Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor!

18/fev/2014, 18h39

*Ayla Viçosa

Na última sexta-feira (14/02), em um salão de beleza localizado na 115 Sul (quadra localizada no Plano Piloto), mais um caso de racismo aconteceu no Distrito Federal. Uma australiana chega ao estabelecimento para fazer suas unhas, e quando uma das funcionários vai atendê-la, ela solicita que outra pessoa o faça, por não achar apropriado ser atendida por alguém de pele escura. Segundo os relatos das funcionárias, clientes e da dona do Salão, a situação, conforme o tempo passava, só se agravava. A cliente australiana chegou ao ponto de solicitar que uma das funcionárias negras presentes no ambiente se retirasse pois a presença dela estava incomodando-a. A australiana, que já mora há 5 anos no Brasil, se dirigiu a outra funcionária negra como de “raça ruim”. O caso foi levado a delegacia, a cliente foi detida, mas em menos de 24 horas, ela conseguiu um habeas corpus, e vai responder pelo crime de racismo em liberdade.

 

tinga- sem cópiaNa quinta da mesma semana (12/02), o Brasil se chocou com o caso de racismo sofrido por Tinga – jogador do Cruzeiro Sport Clube – em um jogo da Libertadores no Peru, onde a torcida do time adversário – Real Garcilaso – a cada vez que o jogador tocava na bola, fazia sons imitando macacos.

Os dois fatos nos comprovam a necessidade de uma política efetiva de combate ao racismo tanto no mundo, como no Brasil. No Distrito Federal, desde que fora fundada a SEPIR (Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial), o  programa Disque-Racismo coordenado pela secretaria registra, em média, cerca de 11 ocorrências mensais de racismo no DF.

As medidas de inclusão e de combates as opressões, como Cotas e Disque Racismo mostram-se muitos necessárias dentro de nossa realidade, mas também precisam de complementos.

Nós do Juntos! defendemos um programa de políticas públicas que necessariamente paute de forma aprofundada como combater o racismo dentro de nossa sociedade. Isso perpassa por um programa curricular escolar que não invisibilize para os jovens a história de resistência do povo negro até políticas de incentivo para negros de ocupação de espaços da esfera pública, como as cotas raciais nas universidades. Acreditamos também na necessidade da desconstrução constante de valores racistas naturalizados em nossa sociedade.  Também acreditamos que a mídia em sua programação deve colocar personagens negras/os em papéis não subalternos aos brancos, incentivando a quebra da hierarquia racial vigente.

Disqueracismo-PalmaresCombater o racismo de fato pede, antes de tudo, que não se negue a existência do mesmo. Incontáveis são as pessoas (normalmente brancas) que dizem que parando de se falar de racismo, ele deixaria de existir. É preciso romper com o mito de existência de uma suposta democracia racial no Brasil, pois tanto os episódios citados acima, como também os próprios “rolezinhos” e o episódio do Rio de Janeiro, onde jovens de classe média, depois de espancar um jovem negro e acorrentá-lo nu a um poste, nos mostram o ódio racial ainda existente no Brasil.

Por fim, por meio desta nota, declaramos nosso total apoio aos movimentos e articulações de combate ao racismo, nos dispondo a sempre estarmos na luta por uma sociedade menos opressora e livre de opressões. Precisamos de um maior suporte para as vítimas de racismo que denunciam seus agressores, de políticas de incentivo a ocupação de espaços públicos e de uma reformulação curricular sobre a história dos negros no nosso país para ser ensinada em nossas escolas.

Não podemos ficar imunes a qualquer prática racista. Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor!

*Ayla é estudante de Ciências Sociais da Universidade de Brasília.