Megaeventos esportivos, Copa e lutas no Brasil no contexto de crise do capital.

16/jun/2014, 12h14

por Linnesh Ramos

“Educação Física é uma prática pedagógica que, no âmbito escolar, tematiza formas de atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, dança, ginástica, formas estas que configuram uma área de conhecimento que podemos chamar de cultura corporal.”

“O esporte, como prática social que institucionaliza temas lúdicos da cultura corporal, se projeta numa dimensão complexa de fenômeno que envolve códigos, sentidos e significados da sociedade que o cria e o pratica. Por isso, deve ser analisado nos seus variados aspectos[…] Sendo uma produção histórico-cultural, o esporte subordina-se aos códigos e significados que lhe imprime a sociedade capitalista e, por isso, não pode ser afastado das condições a ela inerentes […]” (COLETIVO DE AUTORES, 1992)[1]

Trataremos neste diálogo, o esporte como manifestação da cultura corporal, atividade que é produto da cultura humana, localizado no que chamamos de patrimônio da humanidade.

A sua manifestação na sociedade capitalista se dá pela via da mercadorização. Bem como o capital transforma em mercadoria bens indispensáveis na vida humana como saúde, educação, moradia, alimentação e etc, podemos incluir o acesso ao esporte e lazer. Para termos acesso hoje ao que tem de melhor na dança, no esporte, na ginástica, na ginástica circense, nos esportes de aventura, por exemplo, devemos pagar para isso. Poucos são os programas de políticas públicas para a universalização do esporte, e dos outros elementos da cultura corporal. Sem falar naqueles programas que tinham um discurso “democrático” na proposta, e serviu na prática para o desvio de verbas públicas, enriquecimento das iniciativas privadas (empresas que fornecem merendas, por exemplo), além de pagarem mal os professores e estagiários que atuavam, em sua maioria, com precárias condições de trabalho. Um exemplo foi o Programa Segundo Tempo.

As condições concretas dos trabalhadores professores de Educação Física nas escolas públicas são decadentes. Além dos espaços físicos para as aulas teóricas, os professores muitas vezes não possuem espaços como quadra coberta para realizarem as atividades práticas. Mesmo sob essas condições no que deveria ser o esporte de base, os elementos da Cultura Corporal, em especial o futebol, causam grande prestígio na sociedade tanto na sua prática, quanto como expectadora. Gostamos de dançar, de jogar um “baba”, “pelada” ou “travinha”, como também apreciamos um espetáculo de dança, ou mesmo um bom jogo de futebol. De preferência do nosso time, e que ele esteja ganhando.

O esporte, por sua vez, possui um mercado significativo que movimenta vários bilhões pelo mundo. É só colocar no saldo o quanto se vende em chuteiras, camisetas de times, ingressos para os jogos, artigos desportivos em geral, e também como os grandes jogadores se transformam em outdoors humanos e propagandeiam a venda desde creme de barbear, pasta de dente, perfumes e cuecas, a grandes companhias telefônicas e programas fitness para empresas como a Nike. É sob este terreno contraditório que se localiza a intervenção da FIFA, como um organismo internacional do capital.

A Copa do Mundo sempre foi trazida com muita pompa e alegria. Nos primeiros meses de graduação, o Centro Acadêmico (CACEF) da minha Universidade realizou calouradas onde promoviam, dentre várias, a discussão do vínculo entre o esporte e a política. Em especial o que foi a Copa na época da Ditadura Militar no Brasil e ter a seleção Tri Campeã do mundo no futebol. A taça erguida representou uma forte propaganda no auge das repressões da ditadura militar para demonstrar uma nação soberana no esporte perante o mundo.

Mas, para além desses aspectos, a Copa do Mundo se desenvolve cada vez mais como um bom negócio para os grandes empresários mundiais. Haja vista o grau de endividamento dos países sedes com organismos econômicos internacionais do capital, como o Banco Mundial e o FMI. A FIFA, movimenta bilhões nas realizações das Copas, e tudo isso com um alto nível de investimento público, como por exemplo, as isenções fiscais às multinacionais no Brasil e os créditos milionários concedidos pelo BNDS à inciativa privada. O contexto que falamos é onde apenas 0,4% dos investimentos na Copa são oriundos da iniciativa privada; 50,7% de financiamento federal e 49% de investimento público direto.[1]

Na verdade, nunca vimos tantas obras, com tanto dinheiro gasto e, com a clareza que essas obras não são para nós… trabalhadores. Todo o caos que assistimos se acirrar nesses últimos meses não são para melhorar a educação, saúde, transporte e até mesmo a cultura desportiva do país. Para completar o quadro, a grande propaganda é que os brasileiros assistirão os jogos não nos estádios de qualidade internacional, mas por uma nova TV LED ou de Plasma de “X” polegadas comprada no seu cartão de crédito parcelado em 35 mil vezes…!

Para sediar a copa, a FIFA impôs ao Brasil um pacote de exigências econômicas e sociais que devem ser cumpridos. Desde a construção de estádios padrão FIFA, a mercado de hotelaria, segurança para os turistas, e passe-livre para os empresários estrangeiros. A FIFA impôs uma condição de limite no território das cidades onde, os brasileiros soteropolitanos, mineiros, paulistas, cariocas e os que terão suas cidades como sede, não terão acesso por serem “territórios da FIFA”. E para defender o limite deste território, a FIFA conta com a presença do braço armado e bem equipado do Estado dirigido pelos governos federal e regionais. Um exemplo foram os atos de junho de 2013, e as manifestações anti-copa em diversas cidades em 2014. Ambas seguidas com grandes repressões.

Diremos então que, o projeto da FIFA dos megaenventos não é de longe uma expressão da democratização do acesso ao esporte e ao lazer. Nós, professores de educação física que nos localizamos dentro do campo crítico superador da nossa área, defendemos a universalização da cultura corporal para o conjunto dos sujeitos. O futebol também se aprende na escola. Somos obrigados a assistir o embelezamento da miséria e da pobreza no Brasil. Nos vídeos dos grandes artistas Pop que promovem a copa do mundo, jogar bola na lama, sem campo decente, descalços, num terreno dentro da favela, onde sabemos a realidade da negação das condições dignas de vida, é lindo e exuberante! Até nossa miséria estão vendendo. Queremos qualidade dos espaços de prática esportiva! Para que a pelada na rua, na lama, na chuva e descalços sejam uma opção, e não condição para ser praticada. Queremos escolas com instalações para as práticas esportivas de acesso aos elementos da cultura corporal.

A Copa do Mundo pinta com as cores da nação sede, e com uma tinta bem aguada, uma aparência democrática e festiva. Com isso, atua dentro desse fenômeno contraditório para expandir mercados internacionais e comprometer economias. A copa do mundo obscurece ainda mais a realidade de exploração e dominação do capitalismo sob as relações econômicas internacionais que atingem diretamente a vida humana, cotidianamente. Todos os dias, desde que o Brasil foi invadido, os índios lutam por reconhecimento de território, lutam contra grandes fazendeiros, e no século XXI contra o agronegócio. Todos os dias temos mulheres e crianças traficadas para o turismo sexual, o descaso com a saúde, a educação, transporte, moradia e outros serviços públicos. Mas as exigências e a voracidade com que a FIFA e os Comitês Olímpicos dominam e assaltam os cofres do país sede, não passam despercebidos e seguem com grandes manifestações de rechaço, tal como foi na Grécia, na África e no Brasil.

Para seguir com o exemplo da Grécia, traremos os dados do comprometimento do seu Produto Interno Bruto para pagar dívidas externas advindas pelos custos e investimentos dos megaeventos. No ano 2000, a dívida pública da Grécia consumia 77% do PIB; em 2004 – 110%,33 do PIB; e em 2010 – 144,9% do PIB da Grécia estavam comprometidos com o pagamento da dívida pública.[2] Fora os gastos em segurança devido aos “ataques terroristas”. A Grécia aumentou substancialmente sua dívida após os empréstimos concedidos pelos organismos econômicos internacionais, para a realização das obras. O trabalho realizado pelo coletivo da Auditória Cidadã da Dívida, e pelos comitês de resistência à copa, é de grande valia ao demonstrar os gastos públicos com a dívida externa e como o Brasil continua se endividando ao sediar um megaevento promovido pela FIFA.

O resultado desse megaevento no Brasil coloca no saldo da decisão política e consciente do Governo Petista, aproximadamente 250 mil pessoas removidas de suas casas devido às obras da Copa e 9 mortes de trabalhadores nas obras referentes à Copa, segundo os dados da Rede Jubileu na cartilha “Copa para que (m)? Quem vai pagar a conta?”[3]. Além disso, as diversas manifestações que acompanham o Brasil desde Junho de 2013, onde as reivindicações giram em torno da defesa da verba pública para serviços públicos: saúde, educação e transporte de qualidade, denunciam o descaso político para o que verdadeiramente o Brasil precisa. Mas como disse o ex-jogador de futebol Ronaldo, “Copa não se faz com hospitais, se faz com estádios”.

No contexto de crise econômica devido ao sistema fundamentado pela especulação financeira altamente desenvolvida sob a lógica do capital em gerar lucro, a tendência que podemos identificar é que a ofensiva de políticas de austeridade vindas dos organismos internacionais e a retirada de direitos dos trabalhadores, marcam as estratégias para seguir no processo de enriquecer os mais ricos do mundo e retirar de quem tem menos. Em ano de copa, tudo isso com uma dose a mais de muita festa, cerveja, e futebol.

Passamos por uma conjuntura muito adversa e confusa. A ofensiva da direita tradicional em promover a barbárie no tratamento com os movimentos sociais e fazer crescer movimentos antidemocráticos como a homofobia e o machismo, em seguir no curso de privatizações, arrochar recursos para obras públicas e criminalizar o direito à manifestações, por exemplo, colocam uma falsa polarização entre a direita tradicional (DEM, PFL ,PSDB) e o PT no primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil. Na luta de classes há disputas, e o PT já perdeu a capacidade de organizar a classe para dar direção na luta pelos seus direitos. Atualmente, o mesmo partido convoca a nação brasileira a não se manifestar, a aproveitar o “grande momento que o Brasil passa” e dá o recado que serão utilizados os esforços necessários para garantir a segurança e a realização da Copa. Para atender os desejos da FIFA, as repressões continuarão com mais força.

Nunca os bancos lucraram tanto no Brasil[4]. A decisão de dar entrada franca para as grandes empresas mundiais do agronegócio, da construção civil e do transporte foi tomada e defendida pelo Governo dirigido pelo PT nesses 10 anos. A lógica de governabilidade do PT na essência é a mesma dos que mandaram historicamente nesse país. A política econômica segue para beneficiar a camada mais rica da população. Cabe neste momento, a disputa dos processos de luta dos trabalhadores em greve em todo o Brasil. Cabe encorajá-los, e não tentar acomodá-los. Cabe dizer que, suas reivindicações são legítimas, e não tentar desmoraliza-los. Assim fizemos com os rodoviários em Porto Alegre, com os Garís no Rio de Janeiro e mais recentemente com os metroviários numa luta histórica em São Paulo, só para dar alguns exemplos.

A Copa do Mundo no Brasil não deixa de ser o melhor presente que a governabilidade do PT poderia dar ao país. Seu legado será um rombo nos cofres públicos com altos endividamentos (atualmente mais de 40% do PIB brasileiro é destinado ao pagamento da dívida) onde os trabalhadores seguirão pagando. Mas o legado que os trabalhadores estão construindo com a copa é da experiência e retomada das lutas sociais no Brasil, da organização da própria classe. Por mais que utilizem estratégias para afagar estas lutas, há momentos em que a realidade se torna inevitável.

Esclarecer as questões, demonstrar os dados referentes aos incentivos do governo na iniciativa privada que tem sua maior expressão na Copa, estar ao lado dos trabalhadores que ousam romper com as direções burocráticas nos sindicatos na conquista de suas pautas e apoiar as manifestações legítimas da juventude e greves, são tarefas de disputa nesta tensão. Lutar junto é pedagógico no processo de organização da classe. Seguimos na luta e nas ruas por saúde, educação, transporte moradia, esporte e lazer de caráter público, com verbas públicas e de padrão FIFA. Continuaremos a denunciar o legado que a Copa nos trouxe!

Com esses direitos mínimos garantidos, faríamos uma festa muito melhor do que faz a FIFA. Sem ter que matar e desalojar vidas humanas.

 

[1] Dados Cartilha “Copa para que (m)? Quem vai pagar a conta?” do Coletivo Jubileu. Disponível em http://www.jubileusul.org.br/wp-content/uploads/2014/05/cartilha-gastos-da-Copa-final.pdf

[2]  Estes dados são relativos até 2012, ano de publicação da matéria. http://economia.ig.com.br/conheca-os-efeitos-da-copa-e-da-olimpiada-na-economia-dos-paises/n1597563440108.html

[3] http://www.jubileusul.org.br/wp-content/uploads/2014/05/cartilha-gastos-da-Copa-final.pdf

[4] http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/O-lucro-do-Itau-e-a-farra-dos-bancos/30247

 

Linnesh Ramos é professora da UEFS e do Juntos! BA

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