Sobre a reportagem homotransfóbica da Folha

14/fev/2014, 15h13

* Por Felipe Oliva

O jornal “Folha de S. Paulo” fez um artigo sobre a violência homofóbica na região central de São Paulo por ocasião da agressão de Juliano Polidoro, na qual destacou “estratégias de segurança” de frequentadores da rua Frei Caneca, famosa pela presença gay. Dentre as “medidas de segurança”, estavam “evitar lugares abertos”, “não dar ‘pinta’” e “evitar andar de mãos dadas e beijar em locais públicos”.

Muitas pessoas se revoltaram contra a reportagem, julgando-a homotransfóbica. Não por acaso o meme do Juntos LGBT que dizia “Folha sugere não dar pinta pra evitar homofobia – Evite a Folha para evitar a homofobia” foi compartilhado mais de duas mil vezes.

No entanto, houve também quem negasse que a Folha estivesse sendo preconceituosa, com base em dois argumentos, um formal (“as táticas foram informadas pelos próprios frequentadores, não foram criadas pela Folha”) e outro material (“as táticas são boas”).

O primeiro argumento não tira a responsabilidade da Folha. Antes de tudo, é necessário dizer que as táticas não refletem fielmente as quatro entrevistas reproduzidas no corpo do artigo. Dos quatro consultados, apenas Juliano Polidoro diz claramente que “(v)ocê não pode beijar seu namorado em público, (…) não anda de mãos dadas (…)”. Seu comentário, porém, podia ser apenas sua conclusão sobre o recado que o agressor queria dar – “gays não devem demonstrar afeto publicamente” -, mas não que as LGBT realmente devessem fazê-lo. Outro entrevistado, Leandro Moreira, somente diz que “(a) gente tem vontade de fazer coisas, mas está em um momento em que tem que se privar”, não se podendo concluir que sugeria que as LGBT devessem “evitar lugares abertos” ou “não dar ‘pinta’”.

Aliás, essas duas últimas recomendações não encontram respaldo algum nos quatro entrevistados. Qual foi a fonte da Folha para elas? Se ninguém falou em “não dar ‘pinta’” ou em “evitar lugares abertos”, conclui-se que a Folha “deduziu criativamente” a partir das quatro entrevistas, ou entrevistou mais gente, mas deixou de indicá-las na reportagem.

Se “deduziu criativamente”, a Folha completou o branco deixado pelos entrevistados com um preconceito, por entender que cabia às LGBT esconder sua orientação sexual ou identidade de gênero, ou mesmo evitar espaços públicos, a fim de evitar as agressões – e não ao Estado ou à sociedade civil buscar evitar a agressão. Será que a Folha publicaria que que mulheres “não devem usar saias curtas” para evitar assédio masculino, ou que negros devem “embranquecer” para evitar assédio da PM, ou que judeus “não devem usar quipá” para evitar antissemitismo? Essa analogia deixa claro que a Folha foi preconceituosa, sim, ao incentivar a limitação dos direitos das LGBT, violando seu dever de “defender os direitos do ser humano”, inscrito no código de ética da ANJ.

Se fez mais entrevistas, a Folha buscou gente com a mesma opinião, ignorando as várias pessoas que frequentam a Frei Caneca e que discordam dessas táticas. Dessa forma, a Folha violou seu compromisso com a pluralidade, estampado em sua linha editorial (“A Folha estabelece como premissa de sua linha editorial a busca por um jornalismo […] pluralista”). Ao reproduzir apenas uma opinião, que orienta o retorno ao armário, a Folha reforça a ideia de que as LGBT só podem garantir sua segurança restringindo sua própria liberdade – o que é falso, já que as táticas divulgadas pela Folha não previnem violência!

Apesar de andar em grupo, Bruno Borges foi assassinado e Aline da Silva foi espancada (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1409850-lesbicas-relatam-abuso-e-sao-agredidas-em-terminal-de-onibus-em-sp.shtml). Apesar de não estar de mãos dadas ou beijando, Juliano Polidoro foi agredido – e talvez Kaíque dos Santos tenha morrido nas mesmas circunstâncias. Esses exemplos mostram que a tática do armário não resolve a homofobia – e desconsidera redondamente a transfobia, pois travestis e transexuais não podem esconder sua identidade de gênero. Aqui a Folha mais uma vez falha com sua missão editorial, na qual se diz comprometida com o “espírito crítico”.

As várias pessoas e coletivos que se manifestaram contra a reportagem da Folha, inclusive o Juntos LGBT, entendemos que não é deixando de ser LGBT que vamos superar a insegurança. Em vez de sugerir que LGBT limitassem sua própria liberdade, a Folha devia informar sobre como as LGBT fazem valer seus direitos e sobre as formas de luta por outros direitos.

A Folha devia ter lembrado que, no dia 19.09.2013, protestamos contra a Lanchonete Linda Frei Caneca, que havia discriminado um casal de lésbicas. Que no dia 11.01.2014 fomos no shopping Center 3 exigir que o direito de mulheres transexuais ao banheiro feminino fosse respeitado. Que no dia 17.01.2014 fomos às ruas exigir que o caso Kaíque dos Santos fosse investigado devidamente. Que no dia 11.02.2014 as LGBT (e não apenas “gays”, como diz a reportagem da Folha – http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1410868-gays-protestam- em-frente-a-secretaria-de-seguranca-contra-agressoes-em-sp.shtml) voltaram às ruas para lembrar a morte de Kaique dos Santos e exigir o fim da impunidade.

A Folha devia ter informado sobre a lei estadual 10.948/2001, que pune administrativamente a homotransfobia. Sobre o PLC 122, projeto de lei que criminaliza a homotransfobia e se encontra no Congresso há mais de uma década. Sobre o projeto de lei João Nery, que reconhece o direito de travestis e transexuais corrigirem facilmente seus documentos e que também não foi votado por deputados e senadores. Sobre o kit Escola sem Homofobia, que não foi distribuído por decisão da presidenta Dilma. Sobre a polícia, que reprime violentamente cidadãs e cidadãos e não resolve poucos crimes violentos.

A homotransfobia não é culpa das LGBT, mas de quem as agride. A combate à homotransfobia exige o fim da impunidade, a criminalização da homotransfobia, a reforma profunda da polícia e a desmilitarização, e o investimento massivo em educação, dentre outras medidas. Ao sugerir que LGBT voltassem pro armário, a Folha apenas reproduziu preconceitos e faltou com seu dever de pluralidade, defesa dos direitos humanos e espírito crítico. Em 28.06.1969, saímos de um pequeno bar chamado Stonewall para ganhar o mundo. Não importa o que diga a Folha, não vamos dar meia-volta.

* Felipe Oliva é militante do Junt@s pelo Direito de Amar

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