Os negros são quase brancos: para vereador, amor interracial é embranquecer

14/ago/2014, 18h37

Recentemente tem ganhado repercussão um caso de racismo praticado pelo vereador Wilson B. Duarte da Silva (PMDB) do Rio Grande do Sul, em uma discussão na Câmara do estado, acerca de um projeto de lei que implementa 20% das vagas no serviço público municipal, reservadas para negros e pardos.

Os presentes na Casa Legislativa, dentre eles representantes de movimentos negros, se surpreenderam com o vereador quando este afirmou que não eram necessárias tais medidas de inclusão pois “os negros querem se favorecer, isso que é racismo, afinal os negros já estão quase brancos, estão saindo com loira, polaca, estão comendo em restaurantes…”.

O vereador, mais conhecido como Kanelão, com tal discurso prestou um diserviço ao movimento negro, e reproduziu mais uma vez o racismo tão arraigado na nossa sociedade.  Proferindo essa fala desconsidera a luta cotidiana contra o racismo, que procura incluir socialmente e economicamente um povo historicamente oprimido e, se mostra incapaz de perceber a realidade da população negra. Uma população, que em sua maioria vive na periferia e com baixa renda, privada de saúde, educação, e serviços públicos de qualidade. Medidas de inclusão como, por exemplo, a questão das cotas nas universidades e esse projeto de lei no Rio Grande do Sul, são de extrema importância na medida em que se reconhece que, infelizmente, brancos e negros não se encontram no mesmo patamar de valorização, e justamente por isso é necessário que se crie ações afirmativas, que não representam, de forma alguma, o racismo, como afirmou o vereador, mas que representam a continuidade da luta na equiparação racial. Não compreender essa situação é fechar os olhos para o racismo, e querer finalizar uma luta que nem chegou próxima da sua vitória.

Tais discursos, impregnados de uma das maiores opressões da humanidade, considerando que historicamente brancos sempre foram favorecidos e “superiores” às demais raças, demonstram a urgência de um movimento negro novo, forte, combativo que não se cale mais diante dessas opressões raciais, e que prossiga marchando,incessantemente, em busca da igualdade racial. É necessário a (re)organização da população negra, da sua conscientização e, consequentemente, do seu empoderamento, para que se perceba, por esse povo oprimido, a situação tão velada, de exclusão que lhe é imposta e dessa forma que se trave uma das maiores batalhas que a humanidade já vivenciou, tanto por ser longo o processo de desconstrução do racismo quanto por ser grandioso o objetivo do movimento negro.

*Por Juntos! Negros e Negras