Quem é o inimigo?

29/out/2013, 14h13

*Tássia Lopes e Nathalie Drumond

Contra quem estamos lutando neste momento?

Junho significou a eclosão de um movimento muito amplo, tanto numérica quanto qualitativamente. As grandes marchas de rua reuniram revoltas distintas, que se uniam em alguns pontos. O principal deles era que o espaço público tornara-se a ferramenta prioritária para construir legitimidade para as diferentes reivindicações. Antes de junho podíamos dizer que a política estava privatizada. No entanto, em junho ela voltou à esfera pública, passou a ser assunto e preocupação de uma maioria, apesar do futebol, da novela, do trabalho, dos problemas da vida privada.

Com a saída da multidão das ruas, basicamente duas forças começaram a atuar. De um lado, os governantes, a mídia corporativa, os partidos da velha e da nova direita, as elites econômicas. De outro, todos aqueles que – mesmo divergindo nos métodos – insistiam para que as condições acumuladas em junho tivessem continuidade. Sendo assim, após junho tivemos uma explosão de movimentos sociais de diferentes culturas e tradições.

As tentativas da burguesia para recompor forças

Da parte da burguesia e seus representantes, iniciou-se uma empreitada com duas tendências, mas com os mesmos objetivos, para conter a revolta popular. De um lado, sinalizaram com algumas concessões. Em Natal, nossa luta em defesa do projeto que estabelece o passe-livre conquistou sua aprovação na Câmara de Vereadores. No entanto, passado alguns dias, o prefeito vetou o projeto. Mesmo antes de a decisão ser homologada em Diário Oficial, os vereadores, os mesmos que haviam aprovado o projeto, em seguida validaram o veto. A outra tentativa foi apostar na repressão, perseguição e criminalização dos manifestantes. Daí que os abusos cometidos pela polícia nas favelas diariamente, passaram a ser praticados também contra aqueles que saíam às ruas para protestar. Diante da escalada repressiva contra os manifestantes, duas realidades se conectaram. O desaparecimento do Amarildo virou mais uma das bandeiras daqueles que saiam em marcha. Em algumas cidades as marchas viraram abrigo para muitos jovens dispostos a enfrentar a polícia contra toda a violência sofrida em seus bairros.

A burguesia precisa recompor suas forças para evitar um novo Junho. Precisa assumir novamente o controle para assegurar a realização da Copa do Mundo, dentre outros de seus empreendimentos. Devido à repressão, neste momento, temos ainda vários presos políticos, no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio Grande do Sul, ativistas do Juntos, da ANEL e de outras organizações tiveram suas casas e computadores invadidos. Os governantes incrementaram as ferramentas de repressão, inovaram em leis que criminalizam diretamente aqueles que participam de protestos. Vale um destaque para o Rio de Janeiro, onde a repressão tem sido intensa. Além das prisões, invasões de residência pela polícia, o Rio foi um dos únicos estados que aprovou uma legislação específica contra o uso de máscaras. Cobrir o rosto durante uma manifestação é um direito democrático, seja para se proteger do gás de pimenta, seja para evitar a perseguição da polícia, ou a identificação no local de trabalho, na escola, na família. Cobrir o rosto é parte também da indumentária Black Bloc, mas acabou se generalizando entre muitos quase que por necessidade após junho. A tentativa desta lei carioca é criminalizar a manifestação, enquadrando qualquer pessoa que use máscara como fora da lei.

Contudo, a repressão aos manifestantes não tem sido suficiente para que a opinião pública volte a apoiar as ações dos donos do poder e se coloque contra os protestos. Na verdade, em muitas vezes ela gerou o efeito contrário. Neste caso, a mídia joga um papel crucial, porque após junho a principal batalha tem sido por ganhar a opinião pública.

O papel da grande mídia para reconquistar a opinião pública

O cinismo da grande mídia, articulada com os governos da ordem, não tem limites. A mídia tem trabalhado para gerar medo e perplexidade entre aqueles que apoiam os protestos. Para isso, a mídia corporativa estigmatiza os manifestantes de vândalos, veicula somente as imagens de depredação. Ao redor do caso do Coronel de São Paulo, rapidamente se montou um grande espetáculo, com direito a declaração da presidenta Dilma prestando-lhe “solidariedade”. Porém, no dia seguinte, um jovem foi morto na periferia de São Paulo, e a mídia praticamente escondeu o fato. Quando divulgou, novamente limitou-se a tachar a população revoltada de vândalos.

Não podemos aceitar o discurso hipócrita que coloca a violência do opressor no mesmo patamar que a violência do oprimido. Não podemos nos confundir. Existem inúmeros casos de violência policial contra a população – Amarildo da Rocinha, Paulo Roberto de Manguinhos, Douglas do Jaçanã – e contra manifestantes. Em todos estes casos, os governantes foram omissos, a grande mídia conivente e a polícia a autora do crime.

Por isso, não há dúvidas de quem são os inimigos da juventude. No atual contexto, é fundamental trazermos como centro do debate o enfrentamento contra as medidas repressivas do Estado. Devemos promover ações no sentido de avançar no debate a cerca da desmilitarização da PM, defender a revogação das leis anti-manifestações, prestar solidariedade às famílias cujos jovens foram mortos pela polícia, aumentar a denúncia destes atos bárbaros e realizar campanhas em defesa dos presos e perseguidos políticos. Contra a criminalização dos movimentos sociais devemos ter unidade. O chamado de vários artistas e intelectuais no Rio de Janeiro, na campanha “Grito de Liberdade” é um embrião de ações que podem ter este porte.

Pelo debate respeitoso de nossas diferenças, dentro do campo daqueles que lutam contra a violência do Estado

A burguesia brasileira tem um objetivo claro a cerca das manifestações: impedir que novas aconteçam, especialmente em 2014. Para isso, lança mão de seu aparelho repressivo e da criminalização das manifestações. A mídia aproveita para criar um clima de pânico, tachando os insatisfeitos, aqueles que protestam, como criminosos. Alguma semelhança com o seu discurso contra os comunistas na ditadura não é mera coincidência. Ao alcance das elites brasileiras estão inúmeras ferramentas, o Estado, as forças policiais, o entretenimento. Sua capacidade de mover estes aparatos, e sua falta de escrúpulos, é sua grande arma contra a revolta popular.

O “x” da questão neste momento é a necessidade de impedir que os donos do poder virem novamente o jogo a seu favor. Precisamos defender as condições favoráveis para a luta social acumuladas desde junho. Este é o centro do debate. Para enfrentar um inimigo deste porte, e que está tentando de qualquer jeito reverter o placar desta disputa, é legítimo que discutamos quais os melhores métodos para enfrentar os donos do poder. Funciona assim numa reunião de Centro Acadêmico, numa escola para enfrentar a diretoria, no momento de definir uma tática para um ato ou para uma revolução. E como, no momento, não temos fóruns auto-organizados para isso, e porque não somos organizações clandestinas, fazemos isso de modo público sempre preservando um elemento claro: o inimigo é a classe dominante, seus representantes e instituições. Mas para derrotá-los, necessitamos acertar nossos passos e ter clareza quais são os melhores métodos.

Para nós a tática adotada não pode facilitar a vida dos agentes do poder. Parece-nos que diante do atual nível de consciência do povo, é difícil fazer a distinção entre a violência que parte do opressor e aquela gerada pelo oprimido. Da parte dos poderosos, tenta-se apresentar para a população que a violência policial se justifica devido à violência de uma minoria. E, portanto, ambas se igualam. O que não é verdade, mas nem sempre é fácil justificar isso para a população.

Dito isso, o uso da ação direta por aqueles que pretendem denunciar um ato bárbaro cometido pelas forças do Estado, como no caso dos protestos perante o assassinato de Douglas no Jaçanã, nos parece bastante justificada. Mas determinadas ações, isoladas de contextos como este, parecem favorecer a confusão. Não somos contrários ao uso da ação direta. Mas achamos que esta tática se combina com muitas outras na luta social e deve estar submetida ao acúmulo de forças do movimento como um todo. Por isso, para manter a opinião pública do nosso lado, seguimos defendendo que a melhor tática, neste momento, é massificar nossas ações. Amplificando o apoio popular aos atos e a presença da população em nossas atividades.

De todo modo, apesar da necessidade deste debate, quando a bola está em campo, ou seja, na rua, nosso inimigo é outro. Para seguir discutindo, o ideal seria que pudéssemos criar espaços unitários e de respeito às diferenças para avançar na construção de nossas iniciativas e para fazermos entre nós tais debates (assembleias, fóruns, reuniões). E através disso pudéssemos somar forças nas campanhas em defesas daqueles que lutam e contra a escalada repressiva do Estado. Deixamos este convite. E nos colocamos por esta luta!

Pela a revogação da Lei Cardoso!

Pela liberdade dos presos políticos! Pelo direito à manifestação!

Justiça às famílias de Amarildo, Douglas e Paulo Roberto! Pela desmilitarização da polícia!

*Tássia Lopes (do Juntos RN) e Nathalie Drumond (do Juntos RJ) são do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos

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