Ciência e tecnologia para a emancipação humana, não para aqueles que a combatem!

02/out/2013, 20h52

sbsu

Airton Moreira Jr. *

Na semana do dia 29/09 ao dia 04/10, está ocorrendo na UFSCar o “II Simpósio de Segurança“, cujo tema é “Gerenciamento de Crises: Segurança Nacional versus Grandes Eventos”. Organizado pelos Departamentos de Química e Física, pelo Programa de Pós-graduação em Biotecnologia e pelo Conselho Comunitário de Segurança de São Carlos, o objetivo do Simpósio é “focar na segurança associada com a realização dos eventos esportivos internacionais de 2014 e 2016 que o Brasil estará recebendo”.

 

Participam da organização e das atividades do Congresso diversas autoridades do Exército Nacional, da Polícia Militar e da Polícia Civil, sem contar integrandes da Abin e dos Exércitos Uruguaio e Paraguaio. Além disso, no dia 29/09, domingo à noite, foram realizadas diversas cerimônias oficiais militares na UFSCar, como a Convocação dos Militares; o Toque de Clarín; o Ingresso dos Pavilhões Nacional, Estadual, Municipal, do Conselho de Segurança e da UFSCar (carregados pelos atiradores do Tiro de Guerra do Exércio Brasileiro – TG/EB/São Carlos), entre outros.

 

A marcha de atiradores e soldados na universidade e a execução de ritos militares na surdina não são meros detalhes, dada a história recente do Brasil. A comunidade de estudantes, funcionários e professores da UFSCar expressa sua profunda indignação com o ocorrido, e exige explicações. O ensino superior público brasileiro conquistou sua autonomia e liberdade graças à resistência social e estudantil histórica ao autoritarismo do regime militar brasileiro. Muitos professores e alunos foram perseguidos, presos e até mortos nesse processo. Causa estranhamento e desconforto a realização de tal evento sem prévio debate acadêmico, contando com apoio de departamentos do campus e da própria reitoria.

 

Sequer é preciso ir muito longe na história para reconhecer os interesses das forças repressoras militares e da inteligência policial do Estado brasileiro nos conhecimentos científicos e técnicos produzidos na universidade. Com as recentes manifestações no Brasil, tais forças demonstraram o total descompasso dos interesses do poder político brasileiro com as demandas de transformação social e política que emergiram das vozes das ruas com mais e mais força a partir de Junho. Um dos motores das manifestações foi justamente a revolta, em diferentes lugares do Brasil, diante das desapropriações, desalojamentos e expulsões da população das grandes e médias cidades tendo em vista a realização dos “grandes eventos”, desalojar esse praticado com o uso da violência policial e, inclusive, de novas tecnologias não-letais e letais.

 

Nesse contexto, a apropriação de saber acadêmico e conhecimento tecnológico para fins de segurança nacional repressora eufscar_subsm nada corrobora a função social e crítica que esperamos da universidade. Compreende-se que a realização desse evento é apenas um marco pontual numa perspectiva negativa no horizonte da pesquisa acadêmica. A articulação entre conhecimentos biotecnológicos, químicos e físicos e mecanismos repressores de Estado tem sido bastante criticada por diversas áreas do conhecimento e apontada como um dos principais riscos à liberdade humana. Projeta-se um futuro nebuloso no qual manifestantes, militantes e quaisquer pessoas poderiam ser vigiadas, fiscalizadas e até incriminadas com o apoio de conhecimentos da genética, do gerenciamento de riscos e da química forense.

 

A comunidade universitária não reconhece a legitimidade e o potencial interdisciplinar, crítico e social de um debate em que a proteção de fronteiras não leva em conta a questão da autonomia dos povos indígenas e a proteção do seu território; um debate em que não sejam questionadas as atitudes despreparadas – e desesperadas – da polícia na contenção das manifestações urbanas; um debate em que a realização dos grandes eventos nos próximos anos no Brasil não seja compreendida numa ampla perspectiva; um debate em que a presença de forças militares no espaço da UFSCar não seja minimamente refletida e debatida com a comunidade acadêmica e, no limite, um debate em que a militarização da política não seja discutida, criticada, combatida e superada.

 

Espera-se, portanto, explicações tanto da Reitoria quanto dos Departamentos e Programas de Pós-graduação responsáveis pelo evento. A longo prazo, a comunidade universitária deseja a realização na UFSCar de um amplo debate sobre como renovar as práticas de produção de conhecimentos e, ao mesmo tempo, garantir a função social do que é produzido na academia.

 

Entretanto, desde já impera a convicção de que este é um debate que dependerá do combate às velhas institucionalidades, contra a privatização da ciência e a militarização técnica e social, contra os mecanismos de gestão e avaliação que contribuem para o descompasso entre saber universitário e necessidades sociais, em suma, um combate que deve ser travado através de ideias, não de armas; um debate que, para ser realizado, depende do comprometimento da UFSCar e de quem a dirige com a liberdade de expressão, e não do pacto com aqueles que a cerceiam.

* Airton Moreira Jr. é mestre em sociologia e militante do Juntos!