Em meio aos “confrontos”, perguntar: quem atirou em Fabrício?

09/fev/2014, 11h21

*Por Juntos Nacional

Após as manifestações de junho, uma ladainha se tornou padrão entre a mídia brasileira: “A manifestação começou pacífica. Mas, ao final, um grupo de vândalos entrou em confronto com a Polícia”.

Assim a mídia busca manipular a opinião pública. Na aparência, dizem respeitar as “manifestações pacíficas”. Na essência, entretanto, legitimam a prática da repressão policial. Apresentam de forma “natural”, como um dado da realidade, as centenas de prisões arbitrárias feitas pela PM no Brasil, suas agressões terríveis e inclusive sua atuação ilegal, como quando policiais usam armas de fogo em manifestações ou escondem a identificação de suas fardas em operações repressivas.

Nos últimos dias, ganhou destaque o caso do cinegrafista da TV Bandeirantes, ferido na manifestação do Rio de Janeiro da última quinta. Somente o Jornal Nacional dedicou mais de 10 minutos de seu programa, que tem ½ hora de duração, para falar do caso. Todas as “provas” foram dadas para mostrar que o explosivo que atingiu o cinegrafista havia partido de um manifestante. E todo tempo do mundo foi aberto a declarações de repúdio ao caso, com direito a pronunciamento de Presidente do Senado, da República, Secretário de Segurança do Rio, sindicatos, associações, imprensa internacional e, é claro, da própria Rede Globo. O caso era chamado tão-somente de “violência no Rio de Janeiro” (sem que ninguém se lembrasse do aumento da tarifa).

Mas por que tanto destaque? Sem dúvida, o ferimento ao trabalhador da Band foi grave. Ele segue hospitalizado e em estado grave. Nós, do Juntos, nos solidarizamos incondicionalmente a Santiago Idílio Andrade. Mas qual será a real intenção da mídia?

Cerca de 15 dias atrás, o jovem Fabrício Chaves foi baleado com ARMAS DE FOGO pela Polícia Militar em manifestação em São Paulo. Nem metade da repercussão atual foi conferida ao caso! Nos primeiros dias, a imprensa buscou repercutir o episódio de modo “imparcial” (conhecemos bem a “imparcialidade” da mídia…): falava de “suspeitas”, ponderava “excessos da Polícia e de manifestantes”, mas não emitia o julgamento claro do caso: a atrocidade criminosa cometida pela PM, que quase custou a vida de um jovem trabalhador de 22 anos. Hoje, já se esqueceram completamente de Fabrício.

O que vemos nas ruas do Brasil é que a PM, que supostamente deveria proteger cidadãos, atua ela própria por fora da lei. Quem de nós não tem na cabeça alguma imagem ou vídeo na internet provando isso? No ano passado, um policial empunhava uma marreta e depredava escondido o próprio carro da PM para que depois pudesse responsabilizar “vândalos”. Do RJ, vazou uma foto flagrando um policial com fogos de artifício (justamente o artefato que atingiu o cinegrafista da Band, mas que, na mídia, todos garantem não ser de porte da Polícia). Nas várias manifestações, a Polícia trabalha sempre com infiltrados, os P2, numa prática digna de ditaduras. E tudo isso sem falar no absurdo que já é a repressão policial em si, com as balas de borracha (que também matam), bombas, cassetetes e prisões para “averiguação”.

A polícia brasileira é uma verdadeira máquina de produzir vítimas. Nas periferias, é assim há muito tempo e jovens negros são mortos todos os dias, como foi Douglas. Nas ruas, eles aumentam cada vez mais a patrulha às manifestações, provocam manifestantes, tencionam passeatas e forjam os pretextos para, ao final, fazer o que desde o início já planejavam: reprimir. E é isso de fato o que mais querem os governos neste ano de Copa do Mundo, seja no Rio, em São Paulo ou em qualquer lugar do país. Por fim, compondo um trio (PM, governos e mídia), a mídia narra a história e legitima as ações, mentindo descaradamente e igualando qualquer eventual violência de manifestantes à violência sistemática do Estado brasileiro.

Fabrício Proteus Nunes Fonseca Mendonça Chaves segue hospitalizado em São Paulo. Nós, do Juntos, acreditamos que sua coragem é contagiosa. Assim como torcemos pela recuperação do cinegrafista Santiago, queremos ver Fabrício totalmente recuperado e de volta às ruas. Fazer justiça com seu caso é punir os vândalos da PM que o balearam e também acabar com a própria PM como instituição. É preciso desmilitarizá-la.

Diante dos “confrontos” que cada vez mais vemos nas ruas e diante da manipulação da mídia, queremos fazer ecoar no Brasil a pergunta: quem atirou em Fabrício?