Revenge Porn

19/nov/2013, 17h03

Beatriz Larentis*

Em pleno século XXI, a caça as bruxas ainda se mostra presente e agora equipada até os dentes com aparatos que abocanham todos os recursos tecnológicos de comunicação disponíveis. Entretanto, a fogueira agora se faz virtual e os grandes inquisidores são, na maioria esmagadora das vezes, pessoas outrora de confiança ou próximas a vitima. “Pornografia de Revanche” é o atual termo utilizado para uma das novas formas de expropriação do corpo e fiscalização da sexualidade da mulher.

Casos de Pornografia de Revanche acontecem simultaneamente em todo o mundo e alguns pipocam na grande mídia, como a Fran (19 anos, Goiana) e mais recentemente da Thamiris (21 anos, estudante de letras da USP) que tiveram sua sexualidade e intimidade expostas “na terra de ninguém” pelos respectivos ex-namorados. Atualmente elas lutam para amenizar as incontáveis conseqüências que tal atrocidade gerou em suas vidas – Thamiris chegando a sofrer inclusive, ameaças e perseguição do agressor. Muito embora o fato de perder o emprego, abdicar dos estudos e de uma vida social – além de ser amplamente rechaçada pela sociedade de molde patriarcal em que vivemos – já seja suficientemente aterrorizante, o “Revenge Porn” conseguiu ir mais além: fazendo do suicídio uma opção/realidade para algumas vítimas, como Julia (jovem de 17 anos que foi encontrada morta em seu quarto no ultimo dia 10, no Piauí) e Amanda Todd (adolescente canadense de 15 anos que atirou em si mesma no ano passado).

A culpabilização da vitima por parte da sociedade, assim como na cultura do estupro, caminha lado a lado com o agressor repetindo incessantemente discursos opressivos como “se filmou/fotografou, sabia que poderia cair na internet”, “se ela se sujeitou a isso, deve arcar com as conseqüências”, além de outros tantos falso-moralistas subjetivamente rotulando o ato sexual como libertino e imoral- todos eles acompanhados dos famosos e desgastados “putas” e “vadias”. Diante tudo isso, alguns questionamentos básicos são indispensáveis: Por que isso esta acontecendo? O que fundamenta a idéia absurda de que a VITIMA é culpada pelo crime que sofreu? Por que apenas com mulheres? E por ultimo, mas não menos importante, por que AGORA?

As respostas para as perguntas supracitadas não são nada explicitas e “faladas e voz alta” parecem até absurdas, mas isso não é coincidência: milhares de pessoas trabalharam arduamente por milhares de anos para que a submissão da mulher em relação ao homem pareça até hoje – para grande parte da sociedade – uma verdade absoluta, lei natural que rege a relação de gêneros, tão intrínseca que chega a ser imperceptível para a maioria. Tanto foi o zelo e insistência nesta pratica de opressão, que de fato são poucos os que enxergam que ainda somos “regidos” por costumes medievais.

A pudorização do corpo e opressão da sexualidade feminina foi fundamentada e impulsionada por valores morais e religiosos datados principalmente dos séculos XVI e XVII. A Igreja Católica associava a mulher e seu corpo ao mal que assolava os homens; o “Pecado Original” cometido por Eva na Bíblia – transformado em pecado sexual – foi usado como justificativa para a submissão da mulher, levando em conta que a mesma deveria ser eternamente arrependida pela heresia de sua ancestral, dobrando-se ao homem como forma de se remediar; paralelo ao pecado original, a mulher carregava a responsabilidade de não transformar o ato sexual em um momento de prazer, onde a vagina não tinha outra função senão reprodutora. Sentir prazer era pecado e segundo a Igreja, a mulher já tinha um pé no inferno.

Qualquer semelhança com a recriminação da libido feminina que Frans, Thamiris, Amandas e Julias vêm sofrendo diante exposição de sua sexualidade (NÃO) é mera coincidência. Resumo dessa ópera: a mulher do século XXI ainda é submetida ao “dever” de portar-se segundo ideais morais de mais de quatro séculos atrás.

Tão logo a liberdade sexual da mulher contemporânea começou a florescer, as perseguições e opressões despontaram: os braços do patriarcado varrem todas as esferas em que a mulher esta inserida – e estando o mundo virtual quase que diretamente ligado a vida social, acadêmica e profissional das mesmas, a internet tornou-se uma ferramenta muito eficiente para o alcance de toda a extensão da vida da mulher, resultando na manutenção da hegemonia desse sistema. E não é necessário muito esforço: basta um upload na internet que os opressores cúmplices do agressor, conscientes ou não da cumplicidade aqui exercida, se encarregam do resto – compartilhar o material e rechaçar a vitima colocando-a como culpada.

Ainda é preciso dizer que esta faltando discernimento, humanidade e ética? Fazer sexo e assumir sua sexualidade, registrar sua intimidade – como forma de atender a fantasias ou não –, e compartilhar SUA PROPRIA imagem com alguém (equivocadamente julgado de confiança) tornou-se “crime”, e o agressor deixou de ser questionado e por vezes vem sendo defendido. O machismo e o patriarcado conseguiram mais uma vez inverter valores de uma forma violenta.

Contudo, um número notável de vitimas da Pornografia de Revanche vem combatendo corajosamente a essa atrocidade expondo a outra face de sua intimidade: eu sou mulher, eu faço sexo, o corpo e as imagens do mesmo me pertencem, E A CULPA NÃO É MINHA! Outra coisa permanece também cada vez mais evidente no movimento de mulheres que vem crescendo e apoiando as vitimas: o patriarcado e o machismo NÃO NOS CALARÃO! A luta das mulheres cresce a cada dia e seguirá crescendo. Somos Frans, Thamiris, Julias e Amandas. E JUNTAS SOMOS FORTES!

* Beatriz Larentis é do Juntas Indaiatuba