Em ano de Copa, o que está em jogo no 8 de março?

05/mar/2014, 23h08


*Por Giulia Tadini

No ano de 2014, será o primeiro ato do dia internacional de luta das mulheres após as jornadas de junho. A luta das mulheres que já vinha se potencializando no cenário político brasileiro ganhou ainda mais relevo, mesmo antes de junho. A nacionalização das Marchas das Vadias desde 2011 colocou as pautas do feminismo de volta às manchetes. As jornadas de junho potencializaram ainda mais a luta das vadias. Pela primeira vez, a Marcha das Vadias do RJ contou com mais de 3 mil participantes. Em junho, as mulheres foram protagonistas nas ruas e chegaram a ser a maioria dos participantes em muitos atos.

Seria um erro se o nosso dia não refletisse esta conjuntura. Em ano de Copa do Mundo, milhares de brasileiras e brasileiros estão questionando os gastos com os mega-eventos. São bilhões que poderiam mudar o dia-dia do povo, com investimentos em saúde, educação, transporte e moradia! São bilhões que poderiam ser gastos em creches e no aprimoramento do programa de combate à violência contra a mulher! São milhares de remoções que afetam famílias inteiras. São escândalos como das camisetas da Adidas que reforçam em nosso país a mercantilização do corpo da mulher e o que é pior, o turismo sexual. São marcas que ficarão no Brasil pós-Copa, e que marcarão a vida de muitas mulheres.

Os debates que foram feitos nas reuniões pré-ato, nos quais diversas forças políticas estiveram presentes, colocaram o que está em jogo neste ano. Em 2014 podemos fazer um balanço mais completo do que significou o governo Dilma para as mulheres: a conquista simbólica de uma mulher ser a primeira presidenta do país deixou muito a desejar para o aprofundamento dos diretos das mulheres.

O tom que Dilma escolheu na campanha, rifando a pauta da legalização do aborto mostrou o caminho que seria seguido nos anos seguintes. A posse do Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos só coroou a aliança do governo com os setores fundamentalistas pela “governabilidade”. Se não fosse as mobilizações de junho, talvez a “cura gay” não teria sido arquivada. Se há um fortalecimento da bancada fundamentalista é porque os governos do PT elegeram esses setores como seus aliados nos últimos anos.

Para tentar responder ao clamor das ruas, foi proposta uma reforma política. Entendemos que em ano eleitoral, as companheiras vinculadas aos setores governistas queiram pautar isso. Mas discordamos, porque por trás desta política há uma tentativa de marginalizar debates urgentes e necessários. Não há, como no ano de 2014, falar em reforma política, sem falar em democracia real, no povo, e nas mulheres na rua lutando pelos seus direitos. Lutamos por Assembleia Constituinte que inverta as prioridades que hoje estão dadas no balcão de negócios que se tornou a política. Somos por este debate, mas entedemos que ele não pode vir sem o devido balanço do que acontece no Brasil hoje. Não podemos debater reforma política sem repudiar um projeto que busca criminalizar os movimentos sociais, tachando os manifestantes de “terroristas”. Vale lembrar que Dilma, hoje presidenta, foi considerada “terrorista” na época da ditadura militar. Comparação nefasta que simboliza o inversão de prioridades do PT no último período.

O que está em jogo é que para garantir a “ordem” durante o período da Copa do Mundo, qualquer manifestação por direitos sociais (transporte, moradia, educação ou saúde) pode ser violentamente reprimida pela polícia. Política se torna caso de segurança nacional. Neste oito de março não estamos apenas nas ruas pelos nossos direitos, mas pelo direito de ocupar as ruas, pelo direito de manifestação! Queremos que as mulheres não só estejam no ato do 8 de março, mas que continuem sendo protagonistas das mudanças sociais do país.

*Giulia Tadini é do Juntas SP e do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos.

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