente desapontado”), o complexo orwelliano/Panopticon e o desacreditado Congresso dos EUA? Mandar uma equipe Team 6 de Seals da Marinha para sequestrá-lo ou acertar-lhe uma bala na testa (assassinato predefinido) – convertendo Moscou em neo-Abbottabad 2.0? Dronar o cara? Envenenar a sopa borscht dele? Contaminar a casa para onde ele se mudará, com urânio desenriquecido? Vão implantar uma zona aérea de exclusão em cima da Rússia?

Edward Snowden, agora com novo status legal na Rússia, simplesmente não poderá ser entregue aos meganhas que estão linchando Bradley Manning. Legalmente, Washington é hoje tão impotente quanto uma menina, em sua tribo pashtun, obrigada a encarar um míssil Hellfire que voa em direção a ela. Um POTUS(President of the United States) tão orgulhoso de seu pedigree de professor de Direito Constitucional – apesar de não fazer outra coisa além de sapatear sobre a Constituição dos EUA, para nem falar da legislação internacional – parece que não entendeu a mensagem.

Barack Obama praticamente pôs os pulmões pela boca de tanto que gritou que o presidente Vladimir Putin da Rússia tinha de entregar-lhe Snowden “sob a lei internacional”. Putin repetiu várias vezes que não tinha de entregar e não entregaria, “nunca”, “jamais”, de jeito nenhum.

Obama até telefonou a Putin. Nada. Washington até obrigou os poodles europeus a aterrar à força o avião do presidente Evo Morales da Bolívia. Pior a emenda que o soneto. Moscou manteve-se agarrada à letra da lei russa e até já garantiu asilo temporário a Snowden.

A saga de Edward Snowden converteu a doutrina da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono em uma cabeça de Medusa. Não só por causa da queda de todo o aparelho de segurança dos EUA, mas também porque mandou pelos ares o mito do POTUS como Dominante Dominador de Pleno Espectro.

Obama mais uma vez revelou-se ao mundo como político medíocre e negociador incompetente. Putin devorou-o pela perna, acompanhado de porção suculenta de ovos benedict. Glenn Greenwald será o agente da morte pelos mil talhos-vazamentos[1] – porque é o fiel depositário da arca do tesouro digital de Snowden. E Snowden meteu-se num táxi e deixou o aeroporto – nos termos em que decidiu que as coisas seriam feitas e fê-las.

Camadas e camadas de nuances foram afinal apreendidas na fascinante discussão que Yves Smith oferece em seu blog[2] – o que absolutamente não se encontrará jamais no jornalismo da imprensa-empresa ocidental. Ao POTUS, restou boicotar um encontro bilateral com Putin, mês que vem, à margem da reunião de cúpula do G20 em São Petersburgo. Patético é pouco, até para começar a dizer o que significa tudo isso.

Fiz cá do meu jeito[3]

E quanta boa literatura! Snowden passou a maior parte do tempo em trânsito no aeroporto, lendo Crime e Castigo, de Dostoevsky; uma seleção de contos de Chekhov, uma história do Estado russo, do historiador do século 19 Nikolai Karamzin – e aprendendo o alfabeto cirílico.

Tomou um táxi rumo ao lado ensolarado da calçada ao deixar Sheremetyevo, acompanhado por Sarah Harrison de WikiLeaks. Pode ter ido para uma base de apoio militar indevassável – chance zero de ser descoberto por algum agente da CIA em Moscou, embora seu advogado tenha dito que ficaria morando em sua residência como modalidade de proteção. Em breve receberá a visita do pai, Lon Snowden. E a sempre autodescrita super-heroína da pole-dance e namorada Lindsay Mills com certeza também reaparecerá.

Como fez para conseguir sobreviver ao enervante jogo de espera, até ter a última palavra – como na declaração publicada por WikiLeaks: “Nas oito últimas semanas vimos o governo Obama manifestar respeito zero pela lei doméstica e internacional, mas, afinal, a lei está levando a melhor. Agradeço à Federação Russa por ter-me dado asilo nos termos do que determinam a lei russa e a lei internacional.”

Snowden tem o direito legal de trabalhar – e já recebeu uma oferta de emprego do fundador de Vkontakte (o ‘Facebook russo’), Pavel Durov, para incorporar-se à sua equipe de “estrelas mundiais da segurança”. Em 2018 já terá direito a requerer a cidadania russa. Prometeu a Putin que não vazará “informação que cause dano aos EUA” – condição essencial para receber o direito de asilo. Mas não precisará fazer nem isso: Greenwald já tem plena posse de tudo, desde os primeiros dias em Hong Kong. E o que fará Washington? Vão tratar o apartamento de Greenwald no Rio de Janeiro como tratam festas de casamentos pashtuns?

timing não poderia ter sido mais dramático. Snowden finalmente aterrissou na Rússia imediatamente depois que Greenwald revelava os detalhes de XKeyscore[4] – mais uma vez destacando e demonstrando que a opinião pública norte-americana, a imprensa-empresa dos EUA e o cosmicamente inepto Congresso dos EUA não têm nem ideia do alcance da espionagem generalizada que a Agência de Segurança Nacional dos EUA faz, contra todos. “Controles e equilíbrios constitucionais”? Alguém se lembra disso?!

Deve haver alguma pane essencial, dano fundamental, no QI coletivo desse pessoal. O governo Obama, tanto quanto o complexo orwelliano/Panopticon estão em estado de choque, porque simplesmente não têm meio algum para deter o processo de morte pelos mil talhos-vazamentos. Esse Olhar Errante [orig. The Roving Eye] alinha-se entre os que suspeitam que a Agência de Segurança Nacional dos EUA não tem sequer alguma mínima ideia do que Snowden, como administrador de sistemas, conseguiu baixar (sobretudo porque alguém com as competências técnicas de Snowden sabe facilmente apagar todas as pistas que tenha deixado ao acessar material secreto). Até o robô-chefe da Agência de Segurança Nacional, general Keith Alexander, já admitiu oficialmente que “aquela agência” não tem ideia do que Snowden copiou. Pode ter deixado plantado algum cavalo de Troia, ou infectado todo o sistema com alguma espécie de vírus. É possível que a festa ainda não tenha nem começado.

Vejam só, o POTUS manco 

Deve-se dar o justo crédito a algumas latitudes mais cínicas, na América do Sul, por exemplo, onde muita gente comenta, rindo, que “os gringos espionam tudo que nós fazemos”; a Internet, afinal, nasceu como programa militar dos EUA. O professor John Naughton da Open University britânica já deu até um passo adiante,[5] quando disse que “os dias da Internet como rede realmente global estão contados”. Adiante, só nos espera a balkanização – subredes geográficas governadas por EUA, China, Rússia, Irã, etc.

Naughton também destacou que os EUA e outras subpotências ocidentais perderam a legitimidade que tiveram como governantes da internet. E, para culminar, não há nenhuma “agenda de liberdade para a internet”, como o governo Obama vive a papaguear.

Essa obsessão do Grande Irmão com espionar, rastrear, monitorar, controlar, decodificar virtualmente tudo o que nós fazemos digitalmente está levando a estupidezes monumentais, como as pesquisas Google levarem agentes armados do governo dos EUA até uma casa, como se lê já com detalhes publicados.[6] E mesmo todo esse Paraíso da Paranoia não conseguiu proteger os EUA de saírem corridos do Afeganistão e do Iraque, nem ajudou a prever a crise financeira de 2008. Mas, sim, é possível que as elites tenham sido informadas e tenham administrado a seu próprio favor a massiva informação à qual tiveram acesso e muito lucraram com o que souberam.

Por hora, o que temos é um complexo orwelliano/Panopticon que continuará com seus poderes incontrolados; uma população afásica; um homem calado, invisível na multidão em Moscou; e um POTUSmanco condenado a morder, de raiva, o pé da mesa. Fiquem atentos. Ele pode ser tentado, como rabo, a balançar os cães (da guerra).

[1] “Morte pelos mil talhos, ou mil cortes”. Sobre isso, ver aqui [NTs]
[2] Naked Capitalism
[3] Orig. I did it my way. É um clássico da canção norte-americana, famosa em gravação de Frank Sinatra. Ouve-se aqui, com tradução ruim, mas suficiente para ajudar a ler. A corrigir, porque é erro grave: “I’ve seen everything without exemption “ = “vi tudo sem isenção” (não “sem exceção”, como se lê na tradução) [NTs].
[4] The Guardian
[5] The Guardian
[6]Medium

Fonte: Asia Times Online
Tradução: Vila Vudu

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