Amarildo, 4 meses sem justiça

14/nov/2013, 08h50

*Daniel Faria

Um morador da Rocinha desaparece depois de uma operação policial na favela. O que seria mais um episódio comum no trágico dia-a-dia das periferias brasileiras se tornou, entretanto, motivo para uma mobilização nacional. O que aconteceu para a busca de um ajudante de pedreiro repercutir tanto, inclusive fora do país? A resposta é simples: Amarildo não sumiu em um momento qualquer. Uma das muitas conquistas que as manifestações de junho trouxeram foi que boa parte da população decidiuque simplesmente não vai aceitar qualquer coisa que o governo faça. Assim, quando Amarildo sumiu, os moradores da Rocinha não se resignaram e continuaram suas vidas. Eles foram para rua.

Começou com gritos isolados. Foram precisos três protestos (dois deles fechando a autoestrada Lagoa-Barra) para ganhar a atenção da grande mídia. A família de Amarildo foi recebida pelo governador Sérgio Cabral depois de 10 dias de seu sumiço (quando os manequins da loja Toulon foram quebrados durante uma manifestação, bastaram poucas horas para o governo Cabral convocar uma reunião de emergência).

A versão oficial, repetida inúmeras vezes, estava cheia de mentiras. Amarildo não foi detido “para verificação” e ficou apenas 5 minutos na sede da UPP. As câmeras de segurança em frente da unidade não estavam quebradas. O carro que levou ele não estava sem GPS.

Um delegado chegou a acusar Elisabete, viúva de Amarildo, de ter ligações com o tráfico. O então comandante da UPP da Rocinha, major Edson dos Santos, foi acusado de subornar testemunhas para atribuir o sumiço de Amarildo a traficantes. E o governo do estado recorreu a uma decisão da Justiça que determinava que uma pensão de 1 salário mínimo para a mulher de Amarildo e seus seis filhos, além de tratamento psicológico para toda a família (cujo valor, destinado ao psicólogo, era muito superior ao da pensão). O governo inclusive tenta recorrer na justiça da obrigação de pagar a irrisória pensão.

Mas os fatos enfim foram revelados, depois de uma minuciosa investigação. O Ministério Público denunciou 25 policiais (entre eles, o ex-comandante da UPP) pela tortura e morte de Amarildo: para saber se o ajudante de pedreiro ajudava o tráfico, os policiais usaram choque elétrico, asfixiarem ele com um saco plástico e afogaram sua cabeça num balde de água.

Só quatro dos PMS que estavam na sede no momento não teriam colaborado. Eles tentaram impedir a tortura, e um deles foi alvo de piadas. “Deixa de ser frouxo, você é polícia!”, teriam dito para ele.
“Você é polícia”. O que significa ser um policial militar no Brasil? Um dos lemas da polícia é “servir e proteger”. A quem? Como?

Amarildo foi morto há quatro meses, no dia 14 de julho. Ele é um símbolo das arbitrariedades constantemente cometidas pela polícia, principalmente nas periferias, mas também nas manifestações no asfalto; pela desmilitarização da polícia; dos 92 mil desaparecidos no estado do Rio desde 1991; de uma discussão sobre que tipo de UPP os moradores das favelas querem; do racismo que ainda existe muito forte; pelo fim da guerra às drogas; da luta contra o autoritarismo do governador Sérgio Cabral.

Amarildo também é um símbolo dos 10 mortos da Maré; de Paulo Roberto, cuja família diz ter sido assassinado pela polícia em Manguinhos; de Douglas Rodrigues, do Jaçanã, a quem a polícia admite ter matado, apesar de alegar “acidente”.

Mas Amarildo também era uma pessoa. Deixou uma mulher e seis filhos, que vivem numa casa minúscula. Deixou seus amigos na favela, que o chamavam de “Boi” pela sua força física, usada para ajudar os moradores. A punição dos responsáveis pela sua morte e a recuperação de seu corpo é o mínimo que o governo deve fazer por essas pessoas.

Muita coisa foi dita sobre esse caso, mas uma frase me parece ser a que melhor sintetiza o mais importante: sabemos que Amarildo não foi o primeiro, mas exigimos que seja o último.

 

*Daniel Faria é estudante de Comunicação Social da UFRJ e militante do Juntos-RJ.

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