Sou Paraíba, sou baiano, sou do Brasil inteiro – e com orgulho

19/ago/2013, 19h29

Tatiane Ribeiro*

Nesse domingo, o Fantástico exibiu mais uma edição do quadro “Vai fazer o que?”. Dessa vez, o tema era preconceito contra nordestinos. Duas atrizes simulavam uma briga entre uma pipoqueira de rua e uma cliente, em que a cliente gritava que “Paraíba não sabe fazer nada direito” ou “volta pra sua terra”. A ideia era que testar a reação dos transeuntes. Numa situação dessa, você vai fazer o que?

Apesar do método um tanto quanto equivocado, o quadro trouxe a tona uma discussão que tem sido um pouco negligenciada nos últimos tempos: como é tratado o nordestino que mora no sudeste e sul do país? Que tipo de injúrias eles tem que ouvir todos os dias? Afinal, ser nordestino em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e outros estados é uma tarefa árdua.

Em São Paulo, por exemplo, quem se veste de maneira brega é “baiano”. Quem nunca ouviu (ou disse) “nossa, você tá muito baiano hoje” quando quer dizer a alguém que ele está ridículo? Já no Rio, todo nordestino é “paraíba”. E “paraíba” é “cabeça chata”, burro, sem noção. E não importa se ele veio de fato da Paraíba ou se veio do Rio Grande do Norte. Afinal, “é tudo igual”.

O preconceito com os nordestinos escondem, claro, um outro preconceito: o racismo. Aqueles que “vem lá de cima” normalmente são negros ou pardos. E como já está mais introjetado na sociedade que chamar negro de macaco é errado, usar outras características como classe social e origem são saídas para expressar todo o preconceito.

O centro econômico do Brasil se encontra no eixo Rio-São Paulo. E por quê? Oras, porque o carioca e o paulista são muito mais inteligentes que o baiano ou o “paraíba”; por isso, prosperaram muito mais. Pouco importa a forma como, historicamente, a economia brasileira foi se organizando de maneira a ter mais investimentos e infraestrutura nessa região. O que importa é que os nordestinos além de não terem conseguido fazer a sua própria região prosperar, ainda vem para o sudeste pra roubar nossos empregos.

No quadro do Fantástico muitas pessoas ficaram revoltadas, chamaram a atriz que fazia o papel da carioca de racista, a xingaram… Muitas choraram. O que não faltou foram paraibanos e nordestinos defendendo a suposta pipoqueira. Depois, em entrevista, já sabendo que tudo era montagem, contaram como sofrem esse tipo de coisa todos os dias, e por isso se comoveram com o que estava acontecendo ali.

Claro que o Fantástico mostrou uma situação limite. Mas e você, paulista, carioca, gaúcho, quantas vezes já não pensou e falou para si “tinha que ser nordestino!” quando um cobrador te dá o troco errado no ônibus ou quando uma empregada doméstica ou terceirizada da área de limpeza quebra alguma coisa?

O preconceito está por todos os lados. Enquanto pudermos, lutaremos. Porque somos “paraíbas”, baianos, pernambucanos. Com muito orgulho.

*Tatiane Ribeiro é jornalista, filha de nordestino (com muito orgulho) e do Grupo de Trabalho Estadual do Juntos SP

 

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