O machismo e a desmilitarização da PM

09/ago/2013, 17h17

*Tânie

Estamos em tempos diferentes no Brasil. Nos botecos dá para ouvir as pessoas debatendo sobre a política, desde a mais cotidiana até a sintonia fina do que se deve fazer neste momento no país. O nojinho da política que víamos nos olhos das pessoas quando descobriam que éramos militantes de alguma causa ou partido tem se desmilinguido. Saber de política, acompanhar os debates do país e do mundo não te faz mais ser um estranho no ninho.

Entre tantos debates que tem surgido nessa ebulição política e social, vem vindo à tona, aos poucos, o questionamento sobre a truculência policial. Não que o tema nunca estivesse na pauta ou que os movimentos sociais não estivessem em diversas frentes organizando o questionamento sobre a militarização da segurança pública no Brasil e como esta política interfere de maneira mais profunda na vida dos setores mais marginalizados da sociedade. Sim, a polícia é violenta. Sim, a polícia mata. Sim, a polícia é machista e racista.

O treinamento da PM é absolutamente violento. Ele é feito para ser violento. O sujeito passa em um concurso e é submetido a rituais próprios do militarismo que retiram a sua individualidade muitas vezes por meio de humilhação e fazem-no aprender desde o início que existem valores a serem respeitados: hierarquia e obediência. Quando a sociedade opta por uma polícia militar, o que essa sociedade quer é uma polícia que cumpra ordens sem refletir. É claro que quando se dá um treinamento onde o próprio policial é violentado, como vou exigir que esse indivíduo não violente os direitos de um cidadão?

Não é de hoje que a polícia é violenta como também não é de hoje que vemos uma política de segurança pública que viola os direitos daqueles mais marginalizados na sociedade e que, sim, têm raça e gênero. O modelo de polícia que temos hoje no Brasil instaurado para conter as revoltas contra os processos de higienismo social que passamos durante o início da república e, antes, para aniquilar as resistências quilombolas, acabou por na época da Ditadura Militar se consolidar, e assim tem permanecido.

É pelo fato desta política de segurança pública – que tem como seu maior expoente a polícia militar – ser forma ativa de coibir a presença e a manifestação dos indesejáveis que é necessário apontar e tirar da invisibilidade quem são os marginais, quem são os suspeitos, que são aqueles naturalmente culpabilizados pela violência que sofrem: É a juventude negra, são as mulheres, trans, gays e lésbicas.

Não dá para debater a organização e violência policial, sem localizar os setores que mais sofrem com esta forma da organização da segurança pública que acaba por refletir e aprofundar diversas ideologias de uma vez só. Não há como esquecer a total falta de acolhimento por parte desta instituição em casos de violência sexista. A culpabilização das vítimas, principalmente com as mulheres, é algo recorrente. Segundo eles, somos nós que provocamos os nossos agressores e depois servimos de alvo para humilhação entre os policiais.

Não apenas a organização da instituição polícia militar, mas toda uma concepção de segurança pública se construíram como uma forma para reprimir os indesejáveis, reprimir aqueles que saem dos padrões . A pauta da desmilitarização, portanto é a nossa pauta, pois somos nós que causamos desconfortos, somos nós que somos vítimas da polícia como também de uma série de leis que visam criminalizar os movimentos sociais e as minorias.

Ontem, não foi a primeira vez que sofri com o machismo dos policiais. É evidente que eles agem com mais brutalidade e aproveitam-se de sua autoridade principalmente com as mulheres. Tenho combatido o machismo desde a infância e não aceito esse tipo de postura de uma instituição que deveria me proteger. Ser mulher não é um crime pelo qual devamos pagar ou uma condição da qual tenhamos que nos envergonhar.

O machismo mata. A militarização da PM também.

*Tânie é militante do Juntos nas Escolas de Campinas-SP