Por que somos contra o Ensino Integral de São Paulo

09/jul/2014, 16h45

*Caio Fucidji e Icaro Bendas

Não é segredo para ninguém que o sistema educacional precisa de uma reforma. E não falamos apenas das escolas sucateadas, sem infraestrutura e material didático. A estrutura de ensino é autoritária e nos treina a reproduzir vícios da sociedade, não nos prepara nem pro ingresso na universidade nem para o mercado de trabalho. Nos últimos anos, o número de Escolas de Tempo Integral vêm crescendo exponencialmente no nosso país. Ensino Médio Integral do ICE, ETIM do Centro Paula Souza e diversos outros programas de Ensino Integral: Projetos que teoricamente, preparam o jovem para o mercado de trabalho e desenvolvem sua autonomia e independência, vêm sendo desmascarado pelos próprios alunos e professores dessas redes.

Desenvolvido pelo ICE (Instituto de Co-responsabilidade pela Educação – uma entidade privada), o projeto megalomaníaco de Ensino Integral que “pretende tornar a educação do Brasil uma das mais avançadas do mundo até 2030”, conta com jornada de estudos de até nove horas e meia e trabalha com a grade curricular regular, além das matérias Projeto de Vida e Eletivas e tempo destinado ao desenvolvimento dos chamados Clubes Juvenis. Estes últimos constituem o “diferencial” do programa: O Projeto de Vida deveria auxiliar o jovem a trilhar objetivos para seu futuro profissional, mas na prática apenas colabora para a formação de mão de obra barata: as aulas Eletivas deveriam contemplar propostas de aula elaboradas por professores e alunos, mas este objetivo não se realiza uma vez que instituições privadas como SENAI e SENAC oferecem verba e ajuda de custos em troca da promoção de seus cursos tecnicistas; o Clube Juvenil é um espaço de encontro de estudantes destinado ao desenvolvimento de uma atividade que seja de interesse dos mesmos (contanto que não tenha fins considerados “imorais, ilegais ou políticos” para o governo) e surgiria como o único espaço onde os jovens têm autonomia nas escolhas das atividades, não fosse pela direção fiscalizando e vetando projetos de modo arbitrário o tempo todo. No Estado de São Paulo, aos professores e funcionários da Escola de Tempo Integral do ICE é proibido a organização em sindicato, uma medida criminosa do governo estadual, que limita totalmente a intervenção dos trabalhadores da rede nos projetos de ensino e facilita as atitudes arbitrárias dos órgãos públicos, que tocam o curso da escola como bem entendem.

Se a Escola de Tempo Integral busca formar mão-de-obra barata através de vias lúdicas como os Clubes Juvenis e o Projeto de Vida, o ETIM – Ensino Técnico Integrado, elaborado pelo Centro Paula Souza em São Paulo, trabalha de forma mais incisiva, sem medo de mostrar seu caráter tecnicista: Os alunos do Ensino Técnico Integrado das ETECs, a menina dos olhos do governo Alckmin, estudam sete horas por dia e trabalham a grade curricular regular reduzida (menos aulas de matérias obrigatórias no Ensino Médio), além das matérias do curso técnico. Mas a grande maioria das ETECs, além de não possuir infraestrutura adequada para desenvolver as aulas do ensino Técnico e do Médio, ainda contam com a precarização dos professores (que ganham menos de R$15 por hora/aula) e não tem plano de carreira, a reivindicação central da greve do CETEEPS deste ano.

Uma escola de qualidade é aquela que nos ensina a pensar e não a obedecer o sistema! É a escola que abre diálogo com os alunos, sem medo de debater drogas, sexualidade, identidade de gênero. As reformas do governo Alckmin, que tem apoio do governo Federal em diversos estados, não representam o modelo de educação pelo qual nós lutamos! Queremos sim uma reforma do Ensino Médio, mas queremos que ela seja pensada pelos estudantes, funcionários e professores e não pelos empresários e grandes barões da educação.

*Caio Fucidji (ex-aluno de uma escola em tempo integral) e Icaro Bendas, ambos do grêmio da ETEC Guaracy Silveira