O ato em defesa de Freixo e o recuo da Rede Globo

18/fev/2014, 12h06

*Maíra Tavares Mendes

Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Beto Guedes, “Sol de Primavera”

Desde a morte do cinegrafista Santiago Andrade, uma das principais figuras da esquerda carioca – Marcelo Freixo – foi sistematicamente atacado sob a justificativa da “divulgação de informação”. A vanguarda dessa criminosa linha editorial partiu da Rede Globo, com quem as ligações a setores antidemocráticos saltam aos olhos na história do Brasil.

Indignados com a tentativa de linchamento político, diversos setores da sociedade civil organizaram no dia 17 de fevereiro um ato de desagravo a Marcelo Freixo e em defesa da democracia. O ato, chamado pelos antropólogos Luiz Eduardo Soares e Julita Lemgruber, reuniu quase 300 pessoas no IFCS-UFRJ, ainda que com tempo recorde de divulgação. Chamou atenção pelo fato de ser suprapartidário, pela presença de artistas como Caetano Veloso, Gregório Duvivier, Ivan Lins, Jorge Mautner, Thayla Ayalla, e por representantes de organizações em defesa dos direitos humanos.

A tônica das falas foi o de profundo rechaço à cobertura jornalística dispensada a um factoide – a suposta “ligação com Freixo” dos rapazes que soltaram o fatídico rojão responsável pela morte de Santiago Andrade. O peso político representado pelo ato foi tal, que no dia em que o Globo publicou um editorial de página dupla em que procura explicar o inexplicável (a sua mais do que enviesada insistência na responsabilização de Freixo), a emissora foi obrigada a cobrir o ato de desagravo com diversas personalidades presentes. Mais do que isso – a reação da esquerda carioca foi tal, que o Jornal Nacional encerrou a matéria com um novo editorial, em que passou dos ataques abertos a uma posição defensiva.

O recuo da Rede Globo representa uma resposta à ampla rede de solidariedade dispensada a uma figura que tem história irretocável na política do Rio de Janeiro. Alguém que ousou denunciar esquemas amplamente comprovados em diversos processos, chegando a levar criminosos como os milicanos Natalino e Jerominho para a prisão. Na história recente, denunciou também os esquemas com evidências que saltam aos olhos da relação entre empreiteiras e o governo do estado, ou propor ação que congela a tarifa de ônibus até que ocorra transparência das planilhas utilizadas para calcular esse aumento. A Globo, ao atacar Freixo, ataca aqueles e aquelas que saíram às ruas, apostando que o medo que ela procura infundir é suficiente para sua imobilidade.

A chuva de manifestações irreverentes na internet, de mensagens enviadas à emissora, a realização de um belíssimo ato contra o aumento da passagem sem qualquer incidente na semana passada, os questionamentos de Caetano Veloso e Gregório Duvivier (só para citar alguns ilustres), colocaram um freio à linha anterior manifesta pela Globo, cujos editoriais de segunda-feira equivalem em importância histórica ao direito de resposta de Brizola em 1994 ou mesmo o recuo de Arnaldo Jabor quanto às manifestações de junho de 2013. Representam uma assunção, mesmo que não declarada, de que a Globo errou e errou feio. Talvez antes de junho fossem erros que passassem em branco. Mas tudo mudou depois de junho, e conseguimos impor uma derrota histórica a esse Golias da comunicação no Brasil.

O ato de segunda reviveu o clima de primavera semeado em 2012, e colhido nas manifestações de junho. É provável que os ataques sigam, dada a rede de interesses escusos dos quais a Globo é sócia. Mas há que se comemorar as vitórias parciais nessa luta que segue, até que os meios de comunicação e a sociedade sejam de fato democráticos.

*Maíra Tavares Mendes é professora, coordenadora da Rede Emancipa e estudante da UERJ.

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