Negra é a raiz da liberdade

25/jul/2014, 16h00

Por Maria Luiza Perroni, Luana Alves e Tati Ribeiro*

“Mulher negra não se acostume com termo depreciativo

Não é melhor ter cabelo liso, nariz fino

Nossos traços faciais são como letras de um documento

Que mantém vivo o maior crime de todos os tempos […]”

Hoje é dia da mulher negra latino americana e caribenha. Desde 25 de julho de 1992, quando as mulheres reunidas 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe decidiram declarar esse dia como marco da resistência da mulher negra, diversos debates e festivais são organizados em várias cidades nesta data. Discutem-se  formas de combater continuamente o racismo e o machismo, tão enraizados no continente latino-americano.

Não surpreende que, ainda hoje no Brasil, se levantem vozes questionando e protestando pela própria existência desse dia. Argumentam que não é preciso o dia da mulher negra, se não tem o dia da mulher branca. Isso sim, afirmam as vozes incomodadas com a resistência e auto-afirmação negras, seria “racismo pelas avessas”. Se são todos iguais, pra quê se auto-afirmar? Esse discurso não é novo aos que lutam contra a opressão. Fala-se o mesmo a respeito do Dia Internacional da Mulher, e também do Dia Nacional da Consciência Negra. Parece que existe um esforço para não enxergar a discriminação e a exploração contra os negros e negras, e contra as mulheres em geral. Quando se enxerga, a luta de resistência dessas minorias políticas não é reconhecida, ou sistematicamente questionada pelos que não sofrem a opressão.

A mulher negra é oprimida duas vezes. Primeiro por ser mulher, uma vez que a nossa sociedade é patriarcal e estruturalmente machista. Segundo por ser negra, já que além de machista, historicamente a nossa sociedade apresenta um racismo arraigado. Sendo assim a mulher negra é um dos elos mais fracos nas relações sociais, não é difícil perceber isso quando se faz uma breve análise histórica.

No período da escravidão, que teve duração no Brasil de quase quatro séculos, as mulheres negras eram exploradas economicamente e sexualmente. Porém, o que se observa hoje em pleno século XXI é que houve apenas uma transição, sem mudança de fato para essas mulheres que saíram da senzala e foram para a periferia dos grandes centros urbanos privadas de saúde, educação e transporte de qualidade. Essas mulheres deixaram de trabalhar como escravas na casa grande de seus senhores e hoje trabalham como empregadas domésticas, um dos serviços de maior precarização.  Somente no ano de 2013, 125 anos após a data da abolição da escravatura,  foi aprovada uma lei que regulariza tal serviço e prevê para a categoria os direitos trabalhistas que já existem. A lei, porém, não foi sequer regulamentada e ainda não existe na prática. Há também pesquisas que demonstram que 60% das mulheres negras ganham em média um salário mínimo. Ou seja, a exploração econômica da mulher negra permanece, a diferença é que hoje essa exploração aparece de uma forma sutil e maquiada.

Não obstante, essas mulheres ainda sofrem mais uma forma de exploração sexual, com a imagem da negra e mulata brasileira “tipo exportação” sendo comercializada como anúncio mundial, vinculada à ideia de mero objeto sexual disponível para a satisfação dos prazeres sexuais do homem, em especial do homem branco.

Quando aparecem em novelas e histórias de tv, quase sempre são ligadas a personagens subalternos e periféricos.

No meio de tudo isso, há o padrão de beleza predominante nos países da América Latina e no Caribe, no qual as mulheres de pele escura e cabelos crespos não se enquadram. O que é considerado belo nesses países explorados pela colonização é o padrão europeu: Mulher branca, cabelos lisos e olhos claros. É esse tipo físico, constantemente veiculado nas mídias e nos filmes, que serve como referência de normalidade, como padrão do que é aceitável. É esse modelo de bonito e normal que cada vez mais faz com que meninas, quase crianças, queiram alisar os seus cabelos para serem aceitas socialmente. É justamente esse tipo de imagem que faz com que as mulheres negras se sintam inferiores às mulheres brancas.

A mulher branca é valorizada todos dias pois se enquadra no padrão estético, por isso é fundamental ter um dia como este que busque a conscientização da sociedade como um todo e a valorização das mulheres negras, que são fortes e lindas pela sua história. O racismo e o machismo se expressam nos mais variados níveis e situações, então são necessárias várias formas de resistência à opressão. Instituindo um dia especial para se falar sobre isso, lutando pela aplicação da Lei das Domésticas, se auto-afirmando negra, defendendo cotas raciais, reagindo contra o racismo. Recentemente, uma jornalista negra foi obrigada a prender seus cabelos volumosos para ser aceita na foto do sistema de passaportes da polícia federal brasileira. Não se calou diante da situação. Denunciou o “sistema” racista da PF, fez barulho e a história despertou repercussão e debates na grande mídia e na sociedade brasileira. No Brasil e na América Latina, muitas mulheres negras não se calam mais, e se calarão cada vez menos. A partir da organização e da irmandade entre as mulheres, a luta segue e a força e a resistência só crescem.

 *Maria Luiza Perroni, Luana Alves e Tatiane Ribeiro são militantes  do Juntos Negros e Negras SP