Os dias de capitalismo em Saló

06/abr/2014, 23h47

*Felipe U. Moreira

Pier Paolo Pasolini era um comunista influenciado pelas ideias do materialismo dialético, assombrado pelo catolicismo em particular, e a religião em geral, e horrorizado pela ideia moderna de progresso. A degeneração filosófica e material do capitalismo é força que move “Saló ou os 120 Dias de Sodoma”.

A II Guerra Mundial desvendou o destino ao qual a locomotiva do progresso, ou de certa ideia absoluta de progresso, se dirigia em desabalada carreira, ao menos enquanto ideia que animou uma época. O destino era a barbárie, com paradas nos campos de concentração, na química das câmaras de gás e na bomba atômica. O fato histórico aqui se traveste no fetiche, na escatologia e no sadismo dos próceres do fascismo que sequestram 16 jovens proletários.

Se as trombetas do desenvolvimento das forças produtivas prometiam um banquete tão farto a ponto de se servirem patrões e empregados, Pasolini mostra que nele servem merda.

O sexo aqui é, exagerando, um acaso. O que diz é o fundamental das relações humanas, que elas são feitas de poder, que vai ao seu ponto último e primeiro, seu objetivo e fundamento, o corpo. O corpo é barbarizado e sofre novas investidas do poder, que busca as formas de se reafirmar na desumanização de jovens mulheres e homens proletários, como metáfora escandalosa da sua desumanização nas engrenagens do capitalismo.

O filme termina na hecatombe das possibilidades, mas filosoficamente podemos afiliar a desmoralização do progresso a uma imagem de futuro interditado, do qual só resta aberta a porta dos fundos da história para escapar da casa de horrores do capitalismo industrial, pela qual se chega a certo romantismo anticapitalista. A rota de fuga pelo passado parece o único caminho possível a um futuro alternativo.

*Felipe U. Moreira é sociólogo e militante do Juntos/RN