Eduardo Galeano: “Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel a está apagando do mapa”

01/ago/2014, 12h19

*Eduardo Galeano

Desde 1948 os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu todo. Nem sequer têm o direito de escolher seus governantes.

Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Se converteu em uma ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições de 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.

Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem. São filhos da impotência dos foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com fracassada pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelita usurpou.

E a desesperação, à beira da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há anos, o direito à existência da Palestina.

Agora resta pouco da Palestina.

Passo a passo, Israel a está apagando do mapa.

Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira.

As balas consagram a desapropriação, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva.

Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha.

Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo.

Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel engole outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam.

*Eduardo Galeano é escritor e jornalista