Palestina e o genocídio planificado por Israel

26/jul/2014, 16h57

*Sergio García

Cronologia e dados para entender o conflito

Nascimento do sionismo: O nascimento político como movimento ideológico do sionismo remonta o final do século XIX. Seu fundador foi um jornalista austro-húngaro de origem judia chamado Theodor Herzl, responsável por impulsionar a migração judia para a “terra prometida”. A base da mentira pode ser sintetizada na frase “uma terra sem povo para um povo sem terra”, quando na realidade ali vivia o povo palestino há centenas de anos. Desde o início do século XX, aos poucos, a imigração judia vai sendo instalada.

Palestina no início do século XX: Era um território sob o domínio do império otomano. Com o fim da 1ª Guerra Mundial e a queda deste império, a Sociedade das Nações (antecessora da ONU) outorgou um mandato britânico ao território palestino, onde em 1920 residia uma população palestina bastante ampla (mais de 700 000 pessoas) sobre uma clara minoria judaica (por volta de 150 000 habitantes).

Fundação do Estado de Israel: Encerrada a 2ª Guerra Mundial e apoiado no honesto sentimento mundial contra os crimes do nazismo sobre o povo judeu, a ONU formula uma resolução em 1947 propondo bipartir o território palestino que estava sob mandato britânico. Assim a ONU e o imperialismo utilizam o contexto para legalizar um plano sinistro: a usurpação do território palestino. Assim nasce o Estado de Israel em 1948. É outorgado 52% do território para Israel e 48% para os palestinos, ainda que ali habitassem 1 300 000 palestinos e 600 000 judeus. Na parte que foi concedida para Israel viviam mais de 900000 palestinos, motivo pelo qual o sionismo fomentou organizações paramilitares que arrasaram povos e aldeias em uma limpeza étnica. Em 6 meses, restaram apenas 140 000 palestinos ali. O objetivo por trás da fundação de Israel era o de montar um enclave militar pró-imperialista numa das zonas mais ricas em matéria petrolífera e controlar o ascenso dos povos árabes.

Nascimento da OLP: Através de uma resolução da Liga Árabe, em 1964 avança-se no sentido de criar uma organização que represente o conjunto do povo palestino. Nasce a OLP em Jerusalém Oriental e seu programa empalma a destruição do Estado de Israel e o retorno dos palestinos exilados. O primeiro presidente da OLP foi Ahmed Shukeiri. Em 1969 e depois da derrota árabe na guerra dos seis dias assume Yasser Arafat, o líder do Al-Fatah, setor predominante na OLP. Em 1974, a ONU reconhece a OLP como representante do povo palestino.

A Guerra dos Seis Dias: Ocorrida em junho de 1967 entre Israel e a Republica Árabe Unida (Egito, Jordânia, Síria e Iraque). Israel avançou e conquistou os territórios da Península do Sinai, Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã, Cisjordânia e Gaza.

Acordo de Camp David: Assinado no ano de 1978 pelo presidente egípcio Anwar el-Sadat e o primeiro-ministro israelense Mena-Chem Begin, após semanas de negociações secretas mediadas pelos EUA. Significou um ponto de inflexão, uma vez que um importante país árabe limítrofe com a Palestina, acabou por reconhecer Israel e trair a causa Palestina.

Intifada: “Revolta” árabe, notabilizou-se como a rebelião dos jovens palestinos contra os tanques do exército de Israel. A primeira Intifada ocorreu em 1987. Com pedras na mão, centenas de meninos enfrentaram os soldados israelenses naquela que ficou conhecida como a “batalha das pedras” com enorme heroísmo. A segunda intifada foi no ano 2000 também encabeçada pela juventude palestina contra uma provocação israelense na Cisjordânia.

Acordos de Oslo: Com o aval dos EUA, o governo de Israel e a OLP comandada por Arafat assinaram o acordo em 1993. Reconhecia a existência do Estado de Israel, seu direito de tomar conta das fronteiras e da segurança dos judeus que habitam o território palestino. Além disso, prometia a constituição de um governo palestino em Gaza e Cisjordânia. É o ponto central da capitulação ao sionismo por parte da direção palestina, que abandonava assim o programa da OLP.

Primeira derrota militar de Israel: Ocorreu em 2006 no Líbano e constituiu o fato que golpeou a concepção sionista de ter um exército invencível. Israel sofreu uma retumbante surra por parte do Hezbolla e de outros setores em combate.

Hamas: Fundada em 1987 é uma organização política e militar islâmica que governa a Faixa de Gaza depois de fortes disputas com Al-Fatah. Um dos alvos principais do exército israelense, foi declarada “terrorista” pelos países imperialistas. Em abril deste ano, Hamas e Al-Fatah apresentaram um acordo para um governo de unidade e uma convocatória para eleições em janeiro de 2015.

Reivindicação palestina na ONU: O presidente palestino, Mahmud Abbas, apresentou em setembro de 2011 uma solicitação na ONU para que reconheça o estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como sua capital. Em 2012, alcança o caráter de “estado-observador não-membro”, sendo assim negado o reconhecimento pleno.

Faixa de Gaza: Atualmente sob o governo de Hamas, tem um território de 360 km quadrados, sendo somente 45 km de largura e apenas  entre 6 e 7 km de comprimento. É o território com maior densidade populacional do planeta com 4742 de pessoas por km2. Com cerca de 1 800 000 palestinos vivendo em condições precárias, é atualmente atacada por mísseis e tanques israelenses.

Cisjordânia: Atualmente sob o governo do Al-Fatah, tem 5640 km2 e vivem mais de 2500000 de pessoas. As melhores terras da região se encontram nas mãos dos colonos judeus supervisionados pelo exército israelense e com um grande muro com arames farpados de mais de 700 km que divide o território e famílias palestinas de seus locais de trabalho.

Palestinos no exílio: há mais de 6 000 000 fora de Gaza, Cisjordânia e Israel. Seu êxodo começou em 1948 com a repressão sofrida na fundação de Israel, cresceu com a guerra de 1967 e hoje somam as descendências dessas famílias. A maioria está em países limítrofes e centenas de milhares vivem em campos de refugiados da Jordânia, Síria e Líbano.

A imagem de um menino palestino com o seu corpo destroçado em consequência da explosão de um míssil israelense em Gaza nos indigna, nos comove, nos impulsiona a sair para a rua, a nos solidarizar e a exigir o fim dos ataques. Mas a imagem desse menino não é só uma nem é só esta vez. Contam-se já mais de 600 mortos, milhares de feridos, dezenas de milhares de refugiados escapando da morte, mães que perdem seus filhos e meninos que ficam sem mães, buscando entre os escombros a seus entes queridos.

Assim vive hoje a Palestina, povo pobre, atacado, assediado, sem luz nem água, com suas terras ocupadas, com Gaza e Cisjordânia divididas impossibilitando o desenvolvimento de um projeto de país. Com muros e alambrados que os rodeiam e 500 000 colonos judeus que na ponta do fuzil estendendo de fato o poder sionista. Agora se somou a chuva de mísseis e a invasão por terra. É um modelo de conduta brutal e recorrente.

Após as longas penúrias sofridas no século XX, com o início do novo século e com distintos nomes, a morte continuou assolando o povo palestino. O ataque a Cisjordânia em 2002 foi chamado de “Cinturão defensivo em abril”; “Dias de penitência” em 2004; Israel chamou de “Chuvas de Verão” a seu plano de ataque e lançamento de mísseis de 2006 com 500 mortos. No final de 2008 e início de 2009, “Chumbo derretido” foi o nome de outro massacre. E em 2012, “Pilar defensivo” foi a denominação de outro ataque assassino sobre o povo palestino. Hoje, sob o nome de operação “Margem Protetora” se desenvolve uma nova escalada sangrenta. Segundo o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, esta é a única saída viável. São definições de um genocida.

Os nomes militares dados pelo exército sionista são variados, mas o nome comum é um só: genocídio planificado. Isso e não outra coisa é o que está ocorrendo. Não é uma guerra nem há dois bandos iguais. As imagens que mostram a destruição de Gaza recordam a Guernica bombardeada, ou a Varsóvia atacada na segunda guerra mundial, destruída pela Alemanha nazi. O estado de Israel, inventado e imposto a sangue e fogo em 1948, com um dos exércitos mais poderosos financiado pelos EUA, realiza sistemáticos ataques de limpeza étnica contra a população civil. É a atuação de um regime de características nazi-fascistas que se nega a perder o controle da região, que é sua razão de existir como ponta-de-lança imperialista do Oriente Médio e como necessidade de sua própria burguesia.

O contexto de crise global e a primavera árabe

O mundo de início de milênio encontrou o capitalismo imperialista em uma de suas piores crises. Vivemos o ponto mais notório da debilidade imperialista: blocos regionais em conflito, crises, guerras, quedas de governos. Avanços e retrocessos. Instabilidade e descontrole. O tempo que está por vir terá muitos desses elementos e encontrando-se nessa situação, os EUA tentam manter seu domínio. Neste contexto surgiu a primavera árabe, que convulsionou os planos imperialistas. Há poucos de anos caíram ditaduras no Egito e na Tunísia, desenvolveram-se mobilizações em outros países fronteiriços marcharam com suas reclamações. Abriram-se as fronteiras entre Egito e Palestina e no interior de Israel começaram marchas, reivindicações e crise em suas instituições. Tudo isso atemorizou o sionismo e os EUA.

Lamentavelmente, essa “primavera” hoje atravessa um momento distinto. Embora no Iraque uma sublevação popular tenha tirado a arquitetura desenhada pelos EUA, no Egito voltou outra ditadura e na Síria não caiu o ditador Assad. O novo ataque de Israel parte deste contexto, de um momento mais contraditório da onda revolucionária na região que lhe permite ter como cúmplices a duas ditaduras em países limítrofes. Apoia-se nessa situação para golpear a causa palestina e evitar que uma nova mudança de situação questione o seu poder e seu estado. Israel que acabar hoje com o pouco que tem o povo palestino, arrasá-lo, seguir estendendo seu domínio e evitar um problema no futuro, fazendo fracassar hoje o débil governo de unidade palestino. Sabe que para além do momento particular da região o contexto mundial é de continuidade da instabilidade. Cedo ou tarde trará uma nova onda de mobilizações e tensão no povo árabe que pode re-fortalecer a causa palestina. Israel brinca com fogo; já que dialeticamente sua brutalidade pode fazer ampliar o apoio à Palestina, embora conte com apoio imperialista, é muito repudiado no movimento de massas.

As consequências das negociações que debilitaram a causa palestina

Em 1964, nascia a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) unificando as forças políticas e sob um programa muito positivo que defendia a destruição do Estado de Israel e a construção de um estado palestino, laico, democrático e não-racista, onde poderiam viver também os judeus que quisessem fazê-lo. Com o correr dos anos Al-Fatah, a direção majoritária da OLP, foi se adaptando e terminou negociando a existência do Estado de Israel, ou seja, abandonou o seu programa histórico. Este cedeu lugar em 1993 à assinatura da política de “dois estados” que respaldou a usurpação de Israel e sobretudo não assegurou que houvesse um estado palestino.

Com o argumento de obter um estado próprio, ainda que fosse em parte de seu território e de terminar com as mortes, capitulou-se ao imperialismo e ao sionismo. A realidade é que 21 anos depois não se conseguiu o reconhecimento desse pequeno estado e menos ainda terminar com o extermínio. Palestina sofre a mão assassina do exército de Israel. A Autoridade Palestina é ignorada, com um quase nulo poder territorial e rodeado de tanques. Enquanto Israel longe de se conformar segue avançando sobre o já muito limitado território palestino; é a essência de seu colonialismo ao melhor estilo do apartheid. Logicamente, na situação atual de morte e extermínio, setores do próprio povo palestino enxergam como positivo a aprovação da ONU quanto à existência do estado palestino mesmo que apenas em parte do seu território. Nós respeitamos esse sentimento e compreendemos a necessidade conjuntural de derrotar Israel na ONU onde se nega o reconhecimento à Palestina. Sem que isto signifique abandonar a única proposta correta e impostergável; que é a construção de um só estado, palestino, laico, democrático e não-racista.

A vigência de uma proposta: Um estado palestino laico, democrático e não-racista

Se uma grande quantidade de setores tende a considerar irreversível a existência do Estado de Israel, acreditamos que não é assim. Seu desmantelamento econômico-político-militar é um objetivo que se torna possível com o povo palestino e árabe unido e mobilizado, e é a única saída para o conflito, que segue de mãos dadas com a construção de um só estado palestino, laico, democrático e não-racista. Até que não se consiga isto não haverá paz nem futuro para o povo palestino que não pode renunciar a sua própria terra nem a ser nação, nem tampouco para os honestos trabalhadores e jovens judeus que queiram ter uma vida digna com direitos iguais.

Um importante setor israelense lamentavelmente está ganho para justificar o sionismo e defender seu estado militarista. Outros não. É imprescindível que os jovens e trabalhadores judeus que não são responsáveis do genocídio reflitam. Nenhuma pessoa que queira uma vida e um futuro para seus filhos pode aceitar o estado terrorista de Israel. Ninguém pode viver em um clima de guerra permanente, com filhos obrigados a ser reservistas e ponta-de-lança de colonos que vão tomando terras alheias. Em um regime que da porta para dentro é repressivo com sua própria população. Os judeus honestos têm que se opor a este regime genocida.

Pare a agressão sionista!

O mundo levantou a voz no século XX contra o genocídio perpetrado pelo nazismo alemão contra o povo judeu. Hoje está levantando a voz contra o genocídio consumado por Israel com mobilizações em cada continente. Artistas, esportistas, cientistas, intelectuais; milhares se pronunciam contra os ataques de Israel. Por esse caminho temos que seguir até frear esta nova escalada sionista, que é contra a Palestina e contra a humanidade. Convocamos a mais ampla unidade de ação em defesa do povo palestino, pelo fim da incursão e os bombardeios de Israel. Frear este massacre é uma tarefa essencial que toda a esquerda e as organizações sociais, sindicais, estudantis e de direitos humanos temos que encarar em comum.

Por fim, exigimos o fim do bloqueio sobre Gaza, a retirada dos assentamentos de colonos e o fim do muro e controle do exército sionista ao redor da Cisjordânia, como passos essenciais na até a recuperação de todo o território palestino. E em nosso país, repudiamos a declaração do governo argentino que avaliza a teoria dos “dois demônios”. Exigimos o governo argentino a ruptura de relações com Israel e a anulação do acordo de livre-comércio Mercosul-Israel.

Sergio García é um dirigente político e sindical argentino do Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST), organização internacionalista companheira do Juntos! 

Original em: corrientemovimiento.org/palestina/palestina-y-el-genocidio-planificado-por-israel/

Tradução para o português: Charles Rosa