Controle de natalidade masculino existe: por que você nunca ouviu falar?

13/set/2013, 14h29

*Por Maíra Tavares Mendes

A invenção da pílula anticoncepcional, uma combinação de hormônios similares aos que nosso próprio corpo produz, foi uma verdadeira revolução para os direitos sexuais das mulheres. A maternidade, muitas vezes colocada não com uma opção, mas como obrigação, a partir daí pode ser uma escolha da própria mulher. Se hoje a mulher ainda é vista como um objeto, fico imaginando o que se espera de nós antes da pílula: uma “boa parideira” (de preferência dos varões), desprovida de prazer (só vale papai-mamãe), submissa em casa em sem vida social. Devia ser muito chato ser boazinha – assim como ainda é hoje. Mas pelo menos hoje dá pra ser boazinha e escolher ter filhos ou não.

Se a pílula anticoncepcional foi um marco na autonomia das mulheres sobre o próprio corpo, ela trouxe consigo uma contradição: a responsabilidade exclusiva da mulher sobre a gravidez ou a anticoncepção. Dado que vivemos numa sociedade entranhada pelo machismo, o corpo da mulher é envolvido numa aura de “mistérios” que faz com que até mesmo a menção da palavra “menstruada” constranja o mais esclarecido dos marmanjos. Sendo seu corpo “misterioso”, só compreensível pelas mulheres, a concepção (ou não) deixa de ser uma opção das duas partes necessariamente envolvidas no ato sexual para ser exclusivamente sua.

Descobri pela postagem de uma amiga feminista um artigo (de Peggy Korpela) Feminspire [http://feminspire.com/male-birth-control-easy-effective-available-and-totally-unheard-of/] com uma notícia totalmente nova para mim: a existência de controle de natalidade masculino. Isso mesmo: já existe HÁ 25 ANOS um método contraceptivo para homens de uso interno. Repito: VINTE E CINCO ANOS sem saber da mais remota existência de algo do tipo. Imagino que não seja a única – o que explica que essa informação não seja disseminada corriqueiramente, e mais, que isto não esteja disponível para o consumo?

Antes de tentar responder a essas perguntas, vale a pena explicar o modo de funcionamento deste método. Trata-se de um gel, que, após anestesia local, é injetado por uma seringa nos vasos deferentes (um procedimento que dura 15 minutos), e torna os espermatozóides inferteis. O material é seguro em termos biológicos, e caso se mude de ideia, pode ser facilmente dissolvido: em 2 meses o cidadão pode ser papi, sem os incovenientes cirúrgicos e com maiores probabilidades do que a vasectomia. Com exceção de um leve inchaço no local da aplicação e uma semana de “resguardo”, não foram detectados quaisquer efeitos colaterais. Na Índia, onde já é utilizada por todo esse tempo, a dose aplicada é mais barata do que a própria seringa de aplicação. Nos EUA, os testes com o RISUG (sigla em inglês para inibição reversível de esperma sob orientação) estão sendo analisados pelo FDA.

Duas principais razões explicam a quase total invisibilidade deste fármaco: a primeira é o patriarcado – conforme mencionei no começo do texto, pensar que homens seriam tão responsáveis pela gravidez quanto as mulheres é ainda ideia revolucionária. A segunda é a indústria farmacêutica: imagine quanto deixariam de lucrar se trocassem em massa as pílulas anticoncepcionais, de 21 a 24 comprimidos por mês, por um gel de única dosagem? Sem falar das inúmeras mulheres, como eu, para as quais os hormônios da pílula causam grandes desequilíbrios no corpo: dor de cabeça, inchaço, trombose, perda de libido, entre diversos outros efeitos colaterais.

Além de métodos também hormonais (injeção periódica, adesivos ou anéis vaginais que liberam as mesmas substâncias da pílula na corrente sanguínea), e dos procedimentos cirúrgicos (vasectomia e laqueadura) outros métodos contraceptivos (o que não necessariamente correspondem aos métodos que previnem as DSTs) podem ser usados, como o DIU (que impede a fixação do óvulo na parede do útero), diafragma (inserido no colo do útero antes da relação, impedindo fisicamente a passagem do esperma), e as camisinhas masculina e feminina. Com exceção da vasectomia, o único método contraceptivo usado em homens é a camisinha masculina – todos os outros agem sobre o corpo da mulher, apesar de ambos contribuírem igualmente para a fecundação.

Segundo Korpela, “Culturalmente, camisinhas são vistas como a única coisa com que homens devem se preocupar e às vezes nem isso eles querem fazer. Vasectomia é visto como algo que um homem faz depois de já ter família, e como algo que tira a sua masculinidade, é doloroso e constrangedor (embora também seja um procedimento de 15 minutos). Então eu gostaria de saber onde estão as outras formas intermediárias de controle de natalidade? Eu entendo e gosto de coração da independência e liberdade que o controle de natalidade dá para a mulher. Mas desde o advento da pílula, as escalas parecem apontar para a mulher ter mais opções/responsabilidade. Numa dicotomia completamente injustificada, as mulheres recebem toda a responsabilidade pelo policiamento e conseqüências do sexo, enquanto são ao mesmo tempo policiadas”.

E Korpela cita ainda mais uma razão, um pouco mais sutil, para a invisibilidade, retirada de um blog que discute a possibilidade de uso do RISUG: o total pânico do autor (e algo me diz que ele está longe de ser o único) com a possibilidade de uma agulha entrar em seu pênis (anestesiado). Essa é a hora que salta aos olhos o quanto nós, mulheres, fomos condicionadas à dor: cólicas, cistos no ovário, dor do parto, injeção de hormônios, colocação do DIU, a dor do aborto (espontâneo ou intencional). Sem falar nos efeitos colaterais da pílula que mencionei anteriormente.

Por essas e outras, estou na torcida da chegada do RISUG ao Brasil, não apenas por motivos de interesse imediato, mas porque talvez ele gere o debate tão necessário sobre direitos sexuais e reprodutivos, como uma possibilidade a mais de escolha para o casal. E também um outro tipo de reflexão, que não é de segunda ordem: o quanto algo aparentemente corriqueiro põe a nu uma lógica que coloca o lucro e o patriarcado acima da saúde e do direito de escolha.

*Maíra é Professora, militantes do Juntas e estudante da UERJ.

ERRATA, publica em 14/09, às 21h30

Depois de um dia de publicação do texto, e um pouco de surpresa com a grande repercussão dele – muita gente disposta a abrir a discussão sobre a responsabilidade de mulheres e homens na concepção – acho fundamental agradecer a tod@s que acham o bom debate fundamental. Várias pessoas alertaram que há uma informação equivocada no texto: de fato, o RISUG não está sendo disponibilizado para comércio, pois está na fase de testes clínicos humanos em todos os países em que é pesquisado (inclusive a Índia, que divulguei erroneamente como local onde teria sido comercializado). Ainda assim, a informação de que tem pesquisas consistentes sobre o fármaco em desenvolvimento há mais de 25 anos mantém aceso o centro do debate, que obviamente não se trata de comprar ou não comprar o fármaco, mas sim discutir sobre de quem é a responsabilidade sobre a concepção – se é compartilhada ou não, e quais tabus envolvem o debate sobre o corpo feminino e masculino.

Há inúmeras “pesquisas científicas” divulgadas por aí nos conhecidos “programas jornalísticos” da TV, em que as drogas não foram disponibilizadas para o público, mas ainda assim são comentadas corriqueiramente. É o caso das pesquisas com células-tronco, que ainda não tem nenhum produto conclusivo em termos de fármacos, mas sistematicamente aparecem na televisão reportagens sobre as promessas no tratamento de infarto do miocárdio e doença Alzheimer. Por que algumas pesquisas são tão divulgadas, enquanto outras (sobretudo as que tocam em temas que mexem com o conservadorismo social), permanecem tão ocultas? Mais ainda: o que faz com que algumas pessoas se sintam pessoalmente ofendidas com o debate acerca desta questão? Penso que são questões que complementam a discussão iniciada.

Àqueles e aquelas que estão dispostos ao bom debate e que chamaram atenção para a fidedignidade da informação, muito obrigada. Não é do nosso interesse disseminar informações falsas, e sim refletir sobre questões, como o feminismo, que ficam sempre nos bastidores. Quanto a quem prefere a desqualificação como método de não enfrentar as questões, só lamento que não esteja dispost@ ao debate fraterno, e torço para que não seja vítima de seu próprio preconceito.

Vem aí...

Acampamento Internacional das Juventudes em Luta: Rio de Janeiro, abril de 2017