Luiza e Mainardi: 2 lições que não passam na GloboNews ou: O inimigo do meu inimigo

22/jan/2014, 22h17

*Christian Sousa

A rusga entre “o pessimista” e “a otimista” é mais do que faíscas e ironias: é o sapo falando da rã. Diogo Mainardi pela primeira vez é exposto ao ridículo, ou seja, pela primeira vez que a blindagem ao seu ridículo falhou. Relinchou no twitter mais tarde e o assunto ainda rende — mas as lições que podemos tirar desse circo são mais do que risos e magazines

Ganhou fama um embate do início da semana, no GloboNews: de um lado Luiza Trajano, empresária, admitidamente fã de Dilma, dona do Magazine Luiza e considerada um dos maiores sucessos do comércio brasileiro; do outro lado vem Diogo Mainardi, comentarista do GloboNews conhecido pelo discurso extravagantemente reacionário. Mainardi acredita que o poder de consumo do brasileiro diminuirá e que já está dando sinais claros disso; Luiza, por outro lado, argumenta que nunca tinha visto perspectiva mais promissora para as vendas — ambos estão certos de suas posições.

Luiza, que tem prioridade no assunto do varejo, desconstrói Mainardi com estilo. Um show à parte foi a liberdade linguística que mostrou uma Luiza popular, adentrando os lares mais apegados à norma culta da língua e mais fiéis ao GloboNews.

Digamos que é verdade, a Luiza está certa: o comércio vai muito bem e os dados levantados pelas câmaras de comércio não podem estar errados. Mas… e então? Parabéns para ela, que está batendo seus lucros.

A primeira lição que apareceu está aí: amplos setores da burguesia estão desfrutando o mesmo que ela. Os bancos, citados na conversa, e as empreiteiras (através do Minha Casa Minha Vida, também citado, e dos megaprojetos de estádios e usinas) estão se refestelando numa política econômica que nada tem a ver com política pública. A lição de casa de sociologia nos mostra o quanto somos tratados como consumidores, e apenas isso. O endividamento da família brasileira, que trabalha barato para poder consumir, é o custo desse banquete do empresariado. E daí que ainda falta 90% dos lares terem TV tela-plana, como disse Luiza? Isso é bom para as vendas, que esperam esses 90% irem correndo para as lojas. Mas é uma pena que o brasileiro seja um dos maiores consumidores de mídia de TV do mundo, mídia essa concentrada entre poucos coronéis.

A segunda lição é a lição da inveja. A posição da GloboNews é a posição de Mainardi e de Veja, e de todos esses caras que a gente conhece: grandes lucros, iniciativa privada feliz. Pertencente ao mesmo grupo de faz pesado silêncio sobre Trensalão do PSDB em São Paulo e outros escândalos tucanos, a mídia tradicional se morde com o PT. Os empresários estão muito satisfeitos e muito felizes com o governo atual; a estrela vermelha fez um trabalho melhor que o tucano azul.

O interessante aqui é que o embate – que não foi bem um debate – ocorreu entre dois desenhos da mesma face da moeda. Trombaram-se um puxa-saco da burguesia estrangeira com uma burguesa nacional.

A questão toda pouco se trata do reducionismo da Globo, que divide o tema entre “quem vê a parte cheia ou a parte vazia do copo”; a questão trata-se mais do que é que estão pondo dentro do nosso copo, e quem o está fazendo.

Confira o que foi ao ar no GloboNews http://www.youtube.com/watch?v=oA2r3-VDhAw

*Christian Sousa é militante do Juntos Campinas

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