O descaso do trem no Rio – casamento de interesses do governo e empresários

15/set/2013, 17h20

*Patrick Vieira

“em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas”
Leminski

 

Nas últimas semanas no Rio de Janeiro, a companhia ferroviária SuperVia tem feito de tudo pra facilitar a vida de jornalistas para escreverem suas matérias, bastando para isso apenas utilizar o famoso copiar e colar: “Problemas na rédea aérea causa pane nos ramais de trens…” ou “Trem quebra e causa tumulto no Rio”.

SuperVia é o nome da empresa criada pelo consórcio então vencedor da licitação (Consórcio Espanhol Bolsa 2000) que recebeu do Governo do Estado do Rio de Janeiro a concessão por 25 anos, renováveis por mais 25 anos. Em 2011, a formação societária da SuperVia mudou com a aquisição de 60% da concessionária por parte da Odebrecht TransPort e 40% por um fundo de investimento estrangeiro “parceiro”. Após a transação envolvendo a chegada da Odebrecht, o contrato de concessão da SuperVia foi prorrogado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro por mais 25 anos, sendo válido até 2048.

O total descaso com a manutenção gerou por diversas vezes atrasos de mais de uma hora, com estações ainda mais cheias que o normal, e impossibilitando muitos de ir ao trabalho, escola. Até mesmo a Agetransp, agência “reguladora” do setor, informou que, nos sete primeiros meses deste ano, 20 % dos trens saíram com atraso, e que, em 2013, foram registradas 118 ocorrências no setor – principalmente problemas na rede aérea, de avarias e de descarrilamentos. Hoje, o estado tem 190 trens. A maior parte da frota é velha: 122 estão em uso há mais de 30 anos. Dezoito foram comprados na década de 90.

Durante uma ida a faculdade na semana passada, dentro de um trem absolutamente cheio (que me parece se diferenciar dos navios negreiros apenas pelo tempo de viagem) presenciei uma situação que é bastante comum pra quem se utiliza desse meio de transporte diariamente: uma pessoa revoltada criticando outros passageiros ao telefone porque a estavam empurrando e espremendo. Ainda que compreenda a revolta, deveria ter sido dito a ela que a culpada não era da senhora que estava atrás dela, nem do rapaz atrás da senhora, nem da massa de trabalhadores que pegam e preenchem os trens toda manhã e final de tarde; os culpados não precisam entrar no trem – têm seus carros zero, seus motoristas particulares e ultimamente até helicópteros para se locomover pela cidade.

“Três vezes cheguei atrasado na firma e a firma me mandou embora. O patrão não aceitou”, disse um passageiro. A SuperVia alega ainda que entregou bilhetes para os “que se sentiram prejudicados”, mas não é o que vimos – além das longas horas de atraso, nenhuma explicação. Não bastasse todo esse abuso, o escritório de advocacia da mulher do governador tem entre os seus clientes a SuperVia e o Metrô Rio. O “casamento” entre Governo Cabral e SuperVia mostra, novamente, a face de um governo que governa para os empresários e que só aparece ao trabalhador em período de eleição. E isso se torna mais alarmante pelo fato de diariamente 650 mil pessoas utilizarem os serviços dessa empresa.

A SuperVia, apesar de ter tido também uma redução na sua tarifa, aparentemente ficou incólume da fúria e indignação da população nas jornadas de junho. Agora temos visto a maré virar, e se eles não prestarem atenção podem acabar se afogando. Esse texto é um relato de quem passa por isso diariamente e não aguenta mais essa situação e como diz O Rappa: “Sou mais um no Brasil da Central Da minhoca de metal que corta as ruas”

*Patrick Vieira é estudante de Ciências Sociais na UFRJ, militante do Juntos e um dos 650 mil usuários do péssimo serviço de trem na capital.