A mulata e a hipersexualização: não somos só bunda e peito

22/nov/2013, 10h46

Ariane Machado*

“Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!”
(Mulata Exportação – Elisa Lucinda)

Durante o período colonial no Brasil, a escravidão de negras e negros era a lei. Nas Casas Grandes um hábito muito comum era que a negras mais bonitas fossem colocadas à disposição de sua senhora. O que a história não consegue negar é que o senhor da fazenda também colocava as escravas à sua disposição. Não raro encontra-se registros de filhos bastardos das escravas negras com os senhores brancos. Daí o nome “mulata/o”, a mistura entre o branco e a negra.

Longe de se tratar de uma história de amor, como muita novela insiste em fantasiar, era o exemplo claro de opressão por cor e por gênero. Aquela escrava, além de negra, era mulher. O que por muitas vezes parece estar longe demais da memória não está tão longe assim dos olhos. A sociedade brasileira carregou essa herança de opressão por mais de 100 anos. A tentativa de branquear a negra transformou-a em “moreninha”, “escurinha”, “pretinha” e “mulata”.

Mas não há dúvidas de que não essas palavras carregam mais do que a cor.
A dita “cor do pecado” evidencia que existe mais de racismo e machismo do que se pode imaginar, no que diz respeito às mulheres negras. Impregna de sexo a mulata, transforma-a em objeto de desejo e esvazia de autonomia a mulher por trás da cor. Aquela velha relação entre o patrão que abusava das suas escravas não ficou tão no passado assim.

Nos carnavais a coisa fica ainda mais gritante. Mulatas completamente nuas ocupam a tela da TV e as “avenidas do samba”. O moralismo que domina boa parte das famílias brasileiras deixa passar com naturalidade a objetificação da mulher negra no horário nobre. A novidade das últimas semanas foi o concurso de beleza do Fantástico que vai eleger a nova Globeleza. O “show da vida” demonstra ser na verdade um show de racismo, um show de machismo, um show de desrespeito pela luta cotidiana de mulheres negras pra serem tratadas como gente pela sociedade.

Na periferia, enquanto Amarildos e Douglas são assassinados pela polícia, suas esposas, mães, irmãs, namoradas negras sofrem com o completo descaso do poder público. Sofrem com sub-empregos e sub-salários, ganhando ainda menos que os homens negros. Sofrem com abortos clandestinos, sofrem com a violência doméstica e a sexual, sofrem com o “fiu-fiu”. Se ser mulher é uma batalha, ser negra é ter que estar na linha de frente da luta pelo respeito ao nosso corpo e à nossa cor. Sem arma nem armadura, de peito aberto e cabeça erguida.

*Ariane Machado é do DCE Livre da UFSCAR e militante do Juntos! São Carlos

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