Vitória da greve dos garis do Rio de Janeiro: a maré laranja que varreu a cidade

09/mar/2014, 13h27

“Não dá pra sustentar minha família com 800 reais, à vezes menos. Eu sou compositor, faço artesanato com flores, preciso arrumar bico pra pagar as contas. Quem é novo ainda consegue, mas quem é mais velho, não aguenta. A gente vive pra trabalhar ou trabalha pra viver?”. Foi o que disse Rodnei, depois de vaiar a Rede Globo, durante a negociação dos garis com a Prefeitura do Rio no Tribunal Regional do Trabalho. Rodnei, entre tantos outros, ao invés de enfrentar o sol e chuva no trabalho, estava no bloco que mudou o Carnaval do Rio: a greve dos garis.

É nítido que a imensa maioria dos garis são negros. Seu salário chegava a menos de um salário mínimo considerando os descontos da folha de pagamento. Trabalhavam 44 horas por semana, sem folga aos sábados e domingos, sem adicional noturno ou hora extra. E cada um deles, sem exceção, tinha a certeza de ser indispensável para o Rio: orgulho de saber que não existe Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana) sem gari, e que a beleza do Rio só brilha com seu trabalho. Sua luta põe a nu a postura autoritária do prefeito e seus asseclas, como se ainda estivessem na casa grande, evidencia o racismo a olhos nus. A resistência negra e laranja foi capaz de vencer.

A greve dos garis, seguindo o esteio da greve dos rodoviários de Porto Alegre, sedimenta o que já estava anunciado: junho inaugurou um novo período das lutas no Brasil. O método das ruas garantiu mais uma vez vitórias, e quem menospreza este fato fica para trás: os sindicatos – dos garis do Rio e dos rodoviários de Porto Alegre – foram atropelado pela base organizada. As desculpas de falta de verba, constante entre as prefeituras, não convencem mais ninguém, ainda mais no ano da Copa. E a campanha difamatória da grande mídia, com a Rede Globo na dianteira, acelera o descrédito do povo nos monopólios de comunicação.

As garis, no 8 de março, recebiam as flores, e, agradecidas, respondiam que queriam o aumento de presente. Ganharam. A reunião de negociação no TRT, agendada para terça da semana seguinte, foi antecipada para o sábado à tarde. Sinal de que a pressão surtiu efeito na casa grande: com a agenda do final de semana cheia de blocos encerrando o carnaval, quem vai varrer o lixo da prefeitura?

A vitória da greve dos garis representa muito mais do que a conquista do aumento de salário – este, eles sabem bem, é ainda o mínimo para poder sobreviver. O processo de construção de uma greve de trabalhadores com atos massivos e rechaço a ações individuais e isoladas ganhou massivo apoio da população – difícil encontrar alguém que ousasse questionar a legitimidade dessa luta. Era possível até mesmo ver alguns policiais da Tropa de Choque, com sua indumentária Robocop, batucando o capacete com a irresistível paródia que fizeram com o samba enredo campeão da Unidos da Tijuca.

Por fim, depois de 8 dias de greve e propostas irrisórias da prefeitura, a contraproposta dos garis foi enfim aceita: 1.100 reais, e mais 20 reais no tíquete alimentação. É menos do que merecem, sem dúvida. Mas o que passou nesses 8 dias, para os garis, bem como para a população do Rio de Janeiro, não se conta em cifras: virou história.

 

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