Perguntas e respostas: Juntos! é chapa 4 “Manifesta” na UnB!

07/maio/2014, 00h23

*Ayla Viçosa e Paola Rodrigues

Na próxima semana, a UnB vai presenciar mais uma eleição para escolher a nova gestão do Diretório Central dos Estudantes. Nos dias 14 e 15 de maio, estudantes da graduação e da pós-graduação irão às urnas para escolher o projeto de Universidade que querem que seja implementado na UnB no próximo ano.

2014 já começou marcado por muitas reivindicações populares, com greve dos garis do Rio de Janeiro ao ABC Paulista, por ser o ano da Copa do Mundo, que já custou bilhões de reais para os cofres públicos, e que certamente ainda vai desencadear uma série de manifestações por estar desvirtuando as prioridades de investimento nas áreas sociais. Dessa forma, um DCE mobilizado, conectado com os movimentos sociais, que dialogue com toda a comunidade acadêmica e que não reduza o debate de opressões, mulheres e lgbtt a um único seminário de “diversidades” é tão importante para colocar a Universidade de Brasília no centro da atuação política do Distrito Federal. A UnB não pode ter um DCE ausente nesse processo político tão importante que se passa no Brasil.

Confira o bate-bola com a estudante de Ciências Sociais, Ayla Viçosa, sobre as questões centrais que hoje dividem o debate nessas eleições da UnB:

Pergunta 1: [Terceirização do RU] Qual o posicionamento da chapa Manifesta em relação ao tema?

[ Fatos: Após a terceirização do R.U., ocorreu a demissão de todos os trabalhadores terceirizados do R.U e o aumento no preço da refeição para não-estudante;  Instalação de um restaurante privado “R.U. Gourmet” dentro do R.U.]

Ayla: Existe uma lógica muito errada em dizer que a privatização dos serviços públicos é a melhor saída para o aumento da qualidade desses serviços. O que acontece na verdade é que o sucateamento das estruturas públicas faz com que o argumento privatizador seja respaldado facilmente junto a população. Dessa forma, somos contrários à terceirização do RU. Primeiramente, porque não nos parece aceitável a ideia de uma empresa ganhando lucro em cima do que é a alimentação de cada estudante da UnB. Fora a qualidade da comida, que não se elevou diante dessa terceirização – muito pelo contrário – com queixas constantes dos estudantes de encontrarem insetos, plástico e coisas do tipo em suas refeições. Além disso, a terceirização deixou consequências muito negativas para a Universidade: a elevação absurda da taxa de cobrança nas refeições do RU para não-estudantes da UnB e a demissão dos antigos terceirizados, sem aviso prévio, ou seja, do dia para a noite. Os terceirizados e os trabalhadores não ligados diretamente à UnB, que precisam e tem tanto direito ao RU quanto nós, estudantes, passaram a pagar 10 reais por refeição ( mais que o dobro do valor anterior).

É inadmissível que esses setores – e até mesmo a comunidade externa à universidade (que podem vir a usar os serviços oferecidos por essa) – tenham que pagar um custo tão alto pela refeição. Defendemos um projeto de universidade que enxergue a UnB como parte da comunidade que a cerca, e, dessa forma, a terceirização do RU vai na contramão dessa concepção. Além disso, recentemente, ainda nos deparamos com o surpreendente fato de que teremos agora um RU GOURMET. Isso foi um escândalo. Todos os dias, quem passa no RU no horário do almoço, vê filas imensas, tanto para comprar fichas como para acessar o refeitório. Essa alta demanda deixa evidente a necessidade URGENTE de expansão do RU. E qual a postura da reitoria frente a isso? Abrir um refeitório com comida de melhor qualidade, mas também com maior custo! Não é segregando aquele que pode pagar daquele que necessita da comida subsidia pela Universidade que vamos avançar. Queremos um RU maior com mais qualidade na produção de sua comida e também com preços acessíveis!

ru gourmet

Pergunta 2 – [Cotas] Qual o posicionamento da chapa 4 em relação ao tema ?

Ayla: A Manifesta é favorável a política de cotas raciais e sociais na UnB. No último CEPE, conseguimos assegurar um sistema de 55% de cotas, onde 5% possuem o mérito exclusivamente racial, sem necessariamente ter a transversalidade com a pauta social. A problemática da Aliança pela Liberdade defender apenas os 50% da lei das cotas resume-se no fato de que o racismo não se combate apenas pensando-se na identidade negra apenas com a transversalidade de social, e sim também pela afirmação da etnia negra em espaços que são hegemonicamente ocupados por brancos. Quantos professores negros temos na Universidade de Brasília? Entende? Com esse simples raciocínio, é preciso que a comunidade acadêmica tenha o entendimento de que o combate perpassa pela inserção social dos negros, mas também pela afirmação de sua identidade racial. Um negro de classe média enfrenta muito mais dificuldades que um branco de classe média para estar no ambiente universitário, por uma consequência de uma construção histórica racista. A mudança disso perpassa também, portanto, pela afirmação da identidade negra.

cotas

 

Pergunta 3 – [Polícia Militar] Qual o posicionamento da chapa 4 em relação ao tema ?

Ayla: A discussão da Polícia Militar é importante pois problematiza o modelo de segurança vigente na sociedade e, portanto, na UnB. Somos desfavoráveis à presença da polícia militar na universidade por três motivos: primeiro por ela ser um meio ineficaz de tentar combater os índices de criminalidades. Faz anos que a PM se encontra na universidade e os índices de estupros, assaltos e sequestros não diminuíram. Inclusive, a UnB segue sendo uma das universidades com maiores índices de estupros. Logo, o primeiro motivo é a comprovada INEFICIÊNCIA da PM como alternativa de segurança para a universidade. O segundo motivo é que pensamos um projeto de segurança que não diz respeito apenas à presença ou não da PM no campus da universidade, e sim que englobe uma série de outras medidas que nunca foram implementadas: iluminação, transporte público de qualidade, que levem as pessoas da UnB até a L2 norte com segurança e agilidade, contratação de guarda universitária feminina e treinamento para que a lógica de segurança universitária seja humanitária e não patrimonial. São medidas simples, objetivas e concretas que mudariam o cenário de insegurança total dentro da UnB.

E por fim, nosso terceiro motivo se pauta no despreparo da PM para lidar com a comunidade acadêmica. A polícia militar é um resquício direto da ditadura, criada naquela época para funcionar com um caráter autoritário, centrado na repressão. Dentro da UnB, já podemos sentir o que é efetivamente esse modelo de segurança, durante a própria ditadura, quando a polícia invadiu a universidade, prendeu, matou e sumiu com estudantes como Honestino Guimarães e Ieda Delgado. Além desse resgate histórico, o despreparo completo da PM se reflete no presente. Incontáveis são os estudantes de HOJE da UnB que moram nas periferias e dizem que esse modelo de segurança os intimida e não oferece segurança, justamente porque é a mesma PM que age de forma arbitrária e autoritária nas periferias do Brasil, diariamente exterminando jovens das periferias, como recentemente ocorreu com  Douglas Rafael da Silva Pereira, o “DG”, da comunidade Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro. As jornadas de Junho do ano passado também, por fim, nos provaram isso, pois sempre que as pessoas saíam as ruas de forma pacífica para clamar por direitos, a resposta da PM sempre foi violenta e autoritária.

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Pergunta 4 – [Assistência Estudantil] Qual a relação da chapa com o CASSIS e com o episódio de ocupação da Reitoria?

Ayla: Vários estudantes que hoje compõem a chapa 4 Manifesta participaram ativamente do processo da criação do CASSIS e da ocupação da sala que temporariamente foi o espaço do encontro dos estudantes da Assistência Estudantil. Primeiramente, não há o que falar da relação CASSIS e Aliança (e se houve, avaliamos como péssima ou quase nula), uma vez que essa relação nunca foi estabelecida de modo real, pois sempre que a A.L. teve que optar entre estar ao lado dos estudantes da Assistência ou junto com a Reitoria, o grupo optou por estar com a reitoria. Foi contra a ocupação da sala que deu origem ao CASSIS, foi contra a ocupação da reitoria, nunca defendeu os interesses da assistência nas mesas de negociação com o reitor Ivan Camargo, e nem se quer mobilizou o conjunto da universidade para discutir a calamidade em que se encontrava a Assistência Estudantil na UnB. Apropriou-se da luta dos estudantes da assistência para a sua autopromoção. As conquistas do fim da contrapartida trabalhista e do direito à acumulação de bolsas não foram da gestão Aliança pela Liberdade no DCE, e sim de quem dormiu nas ocupações (seja em sala de aula seja na reitoria) e de quem ficou sem ter onde morar pela política negligente de Ivan Camargo com os estudantes baixa-renda da universidade. Foi também de quem passou em salas, participou dos CEB’s e o conjunto do(a)s estudantes em defesa dessa pauta. Não tem se quer uma gota de esforço da Aliança pela Liberdade nisso. As recentes conquistas da assistência estudantil foram fruto de muita luta dos estudantes.

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Pergunta 5 – Qual o posicionamento da chapa 4 em relação  à instalação dos postos do DFTrans no campus?

Ayla: Acreditamos que a instalação desses postos no campus Darcy facilitou a vida dos estudantes, mas atualmente as carteirinhas do DFTrans não estão indo para o posto da UnB ( o estudante tem de ir ao posto do CONIC busca-las e a recarga é realizada de forma automática). Ou seja, o posto ele é útil, mas não na sua totalidade. Acreditamos também que esses postos devam existir em outros campis da UnB. E para além disso, a demanda mais urgente é com relação ao transporte público com a colocação de mais linhas de ônibus: mais 110, mais linhas que levem os estudantes para outros pontos do plano piloto e principalmente para fora dele. Queremos pautar a criação de um ônibus circular dentro da Universidade, que permita o estudante chegar em todos os pontos do campus Darcy e também até os demais campis. A Universidade precisa estar toda conectada e promover isso ao estudante de forma gratuita, como já vimos em outras Universidades brasileiras.

CEUBINHO

*Ayla Viçosa é estudante de Ciências Sociais e militante do Juntos!

*Paola Rodrigues é jornalista e militante do Juntos!