Fernanda errou. Quem mandou se meter com futebol?

13/maio/2014, 13h40

*Por Sâmia Bonfim

Fernanda errou, mas não pode errar. Se fosse o João, poderia. Eu não acompanho e não entendo nada de futebol, assim como minha mãe, minha irmã e amigas. Meu pai, meu irmão e muitos amigos entendem de futebol. Eles provavelmente souberam e comentaram o erro de Fernanda antes de mim. Se o erro fosse do João, eu provavelmente nem teria ficado sabendo. Só conheci a Fernanda porque “ela tem chamado muito atenção em jogos afora”, como disse o site da Globo.

Não consigo imaginar o caminho que ela percorreu para virar bandeira, mas com certeza não foi fácil. Ela faz parte dos quadros de aspirante a árbitro da Fifa, mas seu talento é outro, segundo o mundo masculino do futebol. “Ela é bonitinha”. Fernanda gosta, entende e trabalha com futebol, é experiente, é reconhecida pela Fifa, mas é mulher. “No último domingo, arrancou gritos dos torcedores, que elogiaram sua beleza, mas cometeu um grave erro.” Erros acontecem, aos montes, no futebol. Mas o erro de Fernanda foi incomum, foi grave: Fernanda é mulher e resolveu se meter com futebol no país das chuteiras masculinas.

Alexandre Mattos, diretor do Cruzeiro, declarou, segundo a reportagem “Bandeira Musa erra feio e irrita jogadores e dirigentes do Cruzeiros, do site da Globo:“Essa bandeira é bonitinha, mas não está preparada. Os caras gritam, e ela erra. Ela é bonitinha, mas tem que ser boa de serviço. O erro dela foi muito anormal. Se é bonitinha, que vá posar para a (revista) “Playboy”, não trabalhar com futebol”.

Fernanda tem um papel importante em campo. Um gesto seu pode modificar o resultado de um jogo. Tem poder (imagina, mulher com poder?). Neste domingo, foi a única mulher em campo, cercada de jogadores, técnicos, juízes, gandulas, todos homens. Em seu entorno, uma torcida majoritariamente masculina, que cobra, grita, xinga, exige dos jogadores e de suas mães, filhos das putas. Mas ela não estava preparada: errou porque mulher não aguenta quando homem grita. O erro dela foi muito anormal, porque é bonita. Seu lugar não é ali, não é boa de serviço. Serviço bom pra ela é posar na Playboy, já que é bonitinha. Tinha que fazer que nem a outra, a Ana Paula, que também é bonitinha.

Não sei se ela errou porque estava de fato com medo dos jogadores ou porque, assim como outros bandeirinhas homens – que não devem ter medo, porque são homens – errou porque erros acontecem. Mas o mundo do futebol já sabe bem o motivo: errou porque é mulher. Seu lugar não é ali, apitando um jogo. Seu lugar é na pia ou no tanque ou cuidando da filha no domingo enquanto seu marido assiste ao futebol junto com o muleque, que já torce pro mesmo time do pai, que orgulho. Como é bonita, seu lugar pode ser depois do jogo, dançando atrás do Faustão. Pode ser apresentadora de programa de esporte, mas não pode falar demais, não entende nada de futebol na verdade. Seu lugar, no máximo, é ao lado do seu marido na arquibancada geral, dando palpites, que ele nem ouve. Mulher no futebol, só a Marta, que joga tão bem quanto um homem.

O principal esporte brasileiro não é construído por e nem para as mulheres. Nas diretorias dos times, nas arquibancadas, nos programas de esporte, o espaço da mulher é minúsculo. Mesmo em campo não

há espaço para as mulheres: a Seleção feminina de futebol brasileiro sofre com a falta de investimentos e espaços. Escolinhas de futebol não são para as meninas. Na aula de Educação Física, vamos jogar vôlei.

A mídia chamou a profissional de musa. Chamou o assédio que Fernanda recebeu da torcida do Atlético-MG depois de errar o lance do Cruzeiro de elogio. Dias antes, divulgou uma cena em que ela estava ajeitando o meião como “flagras de poses indiscretas”. Ela só poderia estar lá para fazer poses eróticas e satisfazer o mundo masculino do futebol, não é mesmo?

O Brasil já está sendo vendido como o país do Neymar da prostituição. Nas páginas de futebol na internet, aparecem muitas mulheres para serem eleitas as musas da Copa. O decote de Fernanda Lima, aliás, estava lindo no sorteio da Copa. Imagina na Copa. Qual será o nosso espaço no país futebol?

Acho que as mulheres tinham que fazer como Fernanda e se meter com futebol para dizer que elas não são musas, mas jogadores, torcedoras, técnicas, comentaristas ou simplesmente que não gostam muito, como eu. Só não dá mais para o futebol sinônimo de esporte de homens e ser espaço de tanto machismo. Há muitas Fernandas por aí, que gostam, opinam e comandam o futebol e minha torcida é para que elas não se deixem abater e continuem ocupando os espaços que nunca foram construídos para serem das mulheres.

Convido a todas as mulheres para irem às ruas no dia 15 de maio, o dia de luta contra as injustiças da Copa. No futebol e nas ruas, devemos continuar quebrando as barreiras que nos colocam em um mundo de submissão e opressão. Cartão Vermelho para o machismo! O jogo é nosso!

*Sâmia Bonfim é do Juntas SP