A melhor homenagem é não deixar de lutar!

27/jan/2014, 17h04

*Tiago Aires

No dia 27 de janeiro de 2013 centenas de jovens saíram para se divertir, para curtir mais uma noite de festa, mais uma balada na companhia de amigos e colegas de faculdade. Nesse dia 242 jovens foram mortos e mais de 600 tiveram suas vidas e corpos marcados pelo fogo e pela fumaça tóxica. Centenas de Famílias amputadas prematuramente, uma cidade em frangalhos, um estado e um país em luto.

Em março de 2013 o inquérito da polícia civil apontou os responsáveis, proprietários da boate, músicos, bombeiros e Prefeitura Municipal, cada um com sua cota de responsabilidade nos fatos que culminaram no incêndio daquela madrugada de horror. Na cota da prefeitura, funcionários públicos, secretários de município e o próprio prefeito municipal, por improbidade administrativa, o que não se repetiu quando da denúncia do Ministério Público Estadual, que vergonhosamente tentou isentar a prefeitura. Livrava o prefeito e ao mesmo tempo tentava resguardar a imagem do MP, que havia firmado um TAC com os donos da boate, permitindo o seu funcionamento, mesmo que de forma irregular. Um Ministério público corporativista deixava aquele cheiro de impunidade e acordo espúrio no ar.

Logo após a tragédia, o Prefeito Municipal negou-se a falar, não agiu naquele grave momento de crise, negou-se a instaurar uma sindicância, omitiu documentos públicos da polícia civil, mobilizou sua base na Câmara de Vereadores para impedir que uma CPI da oposição fosse instaurada, criou sua própria Comissão Parlamentar de Inquérito e acusou de fazer uso político da tragédia qualquer voz que lhe apontasse responsabilidades e exigisse punição.

As principais causas dessa tragédia, da tragédia da boate Kiss, como ficou conhecida mundialmente, foram a ganância, a irresponsabilidade, a omissão e a corrupção. Proprietários que superlotavam a casa noturna, que retiravam extintores dos lugares adequados por uma questão de estética, músicos fazendo show pirotécnico sem avaliar o número de presentes, o local e o potencial ofensivo do artefato, bombeiros sócios de empresa privada, prestando serviços e oferecendo facilidades em função do cargo, e a falta de fiscalização da prefeitura municipal que permitiu que um estabelecimento, que nunca esteve um único dia sequer com a documentação regular continuasse funcionando.

Esses são apenas alguns elementos a demonstrar que essa tragédia não foi obra da natureza e não pode ser tratada como algo natural. O dia de hoje, 27 de janeiro de 2014, marca um ano da tragédia, um ano incomum para uma cidade viva, uma cidade universitária, onde a juventude e a luta por um futuro melhor eram festejadas em cada festa de turma de faculdade, em cada baile de formatura. Um ano marcado pelo sentimento de perda, sentimento de impotência diante da impunidade dos poderosos, mas também um ano marcado por muitas lutas.

Em junho de 2013 Santa Maria saiu às ruas junto com o resto do Brasil, mais de 30 mil pessoas protestaram por mais investimentos em saúde, educação de qualidade, tarifa zero no transporte coletivo, dentre as mais variadas reivindicações, a cidade pediu por justiça. Mães e parentes de vítimas protestando por um mundo melhor, no meio da multidão um cartaz com a frase: “a melhor homenagem é não deixar de lutar”. Temos o dever de lutarmos por justiça, que daqui para frente cada dia de nossas vidas tenha um pouco de junho de 2013, para que aquele janeiro sombrio não volte nunca mais a acontecer.

*Tiago Aires é militante do Juntos Santa Maria e estudante da Unifra

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