A ficção na capa do Estadão e a polícia secreta

01/jun/2014, 20h19

*Rodolfo Mohr

Li atentamente a “matéria”, manchete de capa do Estadão, de hoje: “Black blocks prometem caos na Copa e contam com PCC”.

O Estadão pratica antijornalismo, apresentando um conto literário de black blocks que andam de “pantufa de ursinho” dentro de casa e criam o “caos na rua”, desta vez contando com o PCC. Os primeiros por ideologia, o segundo por dinheiro, segundo a “reportagem”.

A verdadeira notícia está guardada após a reportagem sensacionalista: “Nenhum PM foi identificado em ato mais violento”, referindo ao protesto do dia 13 de junho em São Paulo, considerado o divisor de águas, que transformou as passeatas de até então nas históricas jornadas de junho.

Quero recordar o editorial do próprio Estadão e da Folha do dia 13 de junho de 2013: ambos invocavam a PM a “retomar a Paulista” dominada pelos manifestantes. Ou seja, Estadão e Folha deram carta branca para PM descer o cacete contra as passeatas. Nesse dia, uma das fotos mais repercutidas foi o da repórter da Folha que levou um tiro de bala de borracha no olho.

Agora, a 12 dias da Copa, o Estadão utiliza o mesmo expediente e vai além: sugere o caos, a partir de uma suposta unidade de black blocks e PCC. Esse ambiente de terrorismo, sob a alcunha de jornalismo, incentiva a mesma PM violenta a “retomar as ruas”, agora durante a Copa.

Não vemos a mesma gana jornalística do Estadão e seus análogos em investigar a Polícia Secreta, os chamados P2, infiltrados nos movimentos desde junho, que vão às passeatas camuflados, incentivar quebra-quebra e mapear os movimentos. Essa herança maldita da ditadura, mantida por dinheiro público é que precisa ser extinta. Gostaria de ver algum jornalão com essa pauta. Denunciamos a presença destes infiltrados no protesto de sexta aqui em Brasília. Fotografamos pelo menos dois, que na concentração sugeriam – a quem quisesse ouvir – que deveríamos “descer para o Congresso Nacional e quebrar tudo”.

É contra toda essa rede de conchavo – governos, polícias, imprensa – que lutamos. Que nos sobre coragem e unidade para derrotar esse mundo da mentira, da miséria e da exclusão.

*Rodolfo Mohr é do Juntos! Brasília e do Grupo de Trabalho Nacional do Juntos