Em dia de jogo: futebol um campo de preconceitos

16/fev/2014, 10h58

Que o futebol é um dos esportes mais populares e praticados por centenas de países isso todos sabem, o que é deixado no banco de reserva desse jogo é o preconceito inerente ao mundo futebolístico, tanto dentro quanto fora de campo.

Recentemente, o jogador do Cruzeiro – Tinga – sentiu na pele o racismo da torcida do Real Garcilaso, o jogador Raí foi alvo de críticas quanto ao seu possível envolvimento com o apresentador Zeca Camargo, sem falar do jogador Richarlyson motivo de muitas piadas homofóbicas e como não citar o beijo escândalo do jogador Emerson Sheik. E nesse universo tradicionalmente masculino, em que não há espaço para o homossexual e nem para o negro, há espaço para as mulheres?
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Quem nunca ouviu; “ela joga tão bem que até parece homem?” ou “ela joga como um homem”? Infelizmente, o futebol é mais um campo em que o machismo ganha de goleada, ainda que tenha aumentado, nas últimas décadas, a inserção da mulher nesse mercado de trabalho, seja como atleta, árbitra, “bandeirinha”, comentadora do desporto, etc.

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Quinta (13/02/2014) após o jogo Remo versus Paragominas pela Copa Verde, dois comentaristas esportivos se “alfinetaram” pelo Twitter, @abnerluiz33 e @syanneneno. Lamentavelmente, o comentarista Abner Luiz protagonizou discursos machistas ao insinuar que Syanne teria sido “comida pelos dois lados” e que com ele era daquele jeito “bateu levou” e que não havia mexido com “vagabunda alguma”, afinal “vagabas existem tantas”. Mas, no meio machista do futebol isso não é novidade alguma!

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O futebol revela com mais consistência o machismo nosso de cada dia praticado por homens reproduzido por mulheres, pois lamentavelmente ainda há mulheres que acreditam que o machismo seja uma invenção de mulheres “recalcadas”.

Essa opressão à mulher veio se aprofundar com o sistema capitalista e com a exploração da força de trabalho não havendo espaço para nós no mundo do trabalho, ficando à sombra do homem. De acordo com as ideias dominantes de cada época, as diferenças entre os sexos foram sendo impostas á sociedade. Até o século XVIII, o modelo era a existência de um único sexo: o masculino. A diferença anatômica entre homens e mulheres era que estas possuíam os órgãos genitais no interior do corpo e aqueles possuíam os órgãos visíveis. Posteriormente ao século XVIII, o modelo binário entra em cena diferenciando homens e mulheres em relação à anatomia e à fisiologia Mas ainda assim, o ser mulher era e, ainda é, adotado tomando com base o padrão do ser homem. Se homem e mulher ocupam o mesmo cargo e a mulher se destacar, é possível que se escutem frases como “tão bem quanto um homem”, “ela deve ter dormido com o chefe para conseguir isso”, etc. O que se percebe é que o ser e o fazer da mulher são desconsiderados, ainda pairam dúvidas sobre o nosso potencial de realizar algo de forma eficiente sem parâmetro ou demérito.

As estatísticas nos mostram que a mulher na sociedade capitalista além de ganhar menos do que os homens apesar de ocupar o mesmo cargo, são submetidas a uma dupla e até tripla jornada de trabalho, condição essa que é agravada com o neoliberalismo, a globalização da economia e a reestruturação produtiva.

Ser mulher no mundo capitalista é provar todos os dias que somos capazes de realizar algo de forma competente, não melhor que o homem, mas que podemos que realizar com méritos próprios. Não precisamos usar nosso corpo para isso, e sim nossa capacidade e força de trabalho. Chamar-nos de “vagaba” ou “vagabunda” quando não conseguem nos atingir de outro modo, além de ser machismo, só demonstra a sua falta de argumentos em torno do que fizemos. E se nós quisermos ser vagabundas, vadias, putas, seremos porque escolhemos ser, assim como podemos escolher casar, ter filhos, levar uma vida no modelo monogâmico, casar ter filhos e ainda ser vadias, como podemos também escolher jogar bola, narrar futebol, desconstruir o machismo e toda forma de preconceito desse sistema tradicionalmente machista que é o capitalismo e desse esporte que é o futebol.

O “fair play” não deve ser apenas um slogan adotado pela FIFA para marketing usado dentro de campo. Jogar limpo é dar cartão vermelho para toda e qualquer forma de preconceito que só gera intolerância e violência. O futebol deve ser um esporte onde as diferenças e as escolhas individuais sejam respeitadas servindo de exemplo para suas torcidas e para sociedade em geral.

“Os dois lados” a que se refere o Abner Luiz são os dois maiores clubes do Pará, Remo e Paysandu. E as vésperas de mais um clássico da Amazônia, o glorioso RExPA, o momento é de colocar o nosso time contra qualquer forma de opressão. Jogando ao lado do Tinga e de todos outros contra o racismo. Jogando ao lado das mulheres que tem o direito de ocupar todos os espaços, inclusive o do futebol.

 

#Somos todxs vagabas!

#Tire o seu machismo de campo Abner e vá narrar em outra freguesia!

#Seus comentários não me representam!

*Flavia Câmara , psicologa e militante do juntos

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