Pão de açúcar e seu “enfeite” de escravo: eleito o melhor supermercado (de 1850)

22/ago/2013, 17h01

Tatiane Ribeiro*

Ontem, foi publicada no facebook  uma foto que assustou a todos. O Supermercado Pão de Açúcar da Vila Romana (São Paulo) resolveu que seria bonito colocar uma criança negra acorrentada segurando uma cesta aparentemente bem pesada como enfeite (uma estátua). Ela fica ali, na porta de entrada no supermercado, mostrando qual é o conceito de “o que faz você feliz” da marca.

Foto-Pao-de-AcucarEssa estátua assusta por muitos motivos. Nem preciso dizer o quão ofensivo é para um negro, como eu, entrar em uma loja e dar de cara com uma “peça decorativo” (como eles mesmos  descreveram depois da denúncia em nota) como essa na sua frente. É um absurdo sem tamanho. Para mim, é um convite para não entrar, para não consumir nesse local. E ainda por cima trata-se de uma criança. Racismo, apologia à escravidão, apologia à escravidão infantil… Em que ano estamos mesmo? 2013 ou 1850? Quanto tempo ainda vai demorar para se entender que uma coisa dessas não é bonita?

Pois é. Eles acharam. Acharam que tudo bem colocar uma coisa dessas na porta da sua loja. E é claro que não é em qualquer loja. A rede Pão de Açúcar é conhecida por ser uma rede voltada para a classe média e alta, com produtos importados, “exclusivos” e excludentes. E é numa loja de um bairro de grandes prédios “chiques” que se encontra essa peça decorativa. É num Pão de Açúcar, e não em qualquer outro lugar (o Grupo Pão de Açúcar também é dono de uma série de outras redes de supermercados, que são mais voltadas para o “povão”) que temos que dar de cara com esse tipo de coisa.

Podem dizer o que quiser. Que “foi sem querer”, que a marca “pauta suas ações na ética, promoção e respeito à diversidade”, o que quer que seja. Para mim, o recado está dado: negros não são bem-vindos na rede Pão de Açúcar. Negros ainda são escravos, e essa criança é a representação das próximas gerações de negros e negras que não podem entrar na loja.

Vale lembrar que esse não é o primeiro caso de racismo na rede. Faz um tempinho, uma criança negra foi expulsa por um segurança de dentro da loja como “pedinte”. A verdade é que ela era filha de uma cliente, e estava pedindo à mãe que lhe comprasse alguma coisa. E se essa criança fosse branca? E se essa estatua fosse uma criança loira carregando uma cesta enorme com grilhões nos pés? E se o Pão de Açúcar assumisse que não quer negros nas suas dependências?

Fica a dica do dia: Pão de Açúcar, lugar de gente BRANCA feliz (como a gente vê nas propagandas mesmo).

*Tatiane Ribeiro é jornalista, negra e do Grupo de Trabalho Estadual do Juntos SP

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017