Luciana Genro: Gestão obscura da CBF faliu o futebol e deve ser alvo de CPI

29/jul/2014, 12h00

*Luciana Genro

A Copa do Mundo terminou. A participação da seleção brasileira foi vexatória. As causas da goleada de 7 a 1 para a tetracampeã Alemanha não se explicam pelo “apagão” de seis minutos.

O desempenho da seleção na Copa revela a profunda crise que vive o nosso esporte. Uma crise que se expressou em campo e fora dele. O obscuro comando do futebol através da Fifa e da CBF merece nossa máxima atenção.

A Fifa impôs e o governo brasileiro aceitou um modelo de Copa do Mundo inconcebível para a realidade do país. Os R$ 25 bilhões gastos em estádios – em um país com precárias redes de educação, saúde e transporte público – e a aprovação pelo Congresso Nacional da Lei Geral da Copa, que feriu a soberania do Estado brasileiro, foram alguns dos escândalos desse mundial.

Registro com muito orgulho que o PSOL foi o único partido, como bancada, a votar contra a Lei Geral da Copa. Agrega-se às falcatruas da Fifa o desmantelamento da quadrilha de cambistas comandada por parentes e sócios diretos de Joseph Blatter, presidente da entidade, através de Raymond Whelan, presidente da Match. O esquema dos ingressos rendia cerca de R$ 1 milhão por jogo, segundo a Polícia Civil.

A CBF, por sua vez, teve e tem na sua presidência dirigentes altamente contestáveis. Ricardo Teixeira adquiriu poder e ampliou sua fortuna no comando da confederação. O esquema que montou no Comitê Organizador Local (COL) lhe rendeu altos dividendos econômicos e políticos.

Chegou a declarar à revista Piauí, em 2011, que seria capaz de realizar “todo o tipo de maldade”, tamanho controle que tinha da Copa no Brasil. Autointitulou-se presidente do COL, e empregou sua filha e outros parentes na entidade. Foi obrigado a renunciar graças à pressão da sociedade.

Em seu lugar, assumiu uma das figuras mais proeminentes da política paulista na ditadura militar. José Maria Marin, no exercício de mandato de deputado estadual pela Arena, teceu duras críticas ao jornalismo da TV Cultura, sendo parte da campanha de perseguição e censura que terminou com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Dops, em São Paulo.

Esse modelo de gestão, que também se aplica às federações estaduais e aos clubes, faliu a seleção brasileira em campo e está sob suspeição de crimes, como sonegação de impostos, apropriação indébita, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Observamos que o discurso crítico de Dilma à Fifa e à CBF ficou na retórica. A presidente do país encerrou a Copa lado a lado com Marin e Blatter. Aécio é ainda pior. Tem José Maria Marin como cabo eleitoral. Seu compromisso é com a manutenção dos privilégios dos cartolas, mantendo a farra da elite que coordena o futebol.

Diante desse quadro, defendemos, imediatamente, junto com o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), a instalação da CPI da CBF/Fifa para apurar todas as denúncias e desmantelar os esquemas ilícitos. Da nossa parte, propomos uma mudança estratégica dentro e fora dos campos.

Propostas

Identificamos as propostas apresentadas pelo movimento dos jogadores do Bom Senso FC, liderados pelo zagueiro Paulo André; a inteligência da crônica esportiva, capitaneada por Juca Kfouri; lideranças da sociedade civil, como o professor João Paulo Medina, da Universidade do Futebol, como o melhor ponto de partida para essa mudança estratégica.

É fundamental dar voz aos jogadores e punir os escândalos da cartolagem.  Objetivamente, defendo um novo plano de desenvolvimento do futebol, com reestruturação do calendário do futebol brasileiro, no modelo proposto pelo Bom Senso FC.

Defendo também uma nova estrutura das categorias de base, em que o clubes tenham que atender a um mínimo exigido na formação de novos atletas e profissionais do esporte. Quero ainda a vinculação do esporte com o incentivo à educação e a saúde, mais campos e quadras públicas e a quebra do monopólio dos direitos de uma ou outra rede de TV.

Defendo ainda aumentar a presença do torcedor, através da criação de ouvidorias estaduais, a criação de um conselho nacional de torcedores e também fair play financeiro para os contratos de clubes e atletas, além de teto nos preços de ingresso.

A luta por essa transformação é fundamental para que o futebol volte a ser de quem é de direito: do povo.

Luciana Genro é candidata à Presidência pelo PSOL e conta com o apoio do Juntos para  fortalecer os sonhos e os desejos de mudança da juventude.

 

Fonte: UOL