A hipocrisia do relato “equidistante” da mídia sobre a Palestina

18/jul/2014, 10h33

Teresa Rodríguez escreve sobre a forma como a Grande Mídia da Europa retrata o conflito da Palestina, que é análoga ao que a Grande Mídia brasileira faz.

Não é um relato novo. Trata-se de um episódio que já vimos muitas vezes, desde há muitos anos. Em alguns de nós, ainda pequenos, ficaram gravadas na retina as imagens de soldados agarrando os braços de uns meninos por lhes atirarem pedras. Eram os tempos da Primeira Intifada, em 1987, quando pela primeira vez alguns de nós assistíamos imagens que ficariam para sempre na memória pela sua violência e pela crueldade que mostrava aquele soldado contra alguém que – para mim – apenas era uma criança como eu.

Pela primeira vez o mundo assistia, através da televisão, as imagens que se repetiriam como episódios de um mesmo filme. Uma e outra vez, sucessivamente. Intifada, Operação Chumbo-Fundido, Operação Pilar Defensivo… Apesar de os títulos mudarem, o relato se repetia e os termos do mesmo era convertido em um mantra sobre uma guerra entre dois bandos que estavam em um eterno conflito. Entretanto, logo começamos a entrever que algo não se encaixava no relato equidistante dessa trágica película que de tempos em tempos aparecia nos telejornais como se tratasse de uma crônica anunciada: a narrativa intencionalmente descontextualizada, sua terminologia sempre parcial, a maneira consensual de projetar uma imagem maniqueísta de árabes e israelenses nos meios de comunicação… Tudo isso fazia pensar que havia algo por trás desse relato oficial que se pretendia ocultar a nossos olhos de forma deliberada.

O gotejamento incessante de assassinatos de palestinos e palestinas quase nunca mereceu reflexo nem menção nas notícias de nossa mídia, salvo quando Israel massacra a centenas ou milhares de pessoas como neste enésimo castigo coletivo. As notícias seguem fielmente a narrativa do enfrentamento entre dois bandos, da guerra por motivos religioso, do choque militar, da escalada bélica… E tudo isso, colocando sempre em pé de igualdade a um dos exércitos mais poderosos e com maior capacidade destrutiva do mundo e aos habitantes de um território sob ocupação que a duras penas se defendem, sem possibilidade de fugir para nenhum lado, visto que sua terra está bloqueada por terra, mar e ar (certamente, a IV Convenção de Genebra reconhece que todo povo ocupado tem direito a se defender por todos os meios de seus ocupantes).

Para a maioria dos meios de comunicação, Israel tem todo o direito do mundo de repelir “os ataques” palestinos com violência; nenhum deles menciona que pela sua condição de Estado colonial com um projeto étnico implementado sobre um território habitado por outros povos desde antes de 1948, Israel situa-se constantemente às margens do direito e da legalidade internacional ao descumprir quase cinco centenas de resoluções das Nações Unidas.

Mas as imagens são sempre as mesmas: o povo palestino se desespera impotente e a acumulação de raiva e dor faz com que os meninos atirem pedras nos tanques que ocupam o território da Cisjordânia ou foguetes na sitiada e bloqueada faixa de Gaza. Das televisões parece que estiveram gritando que somos idiotas por não nos fazerem mais perguntas. Por isso há que se fazê-las e buscar respostas que escapem ao falso relato oficial e aos falsos titulares que ocultam e distorcem a verdade sobre o que na realidade é consequência direta de manter via poder militar um projeto colonial em pleno século XXI.

Ontem começamos o dia com as manchetes de que a trégua havia sido rechaçada pelo Hamas e com um comunicado do Exército israelense instando os cidadãos do norte de Gaza a evacuar suas casas e a marchar rumo ao sul, ante a ameaça de novos e intensos bombardeios. No território mais densamente povoado do mundo (350 km2 para mais de um milhão e meio de habitantes) alguém se pergunta onde podem se esconder do fogo abrasador dos mísseis de Israel a milhares de famílias que já são refugiadas desde a primeira onda de expulsão da população árabe em 1948, ano no qual Israel proclama de maneira unilateral o nascimento de seu Estado.

Também ontem, poucas horas depois de ler as referidas manschetes e as fotos do êxodo massivo de milhares de famílias, assistíamos com horror como seis meninos que brincavam no cais da capital de Gaza puderam fugir do primeiro tiro da Armada israelense que, em seguida, reajustou a mira e lhes alcançou a partir de uma distância de 200 metros, provocando o assassinato de quatro deles. Um capitão no comando disse que “investigariam o incidente”. Os eufemismos, a hipocrisia, as constantes omissões deliberadas de pontos-chave na informação dada podem ser contadas às centenas; contudo, quase nenhum meio aborda a questão do bloqueio do corredor de Rafah, na fronteira sul, que aliviaria a situação da população palestina, por ser um corredor fundamental para pessoas e bens de primeira necessidade, como alimentos e comida. E assim poderia estar enumerando até a próxima manchete nefasta…

São muitos anos com um relato que já não cola e o mundo reage como reagiu ante o apartheid sul-africano. Por isso, estamos vendo como os povos da Europa e do mundo identificam cada vez de maneira mais rápida ao opressor e ao oprimido e como auxiliam a campanha de boicote, sanções e desinvestimentos em relação a Israel. A isso ajudam, sem dúvida, as novas tecnologias de informação e as redes sociais das quais devemos nos servir para difundir estas mensagens. O contraste entre as vergonhosas reações dos governos ocidentais, a informação publicada e a reação da população civil na rua é, no mínimo, chocante. Quando os mandatários abandonam seus deveres e fazem vista grossa ante injustiças tão sangrentas colocando-se ao lado do carrasco, comprovamos com alívio que a população civil do mundo ocupa esse lugar dando uma lição de solidariedade e de respeito à justiça.

De Paris a Johanesburgo, de Porto Alegre a Barcelona, este enésimo episódio de castigo coletivo à população palestina está sendo contestado de maneira unânime por uma imensa maré solidária que expressa seu apoio ao povo palestino e despreza os crimes de guerra de Israel. Os lemas são o resumo das medidas que poriam fim a uma ocupação colonial intolerável: cumprimento do direito internacional, sanções ao Estado de Israel, perseguição aos crimes de guerra, fim da ocupação e do regime de apartheid que Israel pratica com a população palestina. Em definitivo, cumprimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos para um povo que, desde há demasiado tempo, sofre e sangra sob a ocupação israelense.

Não é tão difícil. Só há que desnudar as mentiras do relato oficial e colocar-se no lugar do oprimido, em vez do lado do opressor.

Teresa Rodríguez é Eurodiputada de Podemos. Docente, sindicalista y activista social

Publicado originalmente em http://blogs.publico.es/otrasmiradas/2443/la-hipocresia-del-relato-equidistante-de-los-medios-sobre-palestina/

Tradução de Charles Rosa para o site do JUNTOS!

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