Globo: a gente não se vê por aqui!

13/fev/2014, 21h30

*Thiago Oliveira

Globo e Times Life

O inicio do império da família Marinho na comunicação brasileira pode ser explicado por dois casos: O acordo com a emissora americana Times Life e a compra da TV Paulistana. Em 1962, a lei impedia que qualquer pessoa ou empresa estrangeira tivesse participação em empresas de comunicação nacional. Mesmo assim, a Rede Globo travou um acordo com a rede norte-americana Times Life onde receberia a bagatela de 6 milhões de cruzeiros para investimentos em equipamentos. Em troca, a emissora carioca daria 30% de seus lucros para os americanos. Para efeito comparativo, a TV Tupi, maior emissora brasileira da época, vivia com 300 mil cruzeiros anuais. Para que o acordo pudesse ter continuidade à família Marinho alegou que a empresa estrangeira não teria direito de participar ou interferir nos aspectos diretivos da emissora. Coisa que nunca aconteceu já que Joseph Wallach, ex diretor do braço californiano da companhia, se tornou diretor executivo das Organizações Globo. Esse acordo trouxe repercussão maior nos anos subseqüentes. Isso porque ele é visto como envolvido na ação efetiva dos Estados Unidos na implementação da ditadura militar no Brasil.

TV Paulistana

A aquisição de uma emissora colocou a família Marinho de forma rápida como a maior televisão do Brasil. Em 1965, a emissora adquiriu a TV Paulistana, em um contrato até hoje muito mal explicado. Não faltam provas sobre falsificação de documentos e outras ilegalidades que fizeram com que os cariocas adquirissem a emissora pelo valor equivalente a US$ 35,00. Os descendentes e acionistas da emissora movem até hoje uma ação que tramita no STF contra a família Marinho. Não precisa ser dito que o caso continua em banho Maria apesar de todas as provas e evidências apontadas.

Globo e a ditadura militar

Depois da consolidação meteórica como a maior emissora de TV brasileira, os Marinho trataram a ditadura como um brinquedo usado de forma estratégica e minuciosa para aumentar o seu poder. Isso pode ser visto de forma clara nas concessões regionais deliberadas para a emissora. Foi nesse período que a TV Globo disparou seus direitos de programação regional para empresários e políticos de todo o Brasil. Os casos mais escancarados, que estão ai até hoje, são as famílias Sarney e Magalhães que começaram seus imperioso nos estados do Maranhão e Bahia muito devido aos diretos de transmissão televisiva. Todo o glamour das telenovelas e filmes americanos exclusivos teve uma pequenina mancha em 1967. A TV Globo não noticiou nem por meio de nota nada contra o AI-5. A emissora recebeu criticas de jornalistas mundo a fora que, obviamente, não foram repercutidas por aqui. O segundo passo para o elo Globo e militares foi a copa de 1970. Apesar do belo time estava claro que aquele mundial, para o governo, era uma forma de alienar a população fazendo com que o povo esquecesse tudo de podre que acontecia no país. A TV Globo tratou de estrear, naquele ano, para a copa do mundo, o padrão globo de qualidade. Colocando musicas, contratando artistas e fazendo a maior cobertura de uma emissora latino americana em um evento global. Tudo seguiu lindo, maravilhoso e sem queixas até a década de 80, quando, pela primeira vez, o gigante acordou.

Diretas Já e o caso Collor

Em 1984 o país se encontrava em uma panela de pressão. As diretas já passavam pelas ruas tupiniquins demonstrando que o povo queria um país democrático com eleições diretas. Apesar disso, os globais deram as costas para os atos fazendo uma cobertura ínfima. Tanto é verdade que em 2013, o Jornal Nacional teve um editorial reconhecendo os erros cometidos durante a ditadura e no governo subseqüente. No final dos anos 1980, às vésperas da primeira eleição, o país se polarizava entre o projeto de esquerda, então representado por Lula, e a postura elitista e corrupta de Fernando Collor de Mello. Com medo do que poderia acontecer nas urnas, a família Marinho não teve duvidas e usou todas as armas possíveis para favorecer o alagoano. Tal postura fica evidente em dois casos. No primeiro, a emissora editou de forma bizarra o ultimo debate político entre os dois candidatos a presidência colocando Collor como a melhor escolha. No segundo, durante a campanha, a emissora colaborou na edição e produção de vídeos de seu candidato enquanto tentava de todas as formas destruir a campanha do PT em seus telejornais.

Santiago, Freixo e o AI-5 padrão FIFA

Hoje, a Rede Globo possui, junto com suas 35 afiliadas, 340 veículos de comunicação no Brasil. Com isso, a emissora é a rede de comunicação no mundo que mais influência uma nação. 80% de tudo que é visto, lido e ouvido no nosso país tem um dedo desse conglomerado. É, por isso, um enorme potencial manipulador em nossa sociedade. Nos últimos dias, vimos mais uma artimanha de manipulação midiática com o povo brasileiro. O caso Santiago, sem dúvidas, deve avaliado e noticiado sim. Entretanto, a maneira como a Globo vem fazendo isso é, no mínimo, suspeita, além de antiética, por se aproveitar da morte de um trabalhador para seus próprios interesses. Uma das iniciativas mais claras nesse sentido tem sido a tentativa de vincular Marcelo Freixo com o caso, sem nenhuma prova e de maneira totalmente manipuladora. Freixo é um político e, sobretudo, um ativista que luta pelos direitos humanos e que tem sua história irretocável — bem diferente da Globo, aliás. É suja também a busca em dizer que partidos como o PSOL e PSTU vem “subornando” jovens para participar de atos públicos. Um absurdo, posto que nós, os jovens, vamos às ruas por nossos ideais, e não por suborno! Essas práticas sujas e corruptas, ao contrário da Globo, não fazem parte de nosso dia a dia. Para completar a monstruosidade, temos o incentivo a lei contra o terrorismo. Isso será nada mais, nada menos, do que um AI-5 padrão FIFA em que se legalizará a prisão e repressão de manifestantes legítimos e democráticos, tratando o povo como cachorros domados, para que não exerçam seu direito de manifestar. Por conta disso tudo, é preciso sempre dizer: Globo, a gente não se vê por aqui!

*Thiago Oliveira é militante do Juntos! Campinas